domingo, 30 de outubro de 2005

Entrevista: WELLINGTON ASSIS

O MINEIRINHO DA VIOLA CAIPIRA


O entrevistado do mês passou parte da vida no meio do mato e até hoje nunca viu o mar. Típico caipira mineiro, Wellington Assis falou de sua história, as dificuldades que enfrentou, os planos para o futuro... Enfim, revelou sua saga com um humor fino e invejável, com exclusividade para o Zona Sul.

Wellington de Assis Silva tem 22 anos e nasceu em Campina Verde, Minas Gerais. Há cerca de dois, ensaia em Brasília os primeiros passos de sua carreira profissional. A música caipira corre em suas veias. É com ela que o violeiro pretende contribuir para que as pessoas sejam mais felizes. Bom de conversa, voz de mineiro, daqueles matutos mesmo que arrastam erres e economizam letras, Wellington é uma das principais revelações da música caipira. Em uma noite no Bar do Chico, no Clube da Imprensa de Brasília, conversei com Wellington acompanhado da jornalista Tida Medeiros e do estudioso nas coisas piauienses e eleitor inveterado do senador Mão Santa, Chiquinho Sales. O resultado do bate-papo você pode conferir agora. (Roberto Homem)


ZONA SUL – Recentemente você realizou duas apresentações no Centro Cultural de Brasília e outras duas no Feitiço Mineiro - espaços importantes da noite brasiliense - sempre com casa cheia e com direito a unânimes elogios. O que você achou desses espetáculos?
WELLINGTON – Eu gostei muito e, para falar a verdade, tenho adorando cada vez mais. Estou muito feliz não apenas porque contei com a participação dos amigos na platéia, mas também com a presença de um público que ainda não conhecia meu trabalho. Apareceu nesses shows muita gente que eu não conhecia e que adora a música caipira. Recentemente fui convidado para participar de muitos eventos, como um encontro de violeiros promovido pelo Sesc (Serviço Social do Comércio) de Samambaia, junto com Zé Mulato e Cassiano, Marcos Mesquita e Aparício Ribeiro – todos eles violeiros de Brasília que fazem sucesso em todo o país. Zé Mulato e Cassiano, por exemplo, formam hoje a dupla caipira mais conhecida. A cada dia que passa as coisas começam a acontecer para mim.

ZONA SUL – Onde foi o seu primeiro show?
WELLINGTON – Foi no Feitiço Mineiro, onde fui acompanhado por Marcos Mesquita, que tocou viola e violão, e por Fabinho Pessoa, no baixo. No Centro Cultural de Brasília, o Erick Germano tocou bateria, o Fabinho Pessoa continuou no baixo e o Cássio Rei conduziu seu violão e cantou comigo. A produção dos meus shows tem sido de Marcos Mesquita. Recentemente fiz uma apresentação na minha cidade, Campina Verde, à convite da prefeitura. Foi muito bom. Fabinho, Cássio e Erick foram comigo. O show, em praça pública, integrou a programação da semana do folclore de lá. Foi aberto ao público com barraquinhas e muita coisa na rua. Todo ano tem esse evento. Em 2004 o convidado foi Roberto Corrêa.

ZONA SUL – Brasília é conhecida nacionalmente como uma cidade roqueira. De lá saíram várias bandas que fizeram sucesso no país. Qual o público na cidade que curte a música caipira? É um pessoal que curte rock and roll também?
WELLINGTON – Chega a ser engraçado. Na Escola de Música, onde estudo, é comum ver o pessoal que gosta de rock, que estuda guitarra, parar para ver quando estamos fazendo recitais de música caipira. O som da viola é admirado por todos. Quem toca MPB, gosta; quem toca clássico, gosta; quem toca música caipira, gosta mais ainda; quem toca sertanejo... Quando comecei a estudar lá, achei interessante o fato do roqueiro gostar de viola. Achava que o cara que tocava rock só gostava desse estilo de música. Percebi que não é verdade. A maioria deles também gosta da viola, acha seu som interessante. Mas a música caipira mesmo - aquele som cantado de Tião Carreiro e Pardinho, Zé Mulato e Cassiano - tem seu público caipira bem fechado. A música caipira instrumental é que abrange mais pessoas: desde o rock até a MPB. Na Escola de Música mesmo eu convido baixistas de rock para acompanharem quando vou tocar viola. Eles se interessam, curtem e adoram participar.

ZONA SUL – Qual a diferença entre a música caipira e a sertaneja?
WELLINGTON – A diferença é grande. A música caipira é mais ligada na terra, fala de sentimento. A moda de viola geralmente conta história de alguém que morreu, um fato ocorrido numa fazenda, o boi que salvou um menino, o fazendeiro que teve que vender suas terras, ficou pobre, mudou-se para a cidade e está sofrendo lá... Essa é a moda de viola, a raiz. Fala de natureza, do mato, do sertão. Já a música sertaneja é mais um country americanizado, um negócio mais choroso, falando de paixão, de chifre... Você pode notar que a música sertaneja é passageira, são três meses só de sucesso e depois é esquecida. A música caipira não, ela sequer envelhece com o passar do tempo. Tem essa diferença: a caipira é raiz de verdade, e a sertaneja passa, não tem essa força que a música caipira tem.

ZONA SUL – A música de raiz ganhou ou perdeu com a massificação do sertanejo?
WELLINGTON – Eu ainda não descobri a resposta. Acho que, ao mesmo tempo em que dá uma forcinha, destrói também. Quem vive mesmo a música caipira, a música de raiz, é porque gosta. Nós da música caipira não pensamos em platéias de milhões, mas nos contentamos com um número pequeno de pessoas boas, de pessoas unidas que gostam da música de verdade, que valorizam e respeitam o trabalho. Estamos acostumados a ver muito show grande em que a movimentação é mais valorizada que o próprio som, e isso não é interessante. Queremos que as pessoas escutem a letra do que estamos cantando, prestem atenção ao ponteado, ao toque, escutem e prestem atenção nas histórias reais da vida no mato, que são tema das canções. A música caipira só perde quando é confundida com a sertaneja. Não é. A música caipira tem tradição, já a sertaneja é visa mais vender, o interesse maior é em grana, em dinheiro. A dupla caipira pensa em cantar, em ser feliz e em fazer alguém feliz, passar aquela coisa do sertão para as pessoas.

ZONA SUL – O músico caipira é valorizado pela indústria fonográfica?
WELLINGTON – Não é muito não, as duplas caipiras não são colocadas no patamar que mereciam estar. Mas, na verdade, os caipiras não se preocupam muito com isso. Você vê Zé Mulato e Marciano, a melhor dupla caipira da atualidade, eles se preocupam em fazer boa música, tocar bem e passar da melhor maneira possível a sua mensagem. Não estão preocupados, nem tem interesse, em dividir espaço na mídia com a música sertaneja. Sei que é bom estar na mídia, ser falado, mas não a qualquer custo. Sinto que a música caipira está crescendo. Sou professor de viola e vejo muita gente me procurar com 12, 13, 14 anos pra aprender o instrumento. Da mesma maneira que me procuram com 60 ou mais. Prova de que a viola não tem idade. Todo mundo gosta. Quando estou tocando, fazendo show, as pessoas de idade, as senhoras, chegam, me abraçam, querem conversar comigo. Comentam: “que coisa mais bonita, você tão novo tocando viola”. Isso é interessante porque não deixa a tradição da música caipira acabar.

ZONA SUL – Você agora está em estúdio gravando seu primeiro CD...
WELLINGTON – Isso mesmo. Estou gravando meu primeiro CD com a produção de Marcos Mesquita, que sempre me acompanha. Estou pretendendo mostrar músicas de violeiros que moram em Brasília, como Zé Mulato e Cassiano, Aparício Ribeiro, Marcos Mesquita, Advogado e Engenheiro, Armindo Nogueira e outros mais. Minha intenção é gravar música nova de violeiros nascidos ou radicados em Brasília. É um CD instrumental muito animado, tenho certeza que o público vai gostar. Está cheio de rasta-pé, guarânia, seleção de pagode (que é um ritmo caipira, o pagode de viola), chamamé, polca, rasqueado, cururu, valsa... Será bem eclético, porque quero mostrar vários ritmos da música caipira. Será um disco todo instrumental. Estou fazendo a viola, Fabinho fazendo violão, Erick na percussão junto com Quesada, professor da Escola de Música de Brasília e um dos melhores percussionistas do país. Carlinhos Sete Cordas tocará um choro comigo. A dupla Zé Mulato e Cassiano me cedeu uma seleção de pagode, um pout-pourri. Cassiano participará tocando violão em algumas faixas também. Estou convidando meu avô, para que ele possa realizar seu sonho de gravar. Ele tem 83 anos, chama-se Sebastião Maria e toca violino e violão com perfeição. Nunca estudou, nunca teve professor, aprendeu sozinho no meio do mato. O irmão dele, Luiz Maria, meu tio-avô, foi um dos causadores da minha vida pra Brasília, junto com meu primo, Nélson Oliveira.

ZONA SUL – Como foi seu início na música?
WELLINGTON – Eu morava em Campina Verde, em uma fazenda. Eu estudava. Aos 14 anos meu pai morreu. Continuei lá mais um ano. Durante esse tempo, tinha umas novenas. Foi daí que surgiu toda essa história de música. As novenas, lá em Campina Verde, percorriam uma fazenda a cada noite. A santinha visitava as casas. Durante essa novena sempre tinha uma dupla tocando músicas religiosas com viola e violão. E o pessoal cantava. Antes de começar a parte religiosa, eles cantavam moda de viola, pra animar. Depois parava e começava a novena propriamente dita. Ao final voltava o repertório de moda de viola por mais uma hora. A dupla era Tacilo e Nelico. Eu tinha 14, 15 anos, na época. Enquanto eles tocavam, eu ficava de olho em uma violinha xadrez que um deles tinha. A coisa mais bonita do mundo. Violinha do mato bem antiga, mas com um sonzinho bem afinado, de primeira classe. E eu já despertando, gostando daquele trem, adorando aquele som, achando interessante. Ele tocava um pedaço e depois parava para a reza. Nesse momento ele me entregava a viola. Eu corria, sentava em um banquinho que tinha lá fora e ficava lá brincando com a viola, só passando o dedo e ouvindo aquele som bom. Eu ficava brincando e contando, na hora que dava a nona Ave-Maria eu corria e entregava a viola pra ele. Eu não tinha conhecimento nenhum, só deitava ela no colo e ficava passando o dedo. Mas não esquecia de contar as Ave-Maria, porque não podia perder o tempo de entregar a violinha dele. Todo terço, quando acontecia lá em casa, era assim. Fiquei mais um ano ali, foi quando comecei a gostar mesmo de viola. Logo em seguida, mudei para a cidade. Saí da fazenda, da região de São Francisco de Sales, para a sede do município Campina Verde. Eu tinha terminado a oitava série e na escola não tinha mais como estudar. A gente ia de ônibus para a cidade, ficava difícil. Fui morar na casa de uma tia, Maria José. Morei durante três anos, trabalhando na marcenaria Joaquim Maluf, que era de um primo meu. Nessa marcenaria aprendi a profissão de marceneiro. A cama que tenho hoje fui eu quem fiz, meu guarda-roupa, cadeiras, tamboretes e mesa, também. Aprendi muita coisa na marcenaria. Fiquei lá até 18 anos. Depois fui para outra marcenaria, mas passei um tempo curto.

ZONA SUL – E a mudança para Brasília?
WELLINGTON – Quando eu tinha uns 19 anos houve o lançamento do CD Vazantes do Grande, de Nélson Oliveira, em Brasília. Fiquei sabendo que meu tio Luiz Maria iria tocar no lançamento, em Brasília. Eu liguei na fazenda do meu tio no dia anterior. Falei com a esposa dele. Ele não estava em casa. Disse a ela que pedisse a ele pra falar com Roberto Correa, que é de Campina Verde também, sobre a possibilidade de me dar uma força. Eu sabia que ele era professor da Escola de Música. Pensei que poderia ajudar um conterrâneo. Minha tia disse que recado nunca chegava direito, que o bom seria eu ir a Brasília falar pessoalmente. Sugeriu que eu aproveitasse a oportunidade para viajar com meu tio. Meu tio topou na hora, quando falei com ele. Na época eu sabia tocar seis músicas. Tinha aprendido com um violeiro chamado Alemão. Ele me deu uns toques e me ensinou um pouco do que sabia. Aconteceu o lançamento, no finalzinho da festa, Terezinha, mãe de Nélson, ficou sabendo que tinha vindo um mineirinho que sabia tocar umas modinhas de viola. Como sobrinho dela, ficou muito interessada em me ver tocar. Ela cobrou, junto com Glauco Barreto, outro músico que tinha participado do CD. Pediram a Nélson pra liberar minha subida no palco, pra eu tocar um pouco. Ao final da festa, Nélson me convidou. Subi, toquei Chalana, Menino da Porteira, Chico Mineiro e outras que eu conhecia. Foi muito gostoso. Tio Luiz me acompanhou no violão. O pessoal começou a dançar, foi um negócio bem descontraído. O complicado foi que eu só sabia tocar seis músicas e logo logo elas esgotaram. Seis músicas não dão pra nada. Duro foi que o pessoal ficou animado e começou a pedir pra eu tocar mais. Eu tive que repetir Chalana três vezes! Depois acabei a apresentação. Tio Luiz disse que viajaria no outro dia cedo e, por isso, tinha que acabar o show. Mas a verdade é que acabou por meu repertório, naquela época, ser pequeno. Mas foi legal, porque a partir daí surgiram convites e as coisas aconteceram.

ZONA SUL – Como você escolheu a viola para ser seu instrumento?
WELLINGTON – Assim que eu mudei pra cidade eu queria aprender música. Foi então que conheci uma professora de violão bem tradicional, muito conhecida em Campina Verde, chamada Betinha. Entrei na escola, comprei um violãozinho pra mim e comecei a pegar aula. Mas não era o que eu queria. Eu sentia que não era. Eu estava procurando um som diferente, alguma coisa diferente. Fiz aula uns três meses com ela, aprendi a tocar, peguei as batidas todinhas. Foi aí que conheci Alemão, o professor que me ensinou as primeiras músicas na viola. Com ele, no dia em que ele tocou viola pra mim, descobri que era esse o instrumento que eu queria. Aprendi as seis músicas com ele e segui em frente. Vou tocando em frente.

ZONA SUL – Você chegou a se imaginar exercendo outra profissão ou ainda pensa em seguir outra carreira fora da música?
WELLINGTON – Não. No começo a gente passa muita dificuldade. Quando cheguei em Brasília, enfrentei muitos problemas, sempre andando a pé ou de ônibus, batalhando, correndo pra cá e pra lá. Principalmente em Brasília, por ser uma cidade grande, as coisas são longe, a dificuldade é maior. Mesmo de madrugada, depois de tocar, tive que voltar várias vezes pra casa de ônibus, o que é muito arriscado e perigoso. Mesmo assim, nunca pensei em exercer outra profissão desde que eu larguei a marcenaria. Fiz até um trato comigo mesmo, quando vim pra Brasília: o de nunca mais exercer outra profissão. Meu negócio vai ser música. Sabia que tinha que estudar, que enfrentaria dificuldades, mas saí decidido a viver só de viola. Pra tudo tem um jeitinho, comecei a dar aula, a fazer um showzinho, a acompanhar duplas. Devagarzinho a gente vai defendendo. Mas é difícil. Acho que se você colocar outra profissão e começar a ganhar dinheiro, logo você corta aquela carreira profissional do que realmente quer. Já optei por enfrentar dificuldades, mas decidido a chegar lá como músico, só tocando, estudando cada vez mais... Acho que a gente lutando, consegue.

ZONA SUL – Essa paixão pela música veio da família mesmo? Por que escolheu o estilo caipira?
WELLINGTON – Eu falei do meu avô, Sebastião Maria, mas antes dele já tinha o meu bisavô, Lázaro Maria. Todos ligados à música. Lázaro Maria era um dos grandes violeiros do Triângulo Mineiro. Tocava muita viola, tocava violão e sanfona. Tinha também um sobrinho dele, Lázaro Anselmo, que era grande violonista também. Meu avô Sebastião Maria o acompanhava nos bailes da região. Depois vieram Os Irmãos Maria, que eram cinco ou seis irmãos que formaram um grupo. Tocavam cavaquinho, violão, sanfona, pandeiro e faziam os bailes das fazendas da região. Tocavam em casamento e nos forrós da comunidade. Então dá pra perceber que já é uma coisa que vem de sangue, está dentro da gente. Acho que não tem nem como negar. Sempre tive muito incentivo, graças a Deus, da minha família, de meu avô, minha avó também, meu pai, minha mãe, todos sempre me apoiaram muito, meus irmãos. Do lado do meu pai o pessoal não era músico como era o pessoal do lado da minha mãe. Tocava mais por diversão, não fazia show ou baile. Mas ta no sangue também o gosto pela música. Tenho tios que tocam violão, que cantam. Formaram dupla, mas só por diversão.

ZONA SUL – Que influências você recebeu?
WELLINGTON – Desde pequeno meu pai ouvia muito Carlito e Baduí, Tubarão e Seresteiro, Tião Carrero e Pardinho, Trio Parada Dura, Tonico e Tinoco, Liu e Léo, Zico e Zeca, Pena Branca e Xavantinho... Almir Sater eu só vim ouvir depois que comecei a estudar viola. Me inspiro mesmo em Tião Carrero e Pardinho e em Almir Sater. Eu fico dentro desses dois padrões. Pra mim o violeiro caipira número um é Tião Carrero. Ele criou o ritmo mais bonito, que é o pagode de viola. Em seguida vem Almir Sater, que tem um som mais clássico, faz uma música mais moderna, mais trabalhada, mais dedilhada. Tou sempre dentro desse padrão, Tião Carrero e Almir Sater, seguindo também Tonico e Tinoco e outros grandes feras.

ZONA SUL – Como foi o começo aqui em Brasília?
WELLINGTON – Chegando na cidade, meu primo Nélson Oliveira me apresentou para o violeiro Marcos Mesquita, que é professor da Escola de Música de Brasília há 14 anos. Comecei a acompanhá-lo e pedi uma chance. Expliquei que estava precisando, que tinha vindo estudar viola. Ele abriu as portas da escola pra mim. Daí nasceu o começo da minha carreira, de estudar, de conhecer técnicas, ponteios, aprimorar o estudo da viola. A partir da minha entrada na Escola de Música, várias portas se abriram.

ZONA SUL – Como foi trocar o interior de Minas por Brasília?
WELLINGTON – Foi bom, mas ao mesmo tempo foi estranho pra mim. Um mineirinho que saiu lá de Campina Verde, do meio do mato, nunca tinha entrado dentro de um elevador ou de um metrô, por exemplo... Essas coisas eu sequer costumava ouvir falar no nome. Foi um pouco complicado, mas logo logo fui aprendendo, misturando e deu tudo certo. Mas é diferente, as pessoas e a vida daqui são diferentes lá do campo. A maneira das pessoas se entrosarem. Lá em Minas você entra em um ônibus e parece uma roça de arroz, um monte de periquito, é todo mundo conversando. Aqui ninguém conversa, todos caladinhos, você anda meia hora em um ônibus e ninguém conversa com ninguém. Se você conversa com a pessoa que está do seu lado, ela já acha que você está querendo alguma coisa. É um negócio estranho. Esse é o lado, vamos dizer, ruim, meio desumano. Mas a gente vai aprendendo a lidar com isso aí.

ZONA SUL – O que você recomendaria a alguém que não conhece muito da música caipira e tem interesse em descobrir? Que CDs ouvir, que artistas procurar? O que é feito de bom na música caipira hoje?
WELLINGTON – É difícil até a gente falar porque tem muita coisa boa. Tem Almir Sater, apesar de ele não ser o chamado caipira que a gente fala, mas tem um ótimo trabalho de viola também. Caipira é Zé Mulato e Cassiano, ainda tem Pedro Bento e Zé da Estrada, Tonico e Tinoco, Liu e Léo, muita música caipira boa. Zico e Zeca. Mas indicaria Zé Mulato e Cassiano que fazem um trabalho bonito não só em Brasília, mas no Brasil inteiro. Essa dupla é a número um, sem dúvida nenhuma.

ZONA SUL – Por que essa tradição de duplas?
WELLINGTON – Por causa do dueto, ela é cantada em terça, a música caipira é assim, viola, violão e duas vozes. É uma tradição também, igual ao pessoal de rock, que utiliza baixo, guitarra, voz e bateria. A caipira é isso: viola, violão e duas vozes. A estrutura é essa. Por exemplo, se você colocar um baixo na música caipira e uma percussão, não será mais uma dupla caipira.

ZONA SUL – Além da música caipira, o que mais você gosta de escutar?
WELLINGTON – Gosto muito de música clássica, escuto principalmente por estar na Escola de Música, a gente estuda isso lá: Beethoven, Bach. A gente estuda e gosta. Gosto também de MPB, tem muita coisa boa. Waldir Azevedo, no choro, por exemplo. Gosto de tanta coisa... De Fagner, Zé Ramalho e de Ceumar, que é grande. Sou muito fã dela.

ZONA SUL – Qual a expectativa, a previsão de lançamento do seu CD?
WELLINGTON – Como ainda não tenho grana para bancar o CD do meu próprio bolso, estou batalhando. Já recebi apoio do amigo Glauco Barreto, que sugeriu mobilizar todo mundo para não parar a gravação do CD. Ele deu a idéia que eu vendesse CDs antecipadamente, para terminar o disco. Estou tentando concluí-lo em dezembro. Já estamos com as bases gravadas. Estamos fazendo um trabalho caseiro. Depois a gente vai para um estúdio masterizar e mixar. Estamos fazendo no estúdio Lá em Casa, de Marcos Mesquita. Depois a gente deve mandar para São Paulo, para masterizar e mixar lá. Ou então faz em Brasília mesmo, no Zen ou no estúdio do Vladimir Barros, lá na Asa Norte. Mas a gente está trabalhando ainda, pensando nos arranjos, tou pegando ainda música pra gravar. As melodias principais das músicas são de autoria dos próprios compositores. Marcos Mesquita vai fazer a segunda viola e está elaborando uns arranjos. Estou fazendo também algumas coisas e a gente vai brincar. Vai ter participações, como falei, de Carlinhos 7 Cordas, Cassiano, Luis Maria, Sebastião Maria, Glauco, Paulão, Nélson...

ZONA SUL – Além do CD, quais os outros planos?
WELLINGTON – Já tenho plano de gravar um CD cantado também. A gente tem que pensar assim, gravando o primeiro e já pensando no segundo e no terceiro. Mas também tou querendo compor, tem muita história que vivi na fazenda que quero colocar em música. Meu pai era carreiro, mexia com carro de boi, amansava boi. Fui criado andando dentro de carro de boi na fazenda. Meu pai fazia tudo com carro de boi. Roçava, fazia todo o serviço com a boiada do carro. Aconteceu muita coisa, a gente carreando, no chapadão, na beira da serra. Quero ainda pegar isso tudo e colocar em música caipira, porque ela é isso, retrata o que você vive. Tenho vontade de compor letra e música instrumental também, além de fazer grandes parcerias em shows com violeiros de todo o país.

ZONA SUL – E o seu filho João Pedro, que nasceu há pouco tempo?
WELLINGTON – Vai completar um ano. Por ser novo, começando na música, sempre tive vontade de ter um filho justamente pra preencher essa falta que meu pai fez pra mim. Perdi o pai muito cedo, com 14 anos. Ele trabalhava muito, 24 horas. Não parava em casa, era só trabalhando. Eu sempre pensei em ter um filho para ensiná-lo a tocar e pra ele viver junto comigo, me acompanhar, tocar comigo. Às vezes ele está chorando, eu pego a viola, ele sorri pra mim, começa a brincar, põe a mão na viola, começa a bater nas cordas, vai na estante pega o CD de viola e entrega pra mim. Ele gosta. É só começar a tocar lá em casa, que ele dorme. Alguma coisa tem a ver. Durante a gravidez de Cristiane, ele passou o tempo todo ouvindo música, ela gosta muito também. Estou me sentindo realizado, feliz e o filho está me ajudando muito, dá até inspiração. Quando cheguei em Brasília, me sentia muito sozinho, por mais que tivesse muitos amigos, muita gente boa, a família é o principal, senti falta da família. Depois que ele nasceu...

ZONA SUL – À distância, parece que Marcos Mesquita lhe dá uma grande força...
WELLINGTON – Desde que cheguei aqui ele tem aberto as portas pra mim. Procurei saber quem ele era, me informaram que era professor. O encontrei, me deu a maior oportunidade, abriu as portas. Além de ter me colocado na Escola de Música, me incentivou. Faz um trabalho todo especial de técnica comigo na viola, de ponteio, me passa música. Ele não é apenas meu professor, tenho ele como um pai. Ele abraça mesmo essa causa de me ajudar. Ele viu a distancia de onde vim, a vontade que tenho de vencer na vida, de lutar, de aprender, de fazer um trabalho sério. Não estou aqui pra brincar. Quero valorizar e mostrar o som da viola. Ele me apóia muito e é meu produtor de show, do CD... Ajuda até nas questões pessoais. Está sempre perguntado como estão as coisas, se estou precisando de algum apoio. Tem hora que uma palavra amiga vale mais do que qualquer coisa. A gente senta pra conversar, ele me chama pra sua casa, eu vou, a gente almoça, bate um papo, discute coisa familiar, de filho, de esposa - que sou marinheiro de primeira viagem... Pra mim, é um pai. Deus coloca certas pessoas na vida da gente...

ZONA SUL – Conhece Natal?
WELLINGTON - Não conheço, mas tenho muita vontade. Se Deus quiser, não vai demorar pra eu ir lá. Sou mineiro, mas amo o Brasil todo. Pra falar a verdade, nunca fui numa praia. Sou caipira mesmo. Pra você ter uma idéia, quando vim pra cá, andei pela primeira vez de elevador. Entrar naquele tal de elevador, naquele trem, foi um sufoco. Nossa Senhora! Meu primo Nelson um dia me convidou pra ir no Senado. O elevador de lá é muito rápido, é dessas coisas mais modernas. Sabe como é, caipira chega do mato tem medo daquilo não dar certo, estourar uma corda. Entramos, ele falou pra mim: “segura bem aí porque esse elevador, de vez em quando, solta, e já machucou muita gente”. Entrei, me segurei bem e aquele trem subiu numa velocidade que parecia não querer parar mais. Chegou a doer meu ouvido, acho que pela tal da gravidade. Verdade! Rapaz, eu me assustei demais. Chegou lá em cima, abriu a porta, eu disse: “ô beleza”. Mas foi tão rápido que pensei que tinha subido uns dois andares só. Cara, quando chegou lá em cima, fui na janela e a gente estava lá em cima, já tava no final, mais de vinte andares. A gente ficou batendo papo, conversando com os amigos dele. Era minha primeira semana em Brasília. Eu conversando, mas já preocupado com a descida. A descida é mais perigosa ainda. Se escapulir lá, já viu... Na subida, não. E Nélson, me botando medo de novo, falou que na descida ia muita gente, o problema era mais sério. Fiquei com medo Quis descer pela escada, só que fui ver e era muita escada. Eu vi logo que não ia dar conta. Quantos mil degraus eu teria que descer. Afinal, resolvi encarar de novo o elevador. Entrei lá e até que o trem é seguro, bem organizado, muita gente, uns caras de paletó. Dá certa segurança na gente. Na hora de descer, eu com medo, parece que foi pior. O trem desceu mais forte, doeu meu ouvido de novo. Nélson disse: “Nossa Senhora, acho que vai ser agora”. Me assustei demais. Mas graças a Deus foi parando devagarzinho e não teve perigo, não. Mas, falando de praia, tenho muita vontade de ir, mas tenho pavor de água. Em rio, em Minas, tenho medo, imagine na praia. Dizem que na praia a gente não vê o fim do mar, né? Aí que vai ser o problema. Tenho muita vontade de conhecer Natal. Já vi que o povo é muito caloroso, gente boa e conserva muito a tradição... Estou só esperando um convite. É só me chamar que eu vou.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Entrevista: HALISSON CRYSTIAN

A CANÇÃO DOS POETAS AMAZÔNICOS



Era uma tarde tumultuada no Congresso Nacional quando Halisson Crystian Tupinambá Pimentel, nascido em Boa Vista, Roraima, no dia 28 de maio de 1977, apareceu na Agência Senado tentando cavar um espaço para divulgar seu mais novo CD. Triste depois de ouvir a explicação de que aquele órgão de comunicação só produzia matérias institucionais, uma ponta de esperança brilhou no seu semblante quando propus a ele a oportunidade de se dirigir para o povo potiguar. Marcamos para o dia seguinte. A conversa durou pouco mais de meia hora. Logo em seguida, uma sessão de fotos tendo como cenário o Palácio do Planalto. (Roberto Homem)


ZONA SUL – Seus pais ou outros parentes têm alguma ligação com a música?
HALISSON – A maior referência que eu tenho na música e na vida é o meu pai, além, claro, da minha mãe, que é uma figura muito sensível à arte e à vida de uma forma geral. Meu pai é compositor e tem três discos gravados. Ele é da época do long play (LP). Recentemente ele fez um resgate dos trabalhos em vinil e apresentou em CD. Ailton Cruz Pimentel, que é como ele se chama, só não chegou mais longe na música em virtude de ter dedicado a vida a criar a nós, os seus filhos. Eu, como ainda não tenho filhos – tenho família, tenho uma esposa chamada Jennifer – tenho dedicado minha vida integralmente à música. É basicamente dela que eu vivo. Meu pai hoje trabalha no sistema público, em Roraima. Ele prestou concurso, passou e está por lá, bitolado no sistema - vamos dizer assim. Eu me recuso a mudar minha mentalidade de artista para me enquadrar com a vida de funcionário público.

ZONA SUL – Você se envolveu com a música desde cedo? Como foi esse começo?
HALISSON – Nas festinhas de família sempre tem aquele animador que escala as crianças: “quem quer cantar?”. Eu sempre era o primeiro a me candidatar. Profissionalmente falando, já completei 15 anos de carreira. Comecei em 1991, no VI FEMUR (Festival de Música de Roraima), interpretando a música Vazio, uma composição do meu pai. Esse foi o pontapé inicial. Nessa primeira experiência já tive oportunidade de entrar para a memória cultural do estado, com 13 anos. Tenho outra história em festivais. Em 1995, com 18 anos, participei do VIII FEMUR, interpretando a música Bem querer, uma parceria minha com Netinho Solimões, um amigo amazonense de Coari.

ZONA SUL – Qual seu resultado mais expressivo nestas participações em festivais?
HALISSON – No primeiro festival, classifiquei a música que defendi entre as dez melhores. Não fiquei entre os três, mas cheguei à final e tive direito - junto com os demais nove artistas que disputaram o primeiro lugar comigo - a gravar um disco, ainda na época do vinil. Mesmo não ficando entre as três primeiras, a canção Vazio se tornou a mais tocada do disco. É uma prova de que a ordem de classificação em um festival não influencia tanto no gosto popular. Na verdade, quem resolve é o povo. No segundo festival do qual participei – foram dois, ao todo – me classifiquei em segundo lugar e ainda ganhei o prêmio de melhor intérprete. O meu pai tirou o primeiro lugar. Foi uma dobradinha. Há até quem pergunte quanto foi que demos para os jurados (rindo). Mas, lógico que não foi isso. Foi mérito puro nosso, graças a Deus. Além do primeiro lugar, meu pai também ganhou na categoria melhor temática regional.

ZONA SUL – Como você definiria o seu trabalho?
HALISSON – Me apresento como um intérprete do romantismo dos poetas da Amazônia. Meu trabalho é regional, apesar de não ser regionalista. Existe uma grande diferença entre um e outro. Meu trabalho é regional por ter sido gravado na região, e também por nele eu interpretar poetas e compositores do Pará, Amapá, Amazonas e Roraima. Até então, meus dois CDs se restringem a gravações de artistas desses estados. Apesar de conhecer excelentes compositores de outros estados, não tive ainda oportunidade de gravá-los. Não tive intimidade com suas obras para ver despertado em mim o interesse em incluí-los no meu repertório. Avalio meu trabalho como de extrema importância, porque associo o dom que Deus me deu com o dom de outros artistas, principalmente dos poetas cujos trabalhos registro em discos. Mamãe gostava de repetir a frase: “meu filho, junte-se aos bons que serás um deles”. Acredito nisso. Costumo dizer que a fórmula para um determinado sucesso é ter uma boa letra, uma boa melodia e um bom intérprete. A forma que posso contribuir é com a interpretação.

ZONA SUL – Mas você também compõe...
HALISSON – Sou tímido na composição. Eu escrevo, porém, o meu critério ao longo desses anos todos, o meu critério de qualidade, tem sido de interpretar os poetas. Foi tocando muito na noite, convivendo com muitas pessoas que têm a propriedade da palavra, que cheguei à conclusão de que não posso ficar fazendo experiência com esse tipo de trabalho. Por isso deixo um pouco de lado as minhas próprias letras para me dedicar às músicas dos verdadeiros poetas. Além do mais, é muito caro registrar um CD para quem é independente ou alternativo e não tem um apoio efetivo. Você acaba não podendo se permitir fazer experiências. Procuro ser coerente na minha proposta. Interpretar os poetas é um critério que dá grande qualidade ao meu trabalho.

ZONA SUL – Quais os CDs que você já gravou e que repercussão eles tiveram?
HALISSON - O meu primeiro disco foi o CD Cara, lançado em 1998. O segundo foi A flor e o beija-flor. Eles ainda fazem sucesso lá no meu estado. Agora, nessa vinda para Brasília, trouxe apenas o meu primeiro trabalho. Não trouxe o segundo porque ele esgotou. Passei dois anos produzindo esse último CD. Ele foi gravado em Macapá (AP). Alguns meses antes de viajar, recebi muitos pedidos para reeditar o primeiro disco. O segundo ainda estava sendo vendido, mas acabou em sete meses. Vendo-me na situação e necessidade de sair do meu estado para buscar novos horizontes, e até mesmo me fazer conhecer, resolvi não esperar uma reedição do segundo disco e viajei apenas com o primeiro. A gente passa uma vida inteira buscando uma melhor condição de sair em busca de outros mercados e acaba passando muito tempo, sem conseguir o objetivo. Então resolvi ser radical, sair logo agora, para não perder a oportunidade. Não podia mais esperar. Era uma questão pessoal, coisa de coração, de acreditar em dias melhores. No meu estado já sou referência, já tenho um público que me permite, de repente, sair e até mesmo sonhar com a pretensão de fazer sucesso nacional. A expectativa gerada pela sociedade roraimense é a de que eu tenho essa condição de fazer sucesso nacionalmente. Esta é a base fundamental que eu tive para poder sair.
ZONA SUL – Sua discografia inclui mais algum trabalho?
HALISSON – Além dos CDs solo, têm a participação nos discos gravados a partir dos festivais. O primeiro CD foi gravado em Belém, produzido pelo maestro Manoel Cordeiro, que é muito conceituado no mercado. Ele é produtor da banda Calypso, e também é parceiro de Nilson Chaves e de outros grandes artistas da região. A partir da gravação deste primeiro CD pude me relacionar com outros artistas. Conheci grandes nomes da região. O mesmo ocorreu quando gravei meu segundo disco, no Amapá. Ele também foi produzido pelo maestro Manoel Cordeiro. Aliás, só fui ao Amapá porque o maestro estava por lá. Foi uma oportunidade ímpar e maravilhosa, rica e feliz, porque tive a chance de conviver mais com artistas sobre os quais eu já tinha ouvido falar. Uns eu até já conhecia, de uma outra ida minha à capital de Macapá, quando estive para uma visita. Então, praticamente 70% das composições do meu segundo CD têm poetas do Amapá como autores. São artistas importantes como Osmar Júnior, que é o poetinha da Amazônia, o Zé Miguel, o Joãozinho Gomes, o Val Milhomem... São grandes referências da região Amazônica. Outros ícones são Nilson Chaves, do Pará - sobre quem já falei - Célio Cruz, de Manaus, e Eliakim Rufino, de Roraima. Então, tive oportunidade de me relacionar com essas figuras, que são pensadores e pessoas que amam a região. Por isso, faço questão de repetir sempre: eu vim da Amazônia. A Amazônia é uma das três palavras mais conhecidas no mundo. Em se tratando de marketing, primeiro vem Jesus Cristo, segundo Coca-Cola e depois Amazônia. Penso que esse é um discurso que vai vender bem.

ZONA SUL – Quantas cópias você tirou do primeiro e do segundo disco?
HALISSON – Em seis anos, o primeiro CD está na quinta tiragem, cada uma de mil cópias. As duas mil cópias do segundo CD esgotaram em sete meses. Talvez o bom resultado nas vendas do segundo disco deva-se em parte pela boa aceitação que teve o primeiro. Lógico que influenciou também o histórico que eu já tenho, pelo desenrolar do meu trabalho, da minha carreira artística lá em Roraima.

ZONA SUL – Qual sua formação musical? Que instrumento você toca?
HALISSON – Apesar de tocar violão, sou um músico autodidata. Presenciei meu pai tocando em casa, aprendi observando. Não estudei propriamente, porém, busco sempre me informar e observar outros músicos. Sempre alguém tem a contribuir com o meu trabalho. Sou um cara antenado para aprender. Sempre buscando ter essa condição de nunca saber demais. A gente nunca sabe tudo, sempre tem algo a mais para aprender. Tive necessidade, depois desse histórico de festivais, quando fui tocar na noite, de aprender a tocar um instrumento. Pelo menos me acompanho relativamente bem. Mas lógico que é diferente da condição daquele músico que acompanha o artista que chega para cantar.

ZONA SUL – A vontade de ingressar na música você disse que adquiriu do seu pai. Além dele, que outras influências musicais você recebeu?
HALISSON – A principal foi meu pai mesmo. Ele foi, sem dúvida, a maior referência. Porém, ao longo desse processo, até mesmo quando criança, minha casa já era freqüentada por pensadores, músicos, compositores e poetas. Durante a carreira, desde aquele primeiro festival, também fui me relacionando com esses amigos. Foi natural a relação que fui estabelecendo na vida com estes pensadores, poetas e formadores de opinião do meu estado. Fui me acostumando com a música de boa qualidade. Essa formação foi fundamental até mesmo quando fui montar o repertório para tocar na noite. Aprendi a identificar o que uma música de boa qualidade, o que é uma boa letra... Isso tudo contribui com o meu trabalho até hoje.

ZONA SUL – Que artistas você costuma escutar?
HALISSON – Em se tratando de Brasil, gosto muito de Flávio Venturini, Beto Guedes... Gosto também das mulheres como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto... Até porque o meu timbre de voz permite que eu interprete essas figuras. Gosto dessas vozes pequenas, porém grandiosas. Identifico-me muito com esse tipo de trabalho, estilo Milton Nascimento. Gosto de João Bosco também, toco Djavan... Minha influência veio da noite. Esses nomes contribuíram não só para a minha formação musical, mas para a de cantores de todo o país. Todo o músico que se preza tem que ouvir a música popular brasileira. Mas também tenho grandes referências da minha região, como Nilson Chaves, Célio Cruz... Nilson Chaves é a maior referência que temos da música amazônica, depois de Fafá de Belém, que conquistou notoriedade nacional.

ZONA SUL – O que vale a pena ouvir da música de Roraima, com exceção do seu trabalho?
HALISSON – De Roraima eu destacaria os amigos Neuber Uchôa, Zeca Preto e Eliakim Rufino. Este último é a maior referência da poesia no nosso estado. Também não posso deixar de citar outros grandes artistas como Joemir Guimarães, George Farias, Serginho Barros e meu pai, Ailton Cruz.

ZONA SUL – Como alguém em outra parte do país, especialmente em Natal – que é onde circula a versão impressa desse jornal – pode ter acesso ao trabalho dos compositores de Roraima? Existe algum canal, na Internet, por exemplo?
HALISSON – Eu desconheço, não tenho como informar. Até porque os trabalhos desses artistas ficam restritos a tiragens tímidas, por volta de mil cópias. O problema é que no meu estado o apoio à cultura não é muito efetivo. Em todo o país a cultura é o setor que menos recebe recursos. Em Roraima, praticamente não se investe nada. Esse foi um dos motivos que me levaram a vir para o centro do Brasil.

ZONA SUL – E para ter acesso ao seu trabalho?
HALISSON – No momento estou na condição de artista alternativo e independente. Minha divulgação restringe-se à política corpo-a-corpo. Estou buscando ver se consigo despertar o interesse de alguma distribuidora para que eu possa me preocupar única e exclusivamente em divulgar o meu trabalho, em parceria com essa distribuidora. Mas tenho telefone de contato (0xx-95-9117-7575), tenho e-mail (halissoncrystian@hotmail.com). Quem tiver interesse, pode ligar ou mandar notícia através de e-mail que terei a maior satisfação em poder receber essas comunicações, críticas ou qualquer interesse que possa ter com relação ao meu trabalho.

ZONA SUL – Quais suas apresentações mais importantes fora de Roraima?
HALISSON – Ao longo desses 15 anos, sempre procurei sair do meu estado para divulgar o trabalho que faço. Graças a Deus, em todos os lugares aonde cheguei fui bem recebido. Posso destacar, por exemplo, minha participação, ano passado, no I Seminário Cultural da Amazônia, em Belém (PA). Neste evento, artistas de toda a região se reuniram para discutir a política cultural amazônica. Cada um informando sobre a política cultural do seu estado. Também em 2004 participei do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS). Gosto desse tipo de evento, de poder divulgar e levar o nome de Roraima para outros centros. Adoro buscar oportunidade para me fazer conhecer e interagir com músicos de outras regiões. Este ano, agora recentemente, estive em São Paulo, onde participei do Salão de Turismo promovido pelo governo federal. Mantive-me lá, além dos dias do evento, divulgando meu trabalho e estabelecendo alguns contatos. Vim para Brasília aproveitar que esse eixo (Brasília – Rio de Janeiro – São Paulo) é muito acessível. Complicado, o difícil mesmo, foi sair da minha região.

ZONA SUL – Por que foi tão difícil conseguir viabilizar essa vinda?
HALISSON – Na verdade, a situação geográfica é o fator que mais prejudica o artista da região Norte, quando ele tem a pretensão de alcançar o Brasil e de fazer sucesso no restante do país. Porém, a ponte aérea existe, graças a Deus. Consegui apoio lá de alguns amigos políticos. Temos que nos pegar com esse meio, pois nele têm pessoas sensíveis à nossa proposta. Graças a isso pude sair do estado. Até para divulgar um trabalho na nossa região não é fácil. De um estado para o outro, muda radicalmente de cultura. A dificuldade talvez seja por ser ainda uma região inóspita. Lá mesmo, para viajar na região, só é possível de avião ou de barco. Por estradas são poucos os lugares que se vai. Do meu estado, estou mais perto do Caribe do que do resto do Brasil. Para chegar a Brasília, tive que vir de avião e não pretendo voltar tão cedo. Pretendo ficar por aqui desenvolvendo meu trabalho e aproveitando oportunidades maravilhosas como essa que o Zona Sul me proporciona.

ZONA SUL – O que você diria para convencer alguém a ir conhecer Roraima?
HALISSON – Para quem quer curtir, temos uma situação geográfica privilegiada. Estamos mais perto de Miami e do Caribe, do que o resto do Brasil. Nosso país, infelizmente, ainda desconhece a Amazônia. Eu convidaria todos a tirar um tempo de sua vida para conhecer essa região. Até porque é uma região muito acolhedora e em pleno desenvolvimento. Está longe da decadência, ao contrário: é uma região em ascensão. Tem tudo por acontecer ainda. Além dos atributos naturais, você pode, de repente, ter oportunidade de ir até a costa da Venezuela. Meu estado faz fronteira com a Venezuela e com a Guiana Inglesa. Na Venezuela, o combustível é barato. De Boa Vista para a fronteira da Venezuela são 300 quilômetros. Chegando na fronteira, você gasta dez reais para encher um tanque de 50 litros. A Venezuela, por ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo, permite que você faça essa viagem a um custo extremamente baixo.

ZONA SUL – E especificamente em Roraima? O que existe de imperdível por lá?
HALISSON – Em Roraima você pode conhecer o lago Caracaranã, que é um espelho de água limpa e maravilhosa. Lá existem praias de areias brancas cercadas por cajueiros nativos. O lago fica a 180 quilômetros de Boa Vista, no município de Normandia. Também pode conhecer o monte Roraima, que com seus 2.772 metros de altitude é um mundo à parte, com estranhas formações rochosas, plantas raras e um ambiente eternamente entre nuvens. Chegar ao cume exige dois dias de caminhada dura, mas que vale a pena. O monte faz fronteira tríplice entre Brasil, Venezuela e Guiana Inglesa. Essa viagem, já por si só, é maravilhosa. A região amazônica vale muito a pena, não apenas por seus atributos naturais, mas também pela sua cultura, culinária, influências indígenas e caribenhas, o ritmo... É uma viagem inesquecível. Aconselho e recomendo.

ZONA SUL – Infelizmente, em Natal, dificilmente você escuta músicas de artistas da terra, quando sai pelos bares da cidade. Em Belém é justamente o contrário. E em Boa Vista?
HALISSON – Infelizmente, nesse aspecto, Boa Vista está mais para Natal do que para Belém. O artista local é pouco lembrado. Deparamos-nos com uma mentalidade um tanto medíocre por parte da questão política, principalmente. Avalio que esse seja um problema educativo. A cultura está intrinsecamente ligada à educação. É questão de hábito. Como você pode gostar de um artista que está fora dos eventos populares? Lá no meu estado os maiores compradores de shows são governo e prefeitura. E, normalmente, os artistas da terra que gostam e cantam a região e têm maior orgulho em ser de Roraima e que carregam a cultura nas costas, ficam à margem, ficam marginalizados. Não tem vez nesse tipo de evento. Então, de que forma determinados artistas poderão, de repente, também se profissionalizar se não têm acesso a um cachê? Você sabe que toda e qualquer faculdade se faz com um mínimo de condição básica. Por essas e outras que saí de lá. Não falo com relação à sociedade. Infelizmente a grande massa adere ao movimento populista, que é a mentalidade da maioria dos políticos de lá. Não tem essa questão da valorização do artista da terra, da prata da casa. Pra você ver como esse lance é arcaico, Roraima é o único estado da federação que ainda tem a secretaria de cultura e desportos vinculada. Ou seja, a grana da cultura fica aleatória, fica a mercê. De repente fica sendo usada para outros fins que não a cultura do estado, que não o investimento na valorização dos artistas, na publicação de livros e CDs. Assim como você citou Belém, temos um ótimo exemplo a ser seguindo no estado do Amazonas. Na época em que Alfredo Nascimento, hoje ministro dos Transportes, foi prefeito, ele deu um grande incentivo para os artistas através do projeto Valores da Terra. Esse é um modelo que eu faço questão de elogiar. Costumo até dizer que no dia em que eu ver esse cara eu vou dar um beijo nele, e dar um abraço, porque realmente ele merece o nosso respeito. Acho que todo político que se preza e que realmente tem compromisso com a sociedade, com o futuro dos seus filhos, deve valorizar a cultura. Até porque, são as ações culturais que permanecem para a posteridade. Alfredo Nascimento é um grande exemplo lá ao lado do nosso estado. Porém, em Roraima não temos essa mesma sorte.

ZONA SUL – Alfredo Nascimento é potiguar...
HALISSON – Isso mesmo. Ele é muito querido pelos artistas da região.

ZONA SUL – Deixe um recado para os leitores do Zona Sul.
HALISSON – Quero mandar um grande abraço para o povo de Natal e para todas as pessoas que tiverem a oportunidade de ler essa entrevista. Estamos em busca de despertar maiores interesses e fazer com que cada vez mais pessoas possam conhecer o nosso trabalho. Através dessas obras que estou apresentando, vocês poderão conhecer um pouco mais da nossa região amazônica. E também perceber que lá tem uma musicalidade maravilhosa, que não deixa nada a desejar a nenhuma parte do Brasil. Não desmerecendo lugar algum, quero dizer que nossa região é rica e feliz. Venham à Amazônia para conhecê-la melhor. Também peço que valorizem os artistas independentes e alternativos. Deixo meu abraço a Natal e, se Deus quiser, terei oportunidade de chegar lá um dia e me apresentar e ter a satisfação de conhecer esta cidade bem de pertinho. Obrigado e um grande beijo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2005

Entrevista: BECO

ROCK AND ROLL COM TEMPERO POTIGUAR






Carlos Gondim, Duda, Rômulo, Alex e o Japa - integrantes da banda potiguar “Beco” - foram os entrevistados deste mês. Na conversa, da qual também participaram o jornalista Costa Júnior, o empresário Sérgio Almeida e o prestador de serviços à CEF Aderson Neto, o quinteto relembrou a história do grupo, revelou o andamento da gravação do primeiro CD e emitiu polêmicas opiniões sobre o mundo da música, em particular sobre o rock potiguar. Na noite de uma terça-feira agradável, no final de julho, Carlos Gondim abriu sua casa em Natal e recebeu o Zona Sul. Antes das perguntas, pudemos assistir a um ensaio onde o Beco mostrou parte do seu repertório. (Roberto Homem)


ZONA SUL – Por que a banda se chama Beco?
GONDIM – A idéia do nome Beco surgiu de uma conversa que tive com Rômulo, há muito tempo. Lamentávamos a morte de um senhor chamado Ratinho, freqüentador assíduo do Beco da Lama - que é um celeiro cultural e boêmio do centro de Natal. Ele era alcoólatra e vivia por lá. Ratinho foi assassinado brutalmente pela polícia. Depois de ler a notícia no jornal, comentei com Rômulo. Aquilo ficou na nossa memória pelo choque que a morte de Ratinho causou.

RÔMULO – Por causa desse crime falamos tanto em Beco da Lama que um dia Gondim sugeriu que a banda se chamasse Beco. Foi consenso na hora. Só que algum tempo depois o Japa descobriu que em Minas Gerais existe uma banda com o mesmo nome, e que até já tem CD gravado.
JAPA – E DVD também.
RÔMULO – DVD? Eu nem sabia disso. De qualquer forma, estamos nessa dúvida se mantemos ou não o nome Beco. A sorte é que sempre resta a possibilidade de mudar para Beco da Lama, já que a idéia inicial foi essa. Quando formos lançar o CD, se for necessário, retomaremos esse nome para diferenciar desse Beco de Minas.

ZONA SUL – Quando a banda começou e como surgiu a idéia de montá-la?
RÔMULO – (irônico) Foi uma tragédia! Eu estava com minha vida muito tranqüila, vivia muito bem com minha esposa – hoje estou separado – aí Carlos Gondim apareceu. Ele queria tocar porque estava estressado. Mal sabia ele que ficaria mais ainda. Uns 20 anos antes eu tinha feito umas coisas com Alex, em uma banda chamada Memória de Elefante. Mas tinha parado de tocar. Gondim insistiu. Combinamos fazer um ensaio e, se fosse legal, continuaríamos. Ele tinha algumas músicas da banda antiga dele. Na verdade, ele montou essa banda com os integrantes antigos. Eu era o único diferente. Ele tirou o baterista dele - até porque era pior do que eu, acreditem! Já estamos tocando há mais de dois anos e nesse período foram feitas várias alterações. Já mudou vocalista, baixista... O próprio Alex, quando entrou na banda, era guitarrista. Alex tinha chegado de Minas, onde tinha terminado seu curso. Agora estabilizamos com essa formação, mas recentemente quase que Japa e Duda saíram por irresponsabilidade... (risos)
DUDA – (mais irônico ainda) Não foi bem assim. Estávamos em um nível muito superior ao da banda e então quase fomos postos para fora por causa dessa incompatibilidade.
RÔMULO – Enfim eles tomaram vergonha na cara e estamos tocando. Começou assim, era uma brincadeira... Aliás, ainda hoje é uma grande brincadeira. Se bem que para Gondim tem um lado mais importante porque ele quer registrar o que não conseguiu gravar na época em que tocava.
GONDIM – Com o patrocínio de Marcos Valério agora deu para gravar o CD e estamos gravando (risos). Mas, falando sério, a banda começou há mais de três anos. Nos anos 90 fiz parte do Havana Londres. Éramos eu, Serginho, Artimar, Ricardo Freud na bateria e Mano Maurício no baixo. Retornamos com essa formação, à exceção de Ricardo Freud, que saiu para dar lugar a Rômulo. Mas a banda foi renovando. Alex entrou no lugar do baixista, Maurício, e Duda no lugar de Artimar. Japa entrou como guitarrista-solo, que não tinha. A gente sempre tentava colocar uma guitarra solo, mas ninguém queria tocar com a gente. Japa começou a assistir aos ensaios, começou a gostar...
DUDA – Japa entrou na banda porque pegava carona comigo na volta da faculdade para casa. Quando eu tinha que ensaiar, ele vinha e ficava assistindo. Ele tocava em uma banda de reggae. Agüentava o sofrimento de assistir nossos ensaios para não pegar um ônibus à noite. Sabendo que estávamos precisando de um guitarrista, falei com Gondim. Japa já tinha decorado as músicas de tanto escutá-las e acabou ficando na banda.
GONDIM – Tinha mesmo algumas músicas que eu gostaria de registrar. Nós até chegamos a gravar algumas coisas, mas um maluco da faculdade pegou essas gravações e pediu emprestado. Condensamos várias músicas em uma fita para um festival que ocorreria em Parnamirim. Esse cara deu sumiço, e tudo o que a gente tinha, perdeu. Até hoje quando o encontramos ele diz que a fita está guardada e que vai procurar. Está procurando faz tempo.


ZONA SUL – Qual o repertório que vocês costumam tocar atualmente?
ALEX – O repertório da banda baseia-se no rock-pop, mas de um ano pra cá estamos sofrendo influência também da música nordestina, como, por exemplo, Zé Ramalho. Uma das canções, O Boi, é uma mistura de hard rock com aboio nordestino. O hard rock fica por conta de Rômulo. Em outras prevalece o suingue, com influência do soul. As letras são de Carlos Gondim. Ele consegue casar bem com a sonoridade da banda. O Beco passeia por vários estilos. Finalmente estamos conseguindo uma unidade, depois de muito tempo. Na montagem das músicas, Gondim costuma trazer uma letra com uma melodia meio acabada
RÔMULO – (provocando) Mal acabada...
ALEX - ... e cada um de nós contribui com a linha do seu instrumento, e a gente vai ajustando cada parte, vendo o que fica bom e o que pode ser dispensado. Com o tempo a música vai amadurecendo, a gente vai burilando e termina dando certo.
GONDIM – (em tom de vítima) Ele esqueceu de dizer que quando trago pro ensaio e toco essa proposta de nova música, sou esculhambado por todo mundo, sou malhado e massacrado. Um dia decidi não trazer mais nenhuma música para a banda. Mas depois de um certo tempo, percebi que seu eu não trouxesse mesmo, não me dispusesse a agüentar a esculhambação, não saía mais nenhuma música. Alex é o único músico de formação da banda, é uma pessoa que tem tanto a prática quanto a teoria, o único que tem talento. Apesar de não dar aula para nós, os pseudo-músicos, ao longo desse tempo ele conseguiu ir conduzindo com pequenos detalhes o aperfeiçoamento do instrumental de cada um.

ZONA SUL – Como está o CD que vocês estão gravando?
JAPA – Essa gravação do CD já rola há mais de um ano. Começou antes de eu entrar. Agora estamos em estúdio. As baterias e o baixo estão praticamente prontos. Algumas músicas já estão gravadas. Acho que no máximo em dois meses estará tudo finalizado. A intenção é que em setembro ou outubro o CD saia. Esse tempo foi bom porque melhoramos tanto musicalmente como até mesmo no nosso convívio. Ficamos mais abertos uns com os outros.
RÔMULO – Na verdade, à exceção de Alex, nunca tínhamos entrado em um estúdio. Vimos que a realidade de um estúdio é complicada. Lá no estúdio foi tudo feito de forma rigorosa. As linhas de bateria foram gravadas duas vezes. Quando fui fazer as primeiras baterias, a gente tocava de um jeito. Passado um tempo, tive que gravar tudo de novo. Fiz outras baterias porque a banda estava com outra pegada. Agora é pra valer. Já estamos conseguindo nos acostumar com o estúdio, saber como funcionam os equipamentos. O produtor é Jota Marciano, a gente está gravando no Studium Produções. No começo, Alex dirigia a gravação. Ele estava sobrecarregado. Passamos a direção para Jota.
GONDIM – O próprio Jota sentiu uma evolução desde quando a banda entrou no estúdio e sugeriu que era melhor perder o trabalho que já tinha sido feito do que insistir. Foi uma posição até do próprio estúdio, porque a gente já tinha ganhado bem mais qualidade. O disco terá dez músicas, todas nossas.
RÔMULO – As músicas que fazemos, embora tenham letras curtas, a parte musical é bem longa. Cada música tem de quatro a cinco minutos. Por isso o CD vai ter dez faixas. O interessante é que, dentro do próprio estúdio, no processo de gravação, foram feitas novas composições. Começamos com seis músicas. Agora tem um detalhe que eu gostaria de dizer. É uma proposta de Carlos Gondim. A gente tem dez músicas, mas com o primeiro vocalista tem duas músicas que são boas, fazem parte da história da primeira formação da banda, e a gente quer registrar. Então, o CD vai sair com dez faixas Duda cantando e vamos incluir duas faixas cantadas por Artimar, o primeiro vocalista da banda. Virá de bônus track no CD.

ZONA SUL – Depois da gravação do CD, o que vocês pretendem fazer?
DUDA – Segundo Rômulo, depois que o CD sair acaba a banda. Acho que por enquanto a gente tem que se preocupar com a gravação agora e esquecer qualquer tipo de show ou evento. Em outras ocasiões, aparecia show e a gente topava, mesmo estando em estúdio. O resultado é que a gente fazia o show e terminava desandando por completo a banda. Depois que o CD estiver finalizado, vamos tentar colocar algumas faixas em emissoras de rádio e partir para tocar e fazer shows.

ZONA SUL – Quais as influências musicais de cada um de vocês?
DUDA – Eu aprendi a escutar reggae há dez anos, quando minha idade era 12 ou 13. A primeira vez que escutei reggae foi através de Gondim, que, como eu, é fã de Bob Marley. Então, meu estilo mesmo, a música que eu curto mesmo é o reggae. A banda sofre influência de cada um dos seus integrantes. Cada um de nós tem seu estilo predileto. Cada um traz um pouquinho do seu suingue, da sua batida. A gente faz uma embolada e consegue andar com isso. Eu já toquei em várias bandas de reggae, há muito tempo: Velho Chico, Baseado em Reggae...
RÔMULO – Eu odeio reggae. Odeio reggae. Detesto reggae. Não sei tocar reggae. Minha influência é a seguinte: eu realmente curto hard. O que curto mesmo é hard rock. Mas sempre que toquei, nunca me importei com o estilo que a banda fosse tocar. Eu me adapto ao estilo da banda. Minha função é tocar bateria, não interessa o caminho que está sendo seguido. Se me chamam para tocar, vou lá e toco. Agora, sempre quero colocar essa coisa mais pesada, o hard mesmo. Mas como Alex me conhece há muito tempo, e é velho como eu para falar isso aí, ele sabe que eu nunca me deixei levar por um tipo de estilo só. Então, eu estava brincando quando disse que odiava o reggae. Eu já escuto esse estilo faz tempo, como MPB, jazz e outros tipos de música. Eu gosto de qualquer música boa! Menos a do Beco...
JAPA – Agora chegou a parte complicada. Gosto muito de reggae, já até toquei em uma banda com o Duda antes, o Baseado, e... Em termos de música, eu gosto de tudo. De Calypso a Wes Montgomery.
RÔMULO – Rapaz, fala sério! Você gosta de Calypso?
JAPA – (irônico) Eu gosto. Vá para uma festa, cheia de mulher, para você ver como é bom Calypso. O que gosto mesmo de música é de Led Zeppelin. De guitarrista, gosto muito de Wes Montgomery. Todos os grandes guitarristas eu gosto, mas em especial Wes e Jimmy Page, do Led, uma lenda na guitarra.
ALEX – Antes de eu ir embora de Natal, quando eu tocava com Rômulo, eu era guitarrista. Naquela época a minha proposta como guitarrista era tocar muito pesado, era heavy metal mesmo. Heavy, trash... Na banda Memória de Elefante, que foi nosso primeiro trabalho, o pessoal reclamava porque eu tocava com a guitarra muito alta e com muita distorção. Depois, quando Rômulo começou a comprar discos de B.B. King, Beethoven, eu comecei a achar que ele estava ficando doido. Continuamos muito amigos, mas, musicalmente, eu achava que ele era doido. E ele achava que eu era insuportável. Aí apareceu uma viagem, fui para São Paulo. Lá eu conheci música contemporânea, tipo Frank Zappa, comecei a ouvir King Crimson. Rômulo já tinha me mostrado um disco deles e dito que eram bons. Eu achei que ele estava desgovernado do juízo. Mas quando conheci a música contemporânea, compreendi que Rômulo tinha razão. As músicas eram boas mesmo. O tempo foi passando, eu sempre trabalhando com música, terminei entrando na universidade. Fiz um curso de música em Minas Gerais. Lá conheci a parte teórica, as possibilidades de trabalhar com os elementos da música e foi quando me interessei por arranjo, por direção, enfim, todas as possibilidades que o ofício propicia pra quem estuda música. Atualmente, além desse trabalho com a banda Beco, tenho um outro com uma banda de música contemporânea. Comecei como guitarrista, mas hoje sou baixista. Gosto da música contemporânea, mas gosto muito do soul, do hard rock pesado e escuto música brasileira também.
GONDIM – Tive muita influência musical de Deep Purple e Black Sabbath. Deep Purple, principalmente, tenho que registrar, por influência de Rômulo, já que ele é Deep Purple até o pescoço. Influencia dele e de Zezinho, meu irmão cinco anos mais velho. Eu, boy, e Zezinho tinha todos os discos, vinis, de Deep Purple, Iron Maiden, ACDC, Led Zeppelin e, principalmente, Black Sabbath. Tive uma influência muito forte de Ozzy Osbourne. Quando eu era mais novo, ouvia só pancada, só heavy metal, por conta de Zezinho e de Rômulo.


ZONA SUL – Como vocês conseguem conciliar esses estilos todos? Como é a convivência de vocês, não enche o saco não?
GONDIM – Enche demais, vixe Maria! Mas é justamente através da convivência que a gente vai conciliando esses estilos diferentes. Até quando vou compor, tento traduzir naquela nova composição as influências de cada um. Quando compus O boi, por exemplo, que é uma das músicas do CD, pensei no estilo de Rômulo. A música traz influência que recebi do Black Sabbath, e do hardcore de Rômulo. Um reggae que também faz parte do nosso repertório foi composto para contemplar a influência de Duda, que gosta desse ritmo tanto quanto eu e o Japa. Alex sempre vai acompanhando e monitorando tudo isso aí. Mas a convivência é boa: quando a gente não está brigando, é porque está brigado (risos).
RÔMULO – Todos nós sabemos que o Beco foi formado por causa de Gondim. Ele é o mentor. A gente faz o segmento. Ele cria, mas a gente tem liberdade para propor modificações. O grande lance é esse: temos liberdade para colocar nossas influências. Por exemplo, muitas vezes ele compõe uma música que a gente não sabe definir. Duda acha um jeito de encaixar um reggae no meio dessa música. E fica essa coisa bem misturada. O Beco tem uma variação enorme. Uma música é bem diferente da outra. A gente tem músicas que você pode lembrar até um Pink Floyd, uma coisa progressiva. Toda banda, e até mesmo pela convivência, tem que ter uma liderança. Não estou falando que ele presta como líder, mas dizendo que tem que haver uma liderança, e, no caso do Beco, essa liderança passa por Carlos Gondim. Alexandre entra na função de organizar essa bagunça toda. Ele mostra o que pode e o que não pode ser feito. É um verdadeiro maestro em relação ao trabalho do Beco.


ZONA SUL – Falem um pouco sobre a música potiguar atual.
RÔMULO – (exagerando) Você quer que eu fale realmente da música potiguar? A música potiguar é horrível! Primeiro porque acho que nem música é. As bandas que têm aqui nessa cidade são tristes. Você escuta cada porcaria, você ouve cada negócio, que não tem condição. Na verdade, eu odeio o rock potiguar. A proposta do Beco é fazer com que esse rock ridículo, horroroso e mal acabado, melhore. Esse pessoal que toca hoje em dia não tem influência de absolutamente nada. Nós pelo menos temos, para trazer alguma idéia de novo. As bandas daqui são tão ruins que nem os nomes prestam. Originalidade, nenhuma. Estamos tentando trazer para a cena daqui de Natal algo novo realmente.
DUDA – Eu discordo um pouco de Rômulo. Eu não acho que tudo seja uma porcaria. Acredito que existem músicos muito bons aqui em Natal. Só que eles não são bem aproveitados. Não temos locais apropriados nem uma cultura de ter shows e eventos que favoreçam a esses músicos. Eles acabam tocando em bandas que não estão no nível deles. Temos grandes instrumentistas e cantores, mas eles acabam tocando em bandas de pop rock que só fazem covers de outras bandas, pra poder ganhar seu sustento. Aqui em Natal, ou você faz isso, ou não faz. Acho que temos músicos bons, mas aqui no estado não há condições para que eles possam tocar.
RÔMULO – Resumindo: a gente tem músicos bons e música ruim.
ALEX – Eu cheguei de Minas Gerais há três anos e, por isso, conheço menos o trabalho dos músicos que estão no mercado de Natal. Mas observei que nosso mercado tem bastante músico bom, tem compositores interessantes, mas é um mercado que está sendo feito agora. Os músicos agora é que estão se organizando profissionalmente, que estão conseguindo realizar mais, com mais moral para poder cobrar pelo seu trabalho perante os donos de casa noturna. Estão mais organizados, enquanto banda, também no sentido de ensaiar, manter os integrantes, achar a formação ideal e trabalhar com prioridades. Esses fatores são altamente importantes para definir um mercado. Acho que Natal é um mercado que está se potencializando agora, no sentido de que os artistas estão tentando fazer um trabalho com mais perfeição.
GONDIM – Discordo de Rômulo. Acho que em Natal tem grandes músicos. Onde você for você vai ver música aflorando. Agora, o que acontece é que não tem um mercado contínuo que gere uma rotina, onde o músico possa trabalhar, manter sua banda e viver da música. Isso tem gerado um problema sério que é o êxodo dos grandes músicos. A maioria dos grandes músicos vai para fora, para sobreviver. Natal está recheada de grandes instrumentistas, bandas e compositores. Por exemplo: Pedrinho Mendes, Bethoven, Jubileu, Sérgio Farias, Di Stéffano que está fazendo um trabalho no Brasil todo e já foi até para a Europa. Eu não vou mais citar para não esquecer de muitos. Tem músicas boas também. Mas, é aquela história, o que está faltando é mesmo o mercado, respeito e financiamento público para a cultura. Se não tem esse mínimo, é impossível para a arte acontecer. O músico hoje tem que fazer outra coisa para poder tocar, para poder ser músico. A música termina sendo ou um bico ou um sacrifício.
JAPA – Eu gostei muito da frase de Rômulo: que tem músicos bons e música ruim. Mas tem músicas boas também. Toda a regra tem exceção ou toda exceção tem sua regra. Em Natal as bandas conhecidas são as que tocam covers, que tocam na noite. Se não tocar cover, o povo não gosta e a banda acaba. Esse problema em Natal acontece muito. Ou toca cover e faz sucesso entre o pessoal pra ser conhecida, ou toca música própria, ninguém conhece e termina acabando, não toca em canto nenhum. Então acaba pagando para tocar, como é o caso do Beco. (risos)


ZONA SUL – Escale a banda ideal de todos os tempos.
JAPA – Vocês vão rir de mim, mas para a bateria eu escolheria Phill Collins. Um baixista seria Arthur Maia. No teclado, o bicho do Gênesis, Tony Banks. Um maluco, pirado, drogado. Vocalista, não em termos técnicos ou de qualidade, mas o que gosto é de Robert Plant. Sou suspeito pra falar do Led Zeppelin. O guitarrista seria Jimmi Page. Minha banda está aí, integrada por loucos.
RÔMULO – Só existe uma banda que realmente pode ser chamada de banda: o Deep Purple. A banda dos meus sonhos teria os integrantes do Deep Purple todos, sem exceção. Esse mundo se acaba, cria-se outra terra e eles permanecem. O Deep Purple teve várias formações. Começou com Nick Simper (baixo), Rod Evans (vocal), Jonh Lord (teclado), Ritchie Blackmore (guitarra) e Ian Paice (bateria). Ainda em 1969 saíram Evans e Simper, substituídos por Ian Gillan e Roger Glove. Em 1974 entraram David Coverdale e Glenn Hughes, nos lugares de Gillan e Glove. A atual formação do Deep Purple, é Ian Paice na bateria, Ian Gillan nos vocais, Steve Morse na guitarra, Don Airey nos teclados e o maestro Roger Glover.
ALEX – É uma pergunta pesada, mas vamos arriscar aí. Eu colocaria três guitarristas: Jimi Hendrix, Edward Van Halen e Ritchie Blackmore. Eu gosto de muitos baixistas, mas fico com Jaco Pastoris, que além de dominar o instrumento, é arranjador e compõe muito bem. Para a bateria, atualmente o que estou gostando mais, é o baterista de uma banda chamada Primus: Tim Alexander. Ele é uma revelação e um super músico atualmente. Como eu montaria uma big band, para os teclados eu chamaria John Lord e Keith Emerson. Para o vocal, no estilo do rock, eu acho fantástico o Ian Gillan.
GONDIM – Teclados: John Lord. Nas guitarras: Ritchie Blackmore e Pat Metheny, Vocal: Ozzy Osbourne. No baixo, outro também do Black Sabbath: Geezer Butler. Para a bateria pensei em Rômulo, mas só não voto nele porque no acordo para essa entrevista ficou definido que não podia indicar ninguém da banda (risos). Por isso, como baterista, escolho o Ian Paice.
DUDA – Como amante do reggae, se pudesse escolher, eu só trocaria Bob Marley... O seja, a banda dos meus sonhos é Duda, Marley e The Wailers. Não tem como. Eu seria mais feliz se tivesse nascido vinte anos antes do que nasci para poder estar vivo na época em que Bob Marley tocou com The Wailers. Então, a banda que eu formaria seria a mesma banda, tirando Bob Marley e me colocando em seu lugar. Bob Marley até poderia fazer backing vocal para mim. A banda dos meus sonhos jamais seria uma que eu apenas assistisse.


ZONA SUL – Agora fica o espaço para as despedidas e o recado final de cada um.
DUDA – É um prazer estar me dirigindo, através dessa entrevista, para o povo de Natal, em especial da zona sul da cidade, espero que todo mundo compre e goste do CD que estamos gravando e que em agosto deverá estar sendo finalizado.
JAPA – Gostei muito dessa entrevista, porque eu conheci coisas que eu nunca imaginei conhecer desse povo aqui. Sério mesmo, foi muito bom. Até detalhes da história da banda que eu não conhecia.
RÔMULO – Eu queria deixar claro que, apesar da gente fazer por diversão, música é algo muito sério. Esse trabalho que o Beco está fazendo, apesar da simplicidade, é feito com muita dedicação, com muito respeito à música. É em homenagem aos vários músicos que citamos aqui, é por respeito a eles, que fazemos o nosso trabalho simples, mas honesto.
ALEX – Como Rômulo falou, a simplicidade é o grande lance do nosso trabalho. O resultado final sonoro está ficando cada vez mais perto do que a gente quer. Quanto à entrevista, foi muito bom porque deu para perceber o quanto sou ruim de entrevista. (risos)
GONDIM – Me despeço mandando uma mensagem para as casas de música, de shows, os bares e restaurantes que contratam e convidam músicos para tocar: abram espaço mais ainda para que cada banda possa tocar suas músicas e produções próprias. Percebemos que há uma dificuldade na sobrevivência das bandas porque elas não podem assumir uma identidade. Não há espaço pra você se identificar com o estilo de uma banda. As casas perdem um público cativo que aquela banda poderia formar, se pudesse divulgar seu trabalho.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Entrevista: ÁTILA PESSOA

O HOMEM DOS SETE INSTRUMENTOS




Jornalista, publicitário, apresentador de programas de televisão, poeta, chefe de escoteiros, webdesigner e analista de sistemas. Se juntar tudo isso em um liquidificador, bater durante 33 anos e alguns meses, você tirará como resultado o potiguar hoje radicado em Brasília Átila Pessoa Costa. Quem lembra do Poupa Ganha certamente vai recordar de Átila. Quem assistiu as transmissões das corridas de kart pela TV Bandeirantes, também. Os espectadores do Globo Esporte no final dos anos 90 sacarão imediatamente ao ler a entrevista deste mês.

Noite de domingo em Brasília é como em qualquer outro lugar do mundo. Silêncio, famílias recolhidas, últimos instantes de descanso para a semana que se inicia... Mas na vida de Átila, sossego é algo que parece não fazer sentido. O homem está sempre ocupado. Sempre arrumando alguma coisa com a qual se envolver. É um verdadeiro homem que tem facilidade para manusear os mais diversos instrumentos. Ele reservou um espaço de uma dessas noites domingueiras para brindar os leitores do Zona Sul - que devem estar com saudades desse potiguar que não aparece mais na telinha das emissoras do estado - com pérolas e histórias que vão reproduzidas a seguir. (Roberto Homem)

ZONA SUL – Onde você nasceu e como foi sua infância?
ÁTILA - Nasci na Maternidade-Escola Januário Cicco. Era um domingo, meio-dia e trinta do dia 18 de dezembro de 1971. Meus pais são de Macaíba, mas, ambos importados. Minha família, por parte de mãe, veio do interior, de um lugar que não existe mais, Oiticica, que era vizinho a Macaíba. Outros parentes vieram da Paraíba, da família Barbosa Melo. Ainda tenho muitos parentes em Macaíba, da família dos Pessoa, principalmente. Minha infância foi muito particular. Quando nasci, meus pais moravam na Alexandrino de Alencar, naquela baixa com a Jaguarari onde sempre tinha alagamento. Depois nos mudamos para Morro Branco. Em seguida, fomos para o conjunto Bandeirante, que fica perto do local onde hoje funciona a Universidade Potiguar (UnP). Essa é a parte que eu lembro mais. Foi lá que aprendi a andar de bicicleta, onde comecei a ter um pouco mais de mobilidade. Até os 7 anos ficamos por ali. Depois alugamos uma casa na Rua São José, antigo Conjunto Potengi, que fica em frente à Praça das Bandeiras. Em seguida mudamos para a Cidade Jardim, ainda em construção. Era um barrão só. Eu tinha poucos amigos. Não tinha vizinhos. Para jogar bola no final da tarde, tínhamos que importar colegas de Mirassol e de Neópolis. Quando mudei para Brasília, ainda morava lá.

ZONA SUL – Que recordações você guarda dos colégios nos quais estudou?
ÁTILA – No maternal estudei na Cidade Encantada. Lembro muito pouco do colégio, lembro mais da kombi que nos levava. Depois fui para o Maristela, onde fiz alfabetização. No primeiro ano, fui estudar no Salesiano. Meu irmão, que fazia a terceira, também foi. Estudei lá de 1978 a 1986. Em 1987 a minha mãe, que é educadora, foi para a Associação Potiguar de Educação e Cultura, Colégio Apec. Fui junto. Fui fazer o segundo grau lá. Depois a Apec virou Colégio Objetivo. Foi lá que terminei o segundo grau, em 1989. Lembro mais dos tempos de Salesiano. Joguei futebol lá, na época do professor Eloy. Disputei dois Jogos Escolares do Rio Grande do Norte (Jern’s): fui campeão e vice. Nas disputas dos jogos internos, recordo que a quarta série tinha dois times que alimentavam uma rixa feroz: o Globo e o Benguê. Eu nunca jogava porque a turma achava que eu não tinha tanta qualidade. Mas teve uma ocasião em um campeonato que fiz o gol decisivo de pênalti e dei o título para o nosso time. Virei herói do dia para a noite. Isso marcou. Fiz muitos amigos, até hoje encontro colegas do Salesiano na Internet, através do Orkut (http://www.orkut.com/). A comunidade do Salesiano tem mais de mil ex-alunos reunidos com o propósito de trocar informações pela Internet.

ZONA SUL – Você foi escoteiro nessa época ou virou depois de velho?
ÁTILA – O grupo escoteiro que eu fazia parte em Natal que era o Grupo Escoteiro Universitário, do qual sou membro fundador. O grupo foi fundado em 1980, mas o registro da União dos Escoteiros do Brasil pra gente foi liberado em 1981. Mas desde o final de 1979 ele começou a se reunir lá ainda no Conjunto dos Professores, em frente à pracinha do conjunto. Eu era muito pequeno, tinha 8 anos em 1979. Comecei como lobinho, depois fui escoteiro (na faixa dos 11 aos 14), mas não fui membro sênior. Afastei-me dos 15 aos 18. Depois dos 18 foi que voltei para o grupo, para atuar como pioneiro. Não fiquei muito tempo, por conta do jornalismo, já que tinha muito trabalho nos finais de semana. Era para eu estar acompanhando já como membro adulto, como chefe, auxiliando a sessão. Voltei para o movimento aqui em Brasília, quando passe a trabalhar como gente normal e dispor dos meus finais de semana.

ZONA SUL – Como entrou o jornalismo na sua história?
ATILA – Sempre tive interesse em trabalhar com informação. Já no comércio do meu pai eu fazia muitos relatórios de compras. Quando estava cursando o pré-vestibular eu lancei um fanzine, o Eco, que saía toda segunda-feira. Não era o Eco do Umberto Eco, mas o eco de repercussão. Isso em 1989, no Objetivo. Tinha umas fofocas, umas reportagens consistentes e outras de araque. Nessa época eu já tinha tomado a decisão de fazer jornalismo ao invés de direito.

ZONA SUL – Esse Eco, em resumo, era como qualquer jornal...
ATILA – Sim, bem a cara do jornalismo de hoje. A gente tentava fazer a comunicação não só pela informação, mas também pela integração. Tentávamos promover novas amizades. O colégio Objetivo tinha chegado como uma coisa muito nova, pré-vestibular, cursinho, todo mundo muito novo. Lembro de uma matéria do Eco que causou uma confusão boa no colégio. O coordenador era Josué. Ele custeava as cópias xerox do jornal e eu estampava os folhetins na porta das salas. Em uma das últimas edições, já às vésperas do vestibular, eu tinha feito uma pesquisa na escola, baseado na minha intuição, sem nenhum fundamentado científico, e apontei que o colégio não teria uma aprovação no vestibular superior a 40%. Quando divulguei isso, soou como se eu estivesse jogando contra a escola. Dias depois da divulgação do resultado, eu curtindo aquelas ressacas intermináveis de festa de vestibular, eu estava na loja do meu pai, a Protel, lá no conjunto Tirol, e chega Josué em seu Jeep. Ele entra e me dá os parabéns, confessando que não sabia como eu tinha chegado aquele percentual, mas que a escola tinha alcançado 38% de aprovação. Este número batia com os até 40 que eu tinha publicado, contrariando todos os princípios de estatística e fazendo o Ibope tremer nas bases, com esse forte concorrente.

ZONA SUL - E a sua trajetória no jornalismo?
ATILA – Quem não é estudante de jornalismo talvez não crie a expectativa de assistir uma aula de Vicente Serejo, de Cassiano Arruda... De estar diante das pessoas que escrevem a história do Rio Grande do Norte. Para mim isso sempre foi muito bacana. Na disciplina Técnicas de Produção e Difusão do Jornalismo, montei uma novela com personagens que não se limitavam ao número de pessoas da equipe. Imitávamos outras vozes para completar e colocar mais gente nas novelas. A partir daí surgiu uma oportunidade para fazer imitação na Rádio Poti. A emissora enfrentava dificuldade financeira muito grande, não podia contratar. Eu imitava vozes em trechos de crônica policial dentro do plantão da Poti. Na verdade, criei um personagem chamado Gil Berto. Era uma imitação de Gil Gomes. Gil Berto recebia cartas, tinha até fã clube! Às vezes, quando eu passava pelas Rocas, ouvia o povo comentar as histórias do Gil Berto. Isso era gratificante, porque a Poti dava traço de audiência.

ZONA SUL – Essa experiência durou muito tempo? O que fez depois?
ATILA - Foram dois, três meses, mas bem interessantes. Terminei deixando a Poti porque não recebia nada pelo trabalho e também para me dedicar a um novo projeto com Flávio Resende. A intenção era criar um programa de entretenimento para a TV. A idéia inicial veio de umas gravações que eu fazia, umas matérias mais irreverentes. Por exemplo: fizemos uns trabalhos de entrevistar profissionais da noite. Fomos em postos de gasolina 24 horas, conversamos com telefonistas e até fomos à zona do baixo meretrício. Fazíamos as entrevista, montávamos os compactos e o nosso vídeo saía. Flávio achou que aquilo ali poderia ocupar um espaço na tv comercial. Montamos o projeto, mas por questões pessoais, Flávio acabou abdicando. Procurei Tota Farache e executamos o programa junto com Adriana Trindade. Margot, hoje na TV Cabugi, era uma das apresentadoras ao lado do próprio Tota. Eu fazia as reportagens. O programa, que era exibido na TV Potengi, começou em março de 1993. O próprio programa piloto ficou tão bacana que foi ao ar. Gravava muitas externas à noite. O programa rodou um ano e meio nesse formato, depois a gente foi mudando. Ele passou um tempo gravado todo na rua, depois ficou todo no estúdio, e ao vivo.

ZONA SUL – O que mais você fez na TV?
ATILA - Emendou com programas que a gente fazia sobre o Carnatal. Começamos o De Olho na Folia, em 1994. A Potengi mantém até hoje, para cobrir o Carnatal. Só que está bem mais incrementado. Na época fazíamos um programa pequeno. Os primeiros foram até custeados pelos blocos. Hoje a TV tem autonomia e um monte de patrocinadores. Em parceria com Serginho Oliveira, que hoje está gerenciando o shopping Midway, fizemos o Potengi Express. Serginho fazia cinema nos Estados Unidos, e tinha muita proximidade e conhecimento com material de vídeo-clip, trailler de cinema, e já tinha feito diversas entrevistas com atores. Ele mandava o material de Miami para Natal. Eu montava a agenda cultural, editava e a gente fazia um bate-bola com um VJ direto dos Estados Unidos, o Vlad. Mas a TV foi afracando, os problemas financeiros atrapalharam não só esse programa mas alguns planos que a gente tinha. Um dos projetos que chegou a ser executado foi transmitir as corridas de kart ao vivo. Fizemos duas corridas e uma tentativa. Fazíamos com aquele aspecto de corrida de formula 1 mesmo. Temos que valorizar o que é nosso, tem muita gente boa por aqui. É só lembrar do dia em que Nélson Piquet veio disputar uma corrida de kart e fez uma lambança. Não admitiu perder para os nossos pilotos humildes, com equipamento limitado, que deram um show em cima do tri-campeão e do filho dele.

ZONA SUL – E depois da Potengi?
ATILA – Quando saí da Potengi passei um tempo ruim, acabei tendo que me envolver mais com a publicidade. Cheguei a trabalhar diretamente na Pró-Vendas, uma agência simples mais voltada para o varejo e fui fazendo publicidade por minha conta também. Fiquei seis meses trabalhando com produção de arte, serigrafia e publicidade, até que, em janeiro de 1996, Sérgio Oliveira voltou para Natal. Estava cheio de ideais. Uma delas era montar um programa falando sobre carros. Fui convidado para ficar responsável por essa unidade de produção e trabalhar diretamente com o programa. Foi quando montamos o Trânsito Livre. Na época eu tinha decidido terminar a faculdade, já que estava naquela enrolação de trabalhar muito e não terminar o curso. Na universidade encontrei com Gustavo Chileno, que estava na produtora da Cabugi, a Cabugitec, que tinha proposta de voltar a fazer o Valeu o Boi. Fui chamado para fazer esse programa, mas a TV Cabugi acabou desistindo do Valeu o Boi. Nesse meio tempo, Ana Luiza soube que eu estava lá à disposição e me chamou para assumir o lugar do repórter Marcos Bezerra, que estava indo para Mossoró substituir Geraldo Gurgel, que por sua vez iria morar em Brasília, para trabalhar na sucursal da Cabugi.

ZONA SUL – Você abraçou a reportagem e deixou para lá o projeto com Sérgio Oliveira?
ATILA – Não, eu fiquei em paralelo montando o programa com Serginho. Mas ele foi se envolvendo com outras coisas e terminei assumindo como editor, pela TV, do programa, que mudou de nome. Deixou de ser Trânsito Livre e virou Rodas e Motores. Passou a ter participação mais efetiva de Fernando Siqueira. Uma vez ele chegou para mim e disse que o Vectra que ele tinha testado tinha andado 207 km por hora. Eu disse: “Fernando, você testou onde?”. Ele respondeu que na Reta Tabajara. Eu falei que não colocaria uma informação daquela na matéria por dois motivos: o primeiro é que ele teria cometido uma imprudência, o segundo é que a história era mentira, pois o Vectra não atinge tal velocidade. Ele explicou: “foi Aluízio Alves quem me ensinou a dizer sempre um número quebrado senão as pessoas não acreditam”. Completei: “nem quebrado eu acredito”. Mas no final de 1998 uma consultoria concluiu que a TV tinha que reduzir o quadro para 100 empregados. Eles encheram uns dois ônibus para tirar de gente lá de dentro, eu inclusive.

ZONA SUL – Qual a grande matéria que você fez?
ATILA – Como eu estava muito mais ligado ao Globo Esporte, talvez as melhores matérias tenham sido as desta editoria. Foi inesquecível, por exemplo, acompanhar a entrada do Rally dos Sertões dentro do estado, com gente como Klever Couberg, representante brasileiro na categoria maratona do Rally Paris-Dakar. Uma matéria legal foi um ano depois da inauguração do prolongamento da avenida Prudente de Morais até o Satélite. O motoqueiro Juca Bala topou o desafio de tentar subir de moto um paredão de areia nas dunas que ninguém conseguia subir nem a pé, já que quando se tentava o morro vinha descendo. Na terceira tentativa ele subiu de moto. E não foi só uma vez. Filmamos várias vezes. Para não deixar por menos, outro motoqueiro maluco, Beto Caronado, fez uma travessia em uma lagoa de mais ou menos 50 metros, por cima da água! Isso foi lá em Alcaçuz, perto do presídio. É uma das imagens mais bacanas que fizemos. Tem uma época do ano em que a lagoa fica mais rasa, a terra fica quase nivelada com a água. Beto acelerou até mais ou menos uns 60 km por hora e detonou sua moto na água, flutuando, sem afundar, até ganhar a outra margem.

ZONA SUL – E na cobertura do futebol, o que lhe marcou?
ATILA – Um dos momentos inesquecíveis foi uma partida América e Flamengo, pela primeira divisão, em que o América já estava quase rebaixado e o adversário ainda lutava para ficar entre os oito. A torcida do América foi ao Machadão de vermelho e preto naquele dia. Já se esperava que os flamenguistas enchessem o estádio, pois o time vinha de uma goleada aplicada no Vitória, por 4 a 0, em Salvador. Além disso, o plantel contava com Romário, Sávio, Paulo Nunes, Clemer, Ricardo Rocha e Beto. Já o América tinha um time repleto de jogadores teoricamente rejeitados pelos outros clubes - que faziam parte do segundo ou terceiro time de Vasco, Fluminense e Botafogo - cedidos a um custo mais baixo. O resultado é que esse pessoal estava louco para provar o seu valor. Mas essa partida foi cheia de particularidades. Uma delas já se deu no primeiro lance do jogo: um gol do América. Na filmagem (ela está disponível no arquivo da TV) tem uma pessoa no estádio - que vou preservar o nome - fazendo xixi. A cena foi transmitida em cadeia nacional, ao vivo. Foi assim: esse cara chegou perto de mim e perguntou onde podia fazer. Eu disse que não tinha banheiro por perto. Como estava caindo aquele chuvisquinho, e eu estava vestido com uma capa de chuva da TV, sugeri que fizesse ali mesmo, por trás do gol defendido pelo Flamengo. Eu disse a ele que todo mundo estava olhando para a bola, e que somente as pessoas da arquibancada de trás é que poderiam ver alguma coisa. Então dei cobertura. Abri a capa e fiquei por trás dele, até que o serviço fosse feito. Só que quando ele estava ali tentando recolher o material pra fechar o zíper, acontece o gol do América. Imagine um americano tentando comemorar com as mãos ocupadas. Ainda mesmo nesse jogo, marcante foi quando o América desempatou a partida (Beto, do Flamengo, tinha empatado aos 5 do segundo tempo). Quando Rogers fez o gol, consegui ver quase a metade da torcida do Flamengo comemorando. Eram os americanos que tinham entrado no campo fantasiados de flamenguistas. Quando viram que o América estava ganhando, colocaram para fora o verdadeiro “eu”. Defendo a teoria de que você não consegue torcer por um time em Recife, outro em Natal e outro no Rio. Sou contra essa linha de pensamento. Posso admirar outro time, mas não torço por ele.

ZONA SUL – Conte outra história que marcou sua atuação como repórter.
ATILA – As disputas de boxe de Adenúbio Melo, que hoje é vereador, foram fantásticas também. Teoricamente falando, ele era fadado a não participar de nenhum esporte. Até uma perna menor do que a outra ele tem. Trocou o full contact pelo boxe no tempo em que o Rio Grande do Norte nem tinha escola dessa modalidade. Foi tudo no peito e na raça, inventando os equipamentos para treinar, improvisando os sparrings... De tanto batalhar ele conquistou o título da Comissão Mundial de Boxe, que é até da Argentina, e está lá pelo décimo segundo lugar entre as federações de boxe. Mas foi por intermédio dela que Adenúbio teve a chance de lutar pelo cinturão de outra companhia, uma das quatro maiores. Ele tinha que enfrentar o campeão duas vezes: a primeira para se habilitar a disputar o cinturão. Se Adenúbio ganhasse a primeira, depois de três meses teria a segunda luta, aí sim valendo a unificação. Adenúbio ganhou a primeira. Quando seu adversário veio a Natal para a segunda luta, voltei a perguntar uma coisa que já tinha indagado da vez anterior: se ele tinha perdido a luta por perder. Ele respondeu com outra pergunta: “você prefere ganhar 3 ou 13?” O mexicano estava se referindo à bolsa que receberia pelas lutas. Seu prêmio para a primeira luta seria US$ 3 mil. Se houvesse a segunda, valendo pelo título, ele embolsaria mais US$ 10 mil, se vencesse. Pensando em ganhar os 10 mil, ele se submeteu. Só que na segunda luta só faltou Adenúbio estar pintando de vermelho, com rabo e chifre. Ele estava o cão em cima do ringue. Deu uma surra no mexicano! Nunca vi alguém jogar boxe como ele lutou nesse dia. Parecia que desconhecia todas as regras. A única coisa que Adenúbio parecia ver era o queixo e a testa do adversário. Foi campeão do mundo.
ZONA SUL – E a poesia?
ATILA – Augusto dos Anjos é, para mim, a maior expressão poética. Ele é um jornalista, apesar de ter feito direito. Foi sua veia literária que me deu um ponto de inspiração. Quando gosto de sintetizar alguma coisa, faço um poema. Pode ser uma glosa, um soneto ou uma quadra. Vou montando a poesia de acordo com a necessidade da informação que preciso passar. Sempre vem uma boa poesia quando há um assunto. Quando comecei a juntar meus primeiros poemas, recebi apoio do meu pai e de um tio para lançar um livro. A conseqüência é que em 1991, em 19 de dezembro, um dia depois de eu completar 20 anos, lancei um livro. Foi lá no Clube de Radioamadores. Consegui fazer algo que deve ser recorde em Natal até hoje. Consegui vender 420 exemplares no lançamento. Amigos, familiares, colegas de faculdade... Quem você imaginar de gente apareceu. Mas a maior satisfação foi ver pessoas que eu nem conhecia. Apareceram por terem lido nota publicada no Diário de Natal. Aliás, a nota até saiu errada. O nome do livro é Fantasias de um Declínio Poético. No jornal trocaram o “fantasias” por “fantasmas”. O prefácio foi de Vicente Serejo. Até hoje ainda faço reflexões sobre o texto que ele escreveu. Cheguei a participar de concursos de poesias na universidade, só lamento que os prêmios geralmente eram livros. Não tinha 5 ou 10 mil reais ou passagens para Fernando de Noronha ou Nova York. Um momento marcante do meu livro foi tê-lo lançado em João Pessoa. Por causa dele também fiz amizade por correspondência com o poeta Ronaldo da Cunha Lima, que foi governador da Paraíba. Também tenho particular agradecimento ao presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima, pessoa que mandou o livro a Paraíba e ainda encaminhou boas referências. Atualmente estou com um monte de poesias, apenas aguardando um novo livro. Quem sabe vou lançá-lo no Clube de Radioamadores ou então na próxima Bienal de Natal? O título até já foi escolhido: “Nunca é Tarde pra Chegar Atrasado”.

ZONA SUL – E sua mudança para Brasília?
ATILA – Em 1998 estive em Brasília de férias e gostei da cidade. Descobri que, com a facilidade proporcionada pela Internet de a gente poder trabalhar em qualquer lugar, Brasília poderia ser um ponto de referência. Não estava nem pensando em arrumar trabalho, queria relaxar, pois nos meses anteriores eu tinha trabalhado muito, sem sequer ter descanso em feriado ou final de semana. Mas com uma semana na cidade recebi cinco propostas de emprego. Terminei aceitando um convite para trabalhar como webdesigner de uma empresa de informática chamada Politec. Em pouco tempo passei a atuar como instrutor e acabei virando analista de sistemas. Agora estou concluindo uma pós-graduação na área de gerência de projetos. E é esse o rumo da minha vida atual.


Jenner Marinho, Átila Pessoa e Roberto Homem

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Entrevista: TICO DA COSTA

TICO DA COSTA: O ANJO VESTIDO DE HOMEM

No dia 29 de agosto de 2009 eu estava dentro de um ônibus ao lado de Florian Augusto Coutinho Madruga - o irmão de Woden Madruga que atualmente dirige a Gráfica do Senado. Estávamos em Curitiba, participando da primeira bienal do livro da cidade. Rumávamos do hotel para o trabalho, naquele começo de tarde. Foi quando o telefone tocou.

Era Ricardo Menezes, dono do Restaurante Veleiros. O ex-guitarrista das bandas Cabeças Errantes e Cantocalismo, que poucos dias antes estivera comigo em Brasília, deu a notícia. “Tico acabou de morrer”. Francisco das Chagas da Costa, Titico de Dijesu, Luiz Augusto, Titico, Tico da Costa ou apenas Tico, havia descansado depois de ter sido surpreendido pela notícia recente de que um câncer havia se instalado em seu pâncreas.

Conheci Tico no início de junho de 2005. Mais uma vez Ricardo Menezes fez parte da história. O encontro se deu no seu “Veleiros”, lá na Estrada de Ponta Negra. Eu e o amigo jornalista Costa Júnior fomos entrevistar Tico da Costa para este Zona Sul. Eu não sabia nada de sua vida. O filho de seu Dijesu, o carteiro lá de Areia Branca, nos deixou embasbacados quando falou com desenvoltura e intimidade em nomes como Philip Glass, Carybé, Lina Wertmuller, Jô Soares, Peter Seeger e Gerald Thomas.

Durante aquele jantar, percorremos lugares como Natal, Recife, Nova York, Roma, Milão, Costa Rica e Assunção, entre muitos outros. Tudo, lógico, tendo como ponto de partida o Beco da Galinha Morta, em Areia Branca. Mas as palavras de Tico, as histórias e suas músicas – que imediatamente em seguida passei a conhecer – apesar de tanta riqueza, graça e densidade, representam apenas um pouco da energia que ele transferia. Tico era um ser iluminado.

O título de uma matéria da jornalista Michelle Ferret, da Tribuna do Norte, tratando Tico da Costa como “o anjo vestido de homem”, me tocou profundamente. Sara Beatriz Fracchia, a mulher de Tico, é a responsável pela descrição. Nada melhor do que ela para saber. De longe, eu achava que ele era mesmo diferente. Nunca vi tanta generosidade reunida em uma só pessoa.

Tico tinha várias qualidades: talento, simplicidade, inteligência, simpatia, senso de humor, esperança, alegria... Ele tinha um mundo dentro de si, exalava criatividade. Era moldado para a música. O violão nem poderia ser chamado como extensão do seu corpo. Fazia mesmo parte dele. Mas a característica dele maior, pelo menos para mim, era a generosidade. Ele não economizava amizade, atenção e gentileza, que distribuía em doses fartas ao seu semelhante.

Titico não!

O artista plástico argentino e naturalizado baiano, Carybé, depois de ter feito uma viagem a Itália – ele e esposa – na companhia do casal “da Costa”, enviou uma carta ao amigo Titico dizendo que tinha um assunto muito delicado a tratar. “Olha, esse seu nome não dá certo”. Assinando como Titico, Tico da Costa já havia gravado alguns compactos e um long-play na Itália. Noivo de Sara, ele se comoveu quando Carybé esgrimiu o argumento definitivo: “quando vocês casarem corre o risco de alguém chamá-la de Titica”. Depois que leu essa frase, Tico disse ter se sentido um verdadeiro “Bosto”. Ele nunca permitiria que a grande paixão da sua vida corresse, embora que muito remotamente, esse risco.

Decidido a aceitar a argumentação do amigo, ele gastou noites pensando, até que resolveu adotar o nome artístico de Chico da Costa. Compôs até uma canção se apresentando: “Meu nome é Chico / E feito nordestino xique-xique me criei / O que por fora é seco / Por dentro haja água / Chico, Chico é cheio”. Uma sombra frondosa chamada Chico Buarque, o fez desistir da concorrência. “Outro motivo para eu desistir rapidamente desse novo nome foi que parecia que tinha um xique-xique dentro de mim: o nome espinhava”.

Talvez só tenha espinhado menos do que o curto período em que ele chamou-se Luís Augusto, por sugestão de Jota Belmont, da antiga Rádio Cabugi. Tico cantava iê-iê-iê, algumas canções do Roberto Carlos e outras de Jerry Adriani. Foi na Lagoa Manoel Felipe, em um programa transmitido para todo o Rio Grande do Norte pela emissora que hoje se chama Globo, que surgiu o Luis Augusto.

Mas Francisco, que tinha virado Titico, depois Luís Augusto e se transformado em Chico da Costa, voltou a ser Francisco da Costa. Porém, também não demorou muito, achou muito clássico. E os amigos acharam horrível. Ao pensar na nova alternativa, resolveu de antemão que preservaria o “da Costa”, pois era inscrito na Sociedade de Autores Italianos com esse sobrenome, que é o formato adotado por lá. Facilitaria a cobrança de direito autoral. Virou Tico da Costa.

Ele somente ficou convencido, satisfeito e orgulhoso com a nova opção depois que recebeu um cartão de Peter Seeger, artista folk americano mentor de Bob Dylan e Joan Baez e compositor de, entre outras, “Date me un martelo”. Era um desenho da Via Láctea com um pontinho minúsculo apontando a terra e a frase: we are here (nós estamos aqui). “Pensei imediatamente: a terra não é mais do que a metade de um tico!”.

Explicada a questão das diversas identidades do artista areia-branquense, é bom também esclarecer como Tico virou nômade e percorreu o mundo encantando pessoas com a sua música e também com a sua personalidade. Menino ainda, ele via Mirabô Dantas tocar pelas ruas da cidade natal de ambos. Procurava imitar o ídolo que posteriormente virou amigo e colega de luta em favor da música popular potiguar.

Aos 15 anos já morava em Natal. Foi aluno da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte. Lá conheceu a professora de artes Lourdes Guilherme, que ao atestar seu talento, arrumou uma bolsa de estudos na Escola de Música da UFRN. O instrumento foi o contrabaixo, já que não tinha mais vaga pra violão. Quando se transferiu para Recife, trocou pelo violão clássico.

Eu não tenho dúvidas de que Tico da Costa, nesse instante, vela por todos nós de um lugar especialmente reservado a ele lá no céu. Não bastasse o exemplo, a prática, a vida, ele também era teórico. Era ovelha da igreja católica. Sem alardes ou recriminações a nós os pecadores. Por intermédio do Gen Cântico Novo, grupo que pertencia ao movimento Focolares, Tico, aos 21 anos, em 1972, foi a Roma participar de um congresso internacional de jovens.

Discografia

Seu violão, sua voz e seu “eu” conquistaram os italianos. Como um César equatorial, ele foi, viu e venceu no reino do próprio César. Gravou, somente em 1972, três compactos: “Cantico nuovo”, Cittá colorata” e “I complimenti”. Quatro anos depois, lançou seu primeiro elepê “Poesia e samba”. Gravou, ainda na Itália, “Brasil Jerimum”. Foi quando voltou a Natal e, pelo Projeto Memória, da UFRN, lançou América Latente.

Conquistada a Europa, tendo a Itália como base, havia chegado a hora de experimentar a América do Norte. Nos Estados Unidos lançou “Brazil encanto”, “Música de la tierra” e participou do “Contemporan Global Voices”, um trabalho de world music. Foi para o Paraguai, terra de Sara. Com Palito Miranda lançou “Con sabor a Brasil”. De volta aos Estados Unidos, gerou “Choro suíte”. Era hora de se aquietar um pouco. Voltou para Natal em 2003. Lançou “Anjos da selva” e “Ideal 1”, de forma independente. Este último é um disco de canções que ele fez expressando sua fé.

Mesmo tendo o território papa-jerimum como base, Tico não deixou a vida de andarilho. Gravou “Lagartixa”, nos Estados Unidos, e “Mar”, na Itália, seu último trabalho lançado em vida. Curioso é que, quando estava gravando “Lagartixa”, as torres gêmeas do World Trade Center desabaram após um atentado terrorista, em Nova York. Tico da Costa estava em um prédio do outro lado do rio Hudson. “Era como se eu estivesse na beira do Rio Potengi, e as torres desabassem na Redinha”. Meses antes ele havia tocado no 105º andar do WTC. Também já havia se apresentado entre as torres, com Philip Glass.

O músico minimalista é autor de trilhas importantes para o cinema tornou-se seu amigo quando esteve no Brasil fazendo anotações para o próximo filme que iria musicar: Pawaqatsi. Philip já era famoso. Tico, que na época, 1984, sequer falava “good night” foi seu cicerone durante uma viagem pela floresta amazônica. Eles não se comunicavam em tupi-guarani, mas em francês. Quando mostrou “Ana Bandolin”, o norte-americano se apaixonou à primeira vista.

Assim era Tico da Costa. Um ser apaixonante. Sua morte foi lamentada em larga escala. Não apenas em Natal, mas por todas as localidades onde ele tinha um amigo que o queria. No dia 16 de agosto a música potiguar prestou uma homenagem a ele, no Teatro Alberto Maranhão. Conhecidos e anônimos foram agradecê-lo por tudo e prestar-lhe mais uma homenagem. É isso que o Zona Sul também tenta fazer nesse instante. (Roberto Homem)


MY NAME IS TICO





Como misturar em um só texto nomes como Philip Glass, Caribé, Lina Wertmuller, Jô Soares, Peter Seeger e Gerald Thomas? Como falar de música nordestina, cinema, atentado ao World Trade Center e viajar por Natal, Recife, Nova York, Roma, Milão, Costa Rica e Paraguai em tão pouco tempo? As respostas para essas perguntas podem ser encontradas na entrevista que fizemos com o potiguar de Areia Branca, Tico da Costa.

No começo de junho, eu e o jornalista Costa Júnior recebemos o cantor, compositor, showman e excelente figura Tico da Costa para um jantar no restaurante Veleiros, na Praia de Ponta Negra. Durante quase uma hora e meia, Tico da Costa contou suas peripécias mundo afora. Queda das torres gêmeas, shows em Nova York, Itália, Alemanha... Amizades com personalidades das artes. Tudo isso você vai conferir a partir de agora. (Roberto Homem)



ZONA SUL – Como é seu nome verdadeiro? Como surgiu o Tico da Costa?
TICO – Meu nome é Francisco das Chagas da Costa. Lá em casa todos sempre me chamaram de Titico. Colegas de Areia Branca me chamavam Titico de Dijesu. Dijesu era meu pai: carteiro, violonista, contador de causos... Titico, aqui no Nordeste, é um diminutivo de Francisco. Resolvi assumir esse nome artístico. Na Itália, onde fui estudar violão clássico, gravei três compactos e um long play assinando como Titico. De volta ao Brasil, conheci uma figura muito interessante: o artista plástico baiano-argentino Caribé. Pouco tempo depois, fizemos uma viagem pela Itália. Eu e minha atual, única e contínua esposa, Sara, que naquela época era namorada, Caribé e Nancy. Visitamos aqueles museus italianos, conhecemos tudo. Ele também me chamava Titico. Até que um dia, Caribé me encaminhou uma carta que dizia, logo no começo, que ele tinha um assunto muito delicado para tratar comigo. Que ele falaria porque era meu amigo e o verdadeiro amigo era aquele que encostava o outro num canto de parede antes que algum inimigo o fizesse. Caribé disse: “olha, esse seu nome não dá certo”. Mas o argumento definitivo, aquele que me fez decidir trocar o nome, foi quando ele profetizou que quando eu casasse com Sara correria o risco de alguém chamá-la de Titica (risos). Senti-me o verdadeiro “Bosto” naquele momento. Foi uma pena, porque eu tinha até inventado uma assinaturazinha tão bonitinha... Escrevia um traço assim e botava dois pingos em cima. Perfeito. Mas não foi fácil. Eu tinha vários discos gravados, um certo nome na Itália, e estava sendo obrigado a mudar.

ZONA SUL – Foi aí que você resolveu assumir o Tico da Costa?
TICO – Não! Depois de noites e noites pensando, resolvi adotar o Chico da Costa como nome artístico. Até compus uma música, gravada em um long play na Itália, me apresentando: “Meu nome é Chico / E feito nordestino xique-xique me criei / O que por fora é seco / Por dentro haja água / Chico, Chico é cheio”. Mas lembrei que já tinha o Chico Buarque. A concorrência seria dura. Outro motivo para eu desistir rapidamente desse novo nome foi que parecia que tinha um xique-xique dentro de mim. O nome espinhava. Troquei para Francisco da Costa, mas não demorou muito, porque ficou muito clássico. Meus amigos me chamaram de doido, acharam horrível. Enfim, como eu era inscrito na Sociedade de Autores Italianos com o nome Da Costa (lá eles adotam o sobrenome), resolvi conservar esse pedaço para facilitar na hora de cobrar direito autoral. Foi quando optei pelo Tico da Costa. Um dia conheci Peter Seeger - importante artista folk americano, responsável por ter levado a música Guantanamera para aquele país e compositor de sucessos internacionais como Date me un martelo, que Rita Pavone gravou. Ele ficou fã de uma música minha: Ana Bandolim. Peter Seeger é o Luiz Gonzaga norte-americano, ele foi mentor de nomes como Bob Dylan e Joan Baez. Toca banjo. Fizemos vários shows juntos. Um dia ele me mandou um cartão com os dizeres “We are here” (Nós estamos aqui), com um desenho da Via Láctea e um pontinho apontando a localização da terra. Logo que olhei, pensei: a terra não é mais do que a metade de um tico! Eu tenho é que ficar orgulhoso com esse nome, pois eu vivo num tico. Situação parecida ocorreu quando fui a Costa Rica. Os costa-riquenhos são chamados de ticos. Todo mundo é tico por lá. É como brasileiro aqui.

ZONA SUL – Como era sua vida em Areia Branca e como se deu a descoberta musical?
TICO – Uma irmã minha ganhou de presente um violão. Ao todo, tenho 15 irmãos. Somos oito homens e oito mulheres. Meu pai, Dijesu Paula, era um carteiro conhecidíssimo e queridíssimo em Areia Branca. Ele entregava uma carta e contava uma piada. Morreu em 1992. Toda a família dele, de ambos os lados, tinha músico. Meu pai tocava violão. Foi olhando pra ele que vi os “lás” menores, o mi... Minha irmã ganhou o violão, mas nem triscou. Mas eu e meus irmãos caímos em cima do instrumento. Meu pai - que estava sem violão há muito tempo porque minha mãe tinha vendido para ver se ele deixava de farrear, e ele deixou mesmo de beber – voltou a tocar de novo. A gente fazia fila pra tocar. Literalmente. Meu irmão mais velho começou a aprender violão com um professor que estudava violão clássico por correspondência. (risos). Meus primeiros acordes aprendi com meu pai e com Mirabô Dantas, que vivia tocando pelas ruas de Areia Branca. Eu olhando, perguntando, enchendo o saco. E Mirabô fazendo aqueles acordes de dissonância. Eu e meus outros irmãos, só olhando, já aprendíamos. Era a maior briga, mas a gente trocava figurinha. Um ensinava ao outro. Mas aconteceu uma coisa interessante, da natureza mesmo. Desde que aprendi os primeiros quatro acordes, comecei a compor. Eu tinha 13 anos. Eu fazia letra e música, tudo junto.

ZONA SUL – Então, depois disso, você mudou-se para Natal...
TICO – Minha intenção era estudar. Naquela época eu cantava músicas de Roberto Carlos, Jerry Adriani, muito iê-iê-iê... Eu chegava aos clubes e me oferecia para cantar. Além do repertório conhecido, eu incluía uma, duas músicas minhas também. Lembro de uma ocasião em que me apresentei, na Lagoa Manoel Felipe, em um programa produzido por Jota Belmont para a Rádio Cabugi, que era transmitido para todo o Rio Grande do Norte. Eu ia cantar duas músicas de minha autoria. Quando me fui acertar minha participação, Jota Belmont disse logo: “Titico? De jeito nenhum. Seu nome vai ser Luís Augusto!”. Eu até tinha esquecido que tinha usado esse nome também, durante algum tempo na vida. Mas cantei nesse programa e foi um barato. Naquela época era considerado original um cara cantar composições próprias.

ZONA SUL – E os estudos?
TICO – Fui estudar na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, que já funcionava lá no cruzamento das avenidas 15 e Salgado Filho. Era muito longe. Comecei a participar de festivais, a me envolver mais ainda com a música. Eu tinha até algumas composições com algum teor estético. Eu ouvia Edu Lobo cantando naqueles festivais e tentava fazer parecido, mas muitas das letras que escrevia, nem eu mesmo entendia o significado. Uma delas era assim: “Eu não sei o que devo fazer / Como posso explicar / Se eu devo dizer, se eu devo calar / Eu vou cantar, eu vou cantar sem protestar / A vida pra uns foi feita pra sofrer / É difícil às vezes conseguir viver / Mas pra outros a sala se clareia (eu via a sala assim, o sol entrar e botava na letra) / Sacudir o pano tirando a areia / Depois acabou canseira, acabou canseira / Olá, olé, olá, olé, olá, olé / Porém Deus sabe o que faz, sabe o que diz / Sabe que eu fiz sem maldade / Não querendo falar de igualdade / Não querendo dizer nem calar / Sabe da necessidade que eu tive para cantar”.

ZONA SUL – Você passou quanto tempo em Natal?
TICO – Fiquei dos 15 aos 19 anos. Nesse período conheci Lourdes Guilherme, professora de artes da ETFRN. Depois que ouviu algumas de minhas composições, se ofereceu para tentar conseguir uma bolsa na Escola de Música. E conseguiu. Como não tinha lugar para violão, passei a estudar contrabaixo. Que coisa horrível! Mas depois consegui transferência para Recife. Lá, fui estudar violão clássico. Fiz parte de um grupo ligado à Igreja católica quando fiz shows pelo Nordeste todo, tanto nas capitais como em alguns municípios do interior. Chamava-se conjunto Gen Cântico Novo. Pertencia ao chamado movimento Focolares. Eu tinha inventado uma história de um monstro, no violão. Imitações que faço no violão que me renderam muitos concertos pelo mundo afora. Eu induzo as pessoas a imaginarem. Vou contando a história e o público vai se envolvendo. Um cara vai à lua, volta num foguete. Tem Frankenstein atrás dele. Tem banda de música, tem escola de samba, tem soldado marchando.

ZONA SUL – Como foi o salto de Recife para a Itália?
TICO – Certo dia um pintor italiano foi expor em Recife. A exposição tinha 21 quadros. Olhei todos eles e propus ao artista para a gente fazer uma mistura de show com exposição. Falei que comporia uma música para cada quadro. Ele fotografaria cada uma das telas e projetaria na parede através de slides, enquanto eu cantava. Sugeri a ele que seria mais fácil para vender as obras. O italiano gostou da idéia e topou. Na mesma hora, um amigo meu que estava lá, me chamou, me trancou em um quartinho e disse que eu só sairia depois que compusesse todas as músicas. Isso foi por volta das 7 da noite. As 11 e pouco, eu tinha terminado todas as músicas. Poucos dias depois eu estava cantando na exposição. Foi um sucesso. O pintor disse que quando eu fosse à Itália o avisasse para fazermos o mesmo em Milão, Gênova e Turim. E assim aconteceu. Fui a Roma com 21 anos participar de um Congresso Internacional de Jovens. O programado era passar um mês. Comecei a tocar e a cantar e insistiram para eu permanecer mais tempo. Fiquei cinco meses. Gravei três compactos. Isso foi em 1972.

ZONA SUL – Esses discos foram gravados de forma independente?
TICO - Gravei por uma editora chamada Cittá Nuova. Eles até publicaram na revista que mantinham uma reportagem de várias páginas comigo, com direito a foto na capa e tudo o mais. O texto contava minha trajetória, desde o primeiro show em Grossos e o segundo, que foi um desastre: não tinha ninguém! Mas o primeiro compacto surgiu quando apareceu um produtor na minha casa dizendo que tinha ouvido falar que eu tinha umas músicas bonitas e que ele gostaria de escutá-las. Quando comecei a cantar, ele gostou logo de cara e passou a traduzir para o italiano. Foi assim que surgiu a oportunidade de gravar o primeiro compacto. Ainda nessa viagem fui ao encontro do pintor que tinha conhecido em Recife e fizemos vários concertos misturados com exposição. Depois voltei para Recife, estudei pra caramba, prestei vestibular para Letras, passei e entrei na universidade. Mas não terminei o curso. Tive uma grande decepção. O currículo era horrível, não tinha nada do que eu queria fazer. Minha intenção era estudar literatura para enriquecer o meu dom, o meu talento. Minha vontade de prosseguir no curso foi definhando, mas mesmo assim ainda agüentei dois anos. Foi quando surgiu a oportunidade de voltar para Roma. Voltei em agosto de 1974. Tranquei a matrícula na faculdade imaginando que passaria seis meses fora. Fiquei quase dez anos.

ZONA SUL – O que de mais expressivo aconteceu nesse período na Itália?
TICO – O principal foi conhecer Sara, minha esposa. Ela é paraguaia. Seus pais estavam trabalhando na Itália. Ela foi minha aluna de violão na Embaixada do Brasil, em Roma. Hoje é consultora da ONU. Foi a melhor aluna que tive. Até hoje lembra das harmonias que eu ensinava. Sara poderia ser qualquer coisa no meio artístico: dançarina, violonista, cantora... Ela tem um talento impressionante. Outra coisa importante foi eu ter me descoberto - sem querer, sem saber e sem pretender – como um showman. Não é fácil chegar, como cheguei, diante de 700 pessoas, por exemplo, só com o violão. O violão e um microfonezinho, na Alemanha, na Áustria, cantando a minha música em português. Naquela época quem era famoso era Vinicius de Moraes, Baden Powell, Tom Jobim e Dorival Caymmi, além de Chico, que estava começando. Pensei: desconhecido por desconhecido, vai Titico. Eu cantava minhas músicas e botava o pessoal pra cantar comigo. Era abusado. Essas experiências me deram muita cancha. Você deve encarar o público como uma pessoa. Recentemente cantei em um festival no Ibirapuera, em São Paulo, para 9 mil pessoas. Pra mim é como se estivesse cantando para apenas uma. Botei todo mundo pra cantar uma música que eu tinha feito uma semana antes. Há profissões em que você tem um abismo, sabe que está num abismo, mas tem que correr o risco. Quando você encara uma platéia, sabe que tem um abismo ali e que você pode se lascar, se dar mal, mas também pode se dar muito bem, porque você está no alto, você é líder, você tem carisma, você tem o momento, a graça. Não tenho muito medo desses abismos.

ZONA SUL – E com relação aos contatos importantes que manteve na Europa?
TICO – Um contato importantíssimo foi com a Lina Wertmuller. Ela é a Fellini feminina. É muito estimada nos Estados Unidos, chega a ser idolatrada. O fato de eu ter composto músicas com ela, de ter trabalhado com ela, me rendeu muita credibilidade nos Estados Unidos. Em determinada ocasião, surgiu a oportunidade de eu fazer, na Itália, a trilha sonora para um filme que ela dirigiria: Tieta do Agreste, com Sophia Loren e grande elenco. Eu também estava escalado para fazer uma cena, como ator, tocando uma música. O problema é que quem estava financiando era Roberto Calvi, do Banco Ambrosiano. Só que, antes dos contratos serem assinados, ele apareceu enforcado. E o filme foi para o espaço. Na mesma época, Sara, então minha noiva, tinha decidido fazer faculdade no Rio de Janeiro. Com o fracasso do filme, antecipei minha volta para o Brasil. Com residência fixa no Rio, passei a viajar pela Europa e pelos Estados Unidos, para fazer meus shows. Gravei um CD nos Estados Unidos, chamado Brasil Encanto. Mais ou menos nessa época foi que conheci uma figura que representou muito para minha carreira: Philip Glass.

ZONA SUL – O músico minimalista Philip Glass é considerado um pop star e autor de trilhas sonoras importantes na história do cinema. Como você o conheceu?
TICO - O conheci quando morava no Rio. Eu já tinha casado com Sara e já tínhamos nosso primeiro filho. Um dia, tocou o telefone: era um amigo meu chamado Bernardo Palombo, um argentino que eu tinha conhecido nessas minhas incursões pela Itália e Estados Unidos. Ele contou que estava com Philip Glass. Confesso que eu nem o conhecia. Bernardo falou que Philip gostaria de ir ao Brasil fazer anotações para o próximo filme que iria musicar: Pawaqatsi. Ele já tinha escrito Koyaanisqatsi. Apesar de eu não conhecê-lo, Philip já era muito famoso, conhecidíssimo. Bernardo disse que me indicou como cicerone deles, para viajar pelo Brasil e mostrar as músicas do país. Aceitei. Fomos ao Amazonas, viajamos pela floresta. Philip sempre fazendo anotações, bem calado. Nesta época, em 1984, eu tinha ojeriza ao inglês. Não falava nem good night, não gostava. Então eu me comunicava com Philip através do meu escasso francês. Na volta, no Rio, Philip Glass falou que Bernardo tinha lhe contado que eu tinha umas músicas muito bonitas. Ele pediu para escutá-las. Organizei um jantar na minha casa. Ele ouviu várias canções. Eu toquei Ana Bandolim. Philip escutou e ficou louco. “Você roubou essa canção de Rossini, seguramente”, disse ele brincando. “Não é possível que você tenha feito essa música”, insistiu. No meio da conversa perguntei a ele como um artista brasileiro poderia ficar famoso nos Estados Unidos. Ele disse: “tem que semear um ano e, no segundo ou no terceiro é que você começa a ver o resultado”. Eu pensei: “estou lascado, não tenho chance”. Philip insistiu: “você tem que ir no mínimo uma ou duas vezes por ano lá”. Terminou me convidando para ir aos Estados Unidos e ficar hospedado na sua casa. Pediu que eu telefonasse duas semanas depois. Nesse meio tempo, ele contataria uma amiga dele que conhecia todos os pubs. Ela iria me apresentar. Quinze dias depois, liguei. Philip disse que eu podia ir, mas que a amiga dele não poderia me atender porque tinha estourado no hit parade. Era Suzane Veja, que tinha estourado com a canção My name is Luka. Fui mesmo assim. Fiquei hospedado na casa de Philip. Faz 20 anos que eu vou aos Estados Unidos e sempre fico hospedado na casa dele.

ZONA SUL – Você chegou a morar nos Estados Unidos ou ficou sempre indo e vindo?
TICO – Teve ocasião de eu passar nove meses lá. Em outras vezes, passei cinco, seis, sete meses. Quando me perguntam se morei nos Estados Unidos, não é mentira eu dizer que morei, porque morei mesmo. Continuo indo constantemente lá.
ZONA SUL – E nos Estados Unidos o que teve de maior expressão na sua carreira?
TICO – Consegui uns trunfos únicos. Eu tenho um currículo muito estranho, que poucos artistas têm aqui. Fiz vários concertos por toda a Europa e outros tantos nos Estados Unidos. Recebi críticas favoráveis no New York Times (duas vezes) e em outros jornais norte-americanos. Cantei no Town Hall, abri show para João Bosco, me apresentei junto com Paquito d’Rivera (saxofone), Toninho Horta, John Patitucci (o maior baixista do mundo) e Peter Seeger, que nos Estados Unidos é muito famoso e muito apreciado. Peter Seeger não é só uma figura de banjo, do folclore; ele é o folk music lá. Foi ele quem lançou Guantanamera nos Estados Unidos. Também tem vários hits parades como Date me un Martelo, que Rita Pavone gravou. Mas Peter Seeger também é estimado por sua importância política, por ser uma figura contestatória. Quando os Estados Unidos estavam guerreando contra o Japão, por exemplo, ele casou com uma japonesa. Foi preso político, sempre foi comunista. Foi o precursor da ecologia. Peter Seeger começou a limpar o Rio Hudson, em Nova York, há mais de 40 anos, com um barco. Ele e Bob Dylan pedindo para ninguém jogar coisas no rio. Hoje você pode tomar banho no Rio Hudson, de limpo que é. Até hoje tem festivais de música no Rio Hudson, quando barcos ancoram com os artistas tocando e a cidade acompanhando, ouvindo música e as mensagens sobre a importância da preservação da natureza. Participei de vários deles.

ZONA SUL – Peter Seeger também foi importante para a sua carreira?
TICO – Imagine se Luiz Gonzaga, no auge de sua carreira, chamasse um africano, o colocasse no palco para cantar com ele. Se Luiz Gonzaga apresentasse esse desconhecido como um grande artista. Se cada um cantasse duas músicas de cada vez, se revezassem durante o show. Pois foi o que Peter Seeger fez comigo. Ele tocando banjo, cantando minhas músicas. Foi demais. Não existe isso! Mas aconteceu. Teve um show no Arizona, em Tucson, inesquecível. Fazia 25 anos que Peter Seeger não tocava lá. Os jornais passaram 15 dias noticiando o evento. Os mil ingressos oferecidos para o espetáculo no teatro esgotaram rapidamente. No palco Peter Seeger, eu e outro americano, um daqueles caras que participou do The Platters. Esqueci seu nome. Nós três em cima do palco. Eu lado a lado com aqueles dois monstros sagrados.

ZONA SUL – O que você está fazendo em Natal? Veio para morar?
TICO – Estou morando há dois anos na cidade. Depois de quatro anos em Recife, quase dez anos em Roma, sete anos no Rio e 12 anos no Paraguai. Depois que casei, quando morava no Rio, por causa da violência da cidade resolvemos ir para o Paraguai, onde os pais de Sara tinham voltado. Em 2001 fizemos uma viagem para procurar apartamento em Nova York, em julho. Depois voltei lá para gravar dois CDs que serão lançados ainda este ano: Lagartixa e Choro Suíte. Este último inclui somente chorinhos, é um disco instrumental. Quando estava gravando Lagartixa, no momento da gravação, as torres gêmeas caíram em Nova York. Eu estava num prédio em frente. Vou fazer uma comparação para você ter uma idéia: era como se eu estivesse na beira do Rio Potengi e as torres desabassem na Redinha. Eu estava no 22º andar. Tinha um rio no meio. Mas eu vi tudo. Engraçado é que eu tinha tocado meses antes no 105º andar do World Trade Center, tinha feito um show lá. Também já tinha me apresentado entre as torres, junto com Philip Glass. Dez dias antes das torres caírem, passei entre elas, bati em uma e disse “meu Deus do céu, isso jamais vai cair”.

ZONA SUL – Para quem saiu do Rio fugindo da violência encontrar uma coisa dessas deve ser assustador.
TICO – Já em julho, eu e Sara tínhamos farejado perigo ali. Durante a procura por apartamento chegamos à conclusão de que aquele não era um bom lugar para a nossa família. Não ia dar certo.
ZONA SUL – Quando as torres caíram, qual sua reação vendo aquilo tudo lá?
TICO – Claro que não vi quando o primeiro avião bateu. Mas todo mundo ficou perplexo, como eu. Até então não havia suspeita de atentado. Achávamos que era um incêndio, por causa daquele fogaréu e da fumaça preta. Imaginamos logo que os bombeiros não alcançariam os andares mais altos. Lembrei logo que dias antes eu tinha subido naqueles elevadores enormes. Meu produtor começou a ficar desesperado: “oh, my God!”, ele gritava. Peguei o telefone, liguei pra Sara, a gente morava então no Paraguai. Estava assombrada, pois tinha visto na TV. Disse que estava tudo bem comigo. Liguei para minha mãe, em Natal, também para tranqüilizá-la. Nisso, um amigo meu aqui de Natal, Leonardo Barata, deu meu telefone para a rádio e TV Cabugi e a TV Ponta Negra. Fui bombardeado por telefonemas da imprensa me pedindo para contar o que eu estava vendo. Quando eu estava falando com a minha mãe, a primeira torre caiu. Ficaram aquelas cinzas. Dez dias antes eu tinha batido na torre e, olhando entre elas, vi um beco. Imediatamente pensei no Beco da Galinha Morta, lá em Areia Branca. Um era igual ao outro, só era diferente a altura. Mas os dois eram becos. Além do desespero de ver aqueles prédios caindo, indescritível foi a tristeza que ficou pairando no ar por vários dias através daquela fumaça. Vários projetos de vida se transformaram em cinzas. A fumaça também tinha cinzas de pessoas. Eu só não sabia que até os meus CDs também estavam naquela fumaça. Philip Glass tinha escrito várias cartas, de próprio punho, para produtores. A Sony de Paris já tinha dado o OK para distribuir. Estávamos preparando os contratos. Mas o dono da Sony em Paris era um mulçumano. Logo que viu o que tinha acontecido, ele vendeu imediatamente sua parte na empresa. E nós ficamos vendo navios. Roberto Menescal, que também tinha recebido carta de Philip Glass e respondido com elogios ao meu CD, também não topou a parada sob a alegação de que depois do 11 de Setembro todos os negócios estavam parados.

ZONA SUL – Como foi sua participação no programa de entrevistas de Jô Soares?
TICO – Fui eu quem apresentou Philip Glass ao diretor de teatro Gerald Thomas, quando morava no Rio. Eles ficaram amigos. Philip até fez músicas para algumas peças de Thomas. Gerald foi quem sugeriu meu nome à equipe de Jô Soares. Eu morava no Paraguai. Pagaram passagens, e tudo, foi um barato. Cantei quatro músicas no Jô. Isso foi em 1996. Jô Soares embasbacou de rir com as canções. Minha carreira é mais internacional. Mas agora mesmo estou em estúdio gravando um CD em parceria com Diógenes da Cunha Lima, que contém canções minhas e letras dele. Tem um outro CD nosso também com canções sobre a festa de Natal. Também musiquei 70 poemas de um livro do jurista Ives Gandra Martins. O livro fala sobre o Rosário e as ladainhas, Nos tempos do Senhor. São sonetos lindíssimos. Já musiquei todos os sonetos, teve dia em que compus 14 músicas.

ZONA SUL – E a sua discografia? O que ela inclui?
TICO – Minha discografia enriqueceu muito depois que gravei nos Estados Unidos o meu primeiro CD: Brasil Encanto. Tenho certeza que vou dar um salto maior ainda a partir de setembro quando eu lançar nos Estados Unidos e na Europa os discos Lagartixa e Choro Suíte. Pretendo fazer muitos shows para divulgar os dois trabalhos. Mas até agora, ao todo são 16 discos gravados, incluindo elepês, compactos e CDs. Mais relevante do que gravar, é conseguir uma boa distribuição para seu trabalho. Não adianta gravar um CD como gravei esse aqui, Anjo da Selva, que ficou muito bonitinho e tudo, mas não tem força. Gravei em Natal, está super-bem feito, super-bem gravado, mas falta maior divulgação, uma melhor distribuição. Vou levá-lo para a Alemanha agora em agosto, mas ele chegará naquele país apenas através dos shows que farei por lá.