terça-feira, 27 de outubro de 2009

Entrevista: Geraldo Carvalho

A POESIA NA MÚSICA POTIGUAR BRASILEIRA

Como o personagem deste mês é um dos principais compositores da atual música potiguar, o time para entrevistá-lo teria que estar a altura da empreitada. Por isso, foi escalada uma
verdadeira seleção: além de mim, participaram da conversa os jornalistas Costa Júnior, Márcia Pinheiro e Nélson Oliveira, os fotógrafos Waldemir Rodrigues e Roque de Sá e o advogado Ronaldo Siqueira. Eu, Nélson, Roque e Waldemir confrontarmos o entrevistado aqui em Brasília. Geraldinho Carvalho passou uma temporada na capital federal lançando seu último CD e fazendo shows em diversos espaços da cidade. De Natal, acompanhando e participando da transmissão através do site www.myspace.com/robertohomem , Ronaldo, Márcia e Costa Júnior. Depois de mais de uma hora de conversa, o artista brindou a todos nós com um minishow. Infelizmente, o leitor do Zona Sul não poderá escutar as músicas. Mas o melhor da conversa está transcrito logo abaixo e também no http://www.zonasulnatal.blogspot.com/ , o endereço do jornal na rede mundial. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Vamos começar de uma forma bastante inusitada: como é seu nome, onde você nasceu e como foram seus primeiros anos de estadia aqui neste planeta terra?
GERALDO – Geraldo Carvalho de Oliveira Júnior. Nasci em Angicos, em 8 de janeiro de 1967. Aos três anos fui para Campina Grande, na Paraíba. Meu pai, ferroviário, foi transferido para lá. Por contingência do destino troquei o Sertão Central Cabugi pela Serra da Borborema. Em Campina Grande, eu escutava muito rádio. A vida era simples e lá em casa não tinha toca-discos, nem nada. Mas tinha um radinho maravilhoso que se conectava à Rádio Borborema. Através da emissora eu escutava Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Elino Julião (que é do Rio Grande do Norte), Marinês e Sua Gente, Zé Ramalho, Fagner, Genival Lacerda, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e toda essa gama de compositores e artistas que compõem a canção brasileira, a MPB. Quem viveu minha época teve uma sorte muito grande de ouvir música de qualidade no rádio. Hoje é muito difícil escutar, no Nordeste, coisas desse nível. O forró que tocava era de boa qualidade, a MPB também. Hoje não tem mais. Fico até preocupado com o futuro das pessoas que escutam o que se toca hoje no rádio. Principalmente me preocupo com Natal. Poucas rádios tocam música de qualidade.
ZONA SUL – Antes de chegar a Natal, vamos voltar um pouco ao território paraibano...
GERALDO – Claro. Campina Grande foi, para mim, o começo de tudo. Foi lá que aprendi a tocar violão. Minha mãe, que graças a Deus ainda está viva, cantarolava canções dela mesma e outras que faziam sucesso na época. Ela gostava de compor pra entreter os filhos. A gente dando trabalho e ela fazendo motes, criando canções e forjando possibilidades de entretenimento, através da canção. Isso foi muito importante pra minha vida. Mamãe até hoje é muito espirituosa, apesar da idade.
ZONA SUL – Como é o nome de sua mãe?
GERALDO – Joana Guedes. Ela era muito afinada. Meu pai também gostava muito de música. Nenhum dos dois tocava qualquer instrumento. Apesar disso, nós, todos os filhos, aprendemos a tocar violão e a cantar.
ZONA SUL – Qual repertório sua mãe costumava cantar pra você?
GERALDO – Deixa eu me lembrar de uma canção que ela cantava... “Índia seus cabelos nos ombros caídos / Negros como a noite que não tem luar”. Ela cantava várias outras.
ZONA SUL (Roberto) – Minha mãe, Iralde, também gostava de cantar essa.
GERALDO – Acho que todas as mães cantavam, essa é bem de mãe. (risos).
ZONA SUL – Mas, regressemos de novo a Paraíba...
GERALDO – É mesmo. Campina Grande é uma cidadã paraibana que tem uma peculiaridade: antes mesmo de Natal ou João Pessoa, lá foi instalada uma TV local. A TV Borborema já tinha telejornais locais em 1977 ou 1978. Lá eu estreei, ao cantar no programa do Palhaço Carrapeta. Eu tinha oito ou nove anos. O programa dava espaço a crianças que faziam mágica, dançavam, cantavam... Interpretei “Vida de Gado”, uma canção de Zé Ramalho. “Vocês que fazem parte dessa massa / Que passa nos projetos do futuro”. Depois fui convidado a cantar na rádio. Tornei-me um sucesso no colégio e no bairro onde morava: todos tinham me visto na televisão. Foi muito bacana. Essa experiência me ajudou a continuar, me impulsionou. Quando fui fazer minha segunda apresentação na TV, minha mãe pediu que eu cantasse “Índia”. Cantei e foi uma maravilha.
ZONA SUL – Como você aprendeu a tocar violão?
GERALDO – Meu irmão mais velho, Wallace Guedes Carvalho de Oliveira, aprendeu a tocar em Angicos, ainda adolescente. Ele toca até hoje, mas não seguiu a carreira de músico. Ele estudou na antiga ETFRN (Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte). Concluiu mineração e está morando em Corumbá, no Mato Grosso. Eu achava lindo ver Wallace tocar e cantar. Ele tinha uma pegada muito boa no violão. Ele e meu outro irmão, Francisco Guedes, que cantava, não queriam que eu aprendesse violão. A preocupação era com a questão do estudo. Tinham medo que o violão tirasse minha atenção dos livros. Eu sempre pedindo para eles me ensinarem um acorde. E eles negando. Mas não podiam impedir de eu vê-los tocar. Quando deixavam o violão de bobeira, eu ia lá e imitava o que tinha decorado vendo os dois tocarem. Isso aos nove anos. Quando voltavam do trabalho eu tava lá, tocando uma canção. Perguntavam como eu tinha aprendido. Eu explicava que tinha sido olhando.
ZONA SUL – O temor deles era justificado? Você estudou ou o violão desviou sua atenção?
GERALDO – Estudei. Fiz o segundo grau. Depois fiz uns cursos de teoria e solfejo na Escola de Música da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).
ZONA SUL – Você foi para Natal com qual idade?
GERALDO – Saí de Angicos aos três anos de idade e fui para Campina Grande. De lá fui para Natal aos 11 ou 12 anos.
ZONA SUL – Qual o motivo da mudança para Natal?
GERALDO – A primeira mudança, como falei, foi porque papai trabalhava na Rede Ferroviária Federal e foi transferido para Campina Grande. Quando se aposentou, quis voltar para o Rio Grande do Norte e optou por Natal.
ZONA SUL – Você também estudou na EFRN?
GERALDO – Três irmãos estudaram lá. Wallace fez mineração, William Guedes fez mecânica e está na Petrobras e Pedro Roberto fez edificações e trabalha com construção civil. William Guedes, apesar de não ter seguido a carreira de músico, é um grande compositor. Tem uma música no meu CD que é dele e de Franklin Mário. Uma das poucas que não é minha. Chama-se “Preso no aquário”.
ZONA SUL – Quando você entrou na Escola de Música já sabia que a arte seria o seu caminho?
GERALDO – Já, nessa época sim. Eu tinha 19 anos. Aos 18 experimentei uma grande dúvida se era isso mesmo o que eu queria. Foi quando conheci Barrosinho, trompetista da Banda Black Rio. Ele tocou com Caetano Veloso e até com Roberto Carlos. Infelizmente já está em outra dimensão. Tive o prazer de conhecê-lo na casa de Lucinha Madana Mohana, a Lucinha Morena. Aos 18 anos cheguei na casa de Lucinha pra encontrar com Barrosinho. Eu era menino, ele era um um senhor de idade, um músico consagrado inclusive no Festival de Montreux e tudo o mais. Eu, terminando o segundo grau, estava com a camisa do Salesiano. Na porta da casa de Lucinha, senti uma coisa estranha, descendo lá de cima. “É isso que você quer mesmo?”. A pergunta e ecoou nos meus ouvidos durante um minuto. Esse tempo valeu por uma eternidade. Mas eu respondi àquela pergunta: “é”. Era o que eu queria mesmo. Barrosinho ia fazer um show no teatro do Centro de Convenções. Eu tinha ficado de conseguir um violonista pra tocar com ele. Como não tinha arrumado ninguém, ele perguntou se eu topava acompanhá-lo. Naquela idade, eu tinha estudado harmonia com Manoca Barreto, mas nem pensava em ter a ousadia de acompanhar Barrosinho e seu trompete. Mas quando ele fez a pergunta, respondi. “Eu?... Topo”. Só disse isso porque eu tinha tomado a decisão, antes de entrar na casa, de abraçar a música. Toquei com ele e foi o maior sucesso. Rendeu minha primeira aparição em jornal. Ensaiamos um pouco, mas a maior parte da apresentação foi de improviso mesmo. Também cantei algumas canções, a pedido dele.
ZONA SUL – Composições suas?
GERALDO – Não, ainda não. Eu estava começando a escrever algumas coisas, mas ainda não havia ousado mostrar.
ZONA SUL – Como você começou a compor? O que lhe inspirou primeiro?
GERALDO – Foi conhecer a poesia dos artistas potiguares, incentivado por Jota Medeiros, Falves Silva e Chico Ivan, que é doutor em semiótica e professor de letras da Universidade. Essa galera me impulsionou a, digamos, musicar. Eles me apresentaram a Haroldo de Campos quando o poeta esteve em Natal. Eu, ainda garoto, na faixa dos 18 anos, andava com eles. Haroldo de Campos jantando, e eu ali de lado, dividindo a mesa com ele e outros seus amigos. Haroldo foi uma figura maravilhosa. Criou a poesia concreta junto com seu irmão Augusto de Campos e com Décio Pignatari. Musiquei dois poemas dele. No primeiro CD gravei “Ma non dove”, música feita em parceria com Jota Medeiros a partir de fragmento de “Galáxias”, de Haroldo. No segundo gravei outra canção feita a partir de poesia dele: “Toura”
ZONA SUL – Fale um pouco sobre Haroldo de Campos.
GERALDO – Era uma pessoa supersimples, elegante e que falava correto demais. Não vacilava nas palavras. Haroldo não tinha sotaque nenhum. Apenas falava correto. Você não percebia nenhum sotaque quando ele falava. Quando liguei pra falar com ele da canção que eu pretendia gravar no CD “Manhecença”, falei: “Haroldo, através de Chico Ivan e Jota Medeiros lhe conheci em Natal. Quero mostrar uma canção que fiz em cima de um poema seu, e que pretendo incluir no meu CD. Mas pra isso você tem que autorizar, pois a letra é sua”. Caetano Veloso tinha musicado “Circulado de Fulô”. Que ousadia a minha! Mas eu precisava fazer isso. Jota Medeiros, o parceiro na melodia, foi quem me apresentou o poema. Haroldo me deu seu endereço e enviei a canção para ele ouvir lá na Vila Madalena. Depois eu telefonei. Ele disse que tinha achado a música fantástica e que eu podia gravar. Ele já estava de cadeira de rodas, doente, mas enviou a autorização pelo correio.
ZONA SUL – Satisfeita a curiosidade sobre Haroldo de Campos, voltemos ao Geraldo compositor.
GERALDO – Como ia dizendo, comecei a compor por conta dessa galera: Jota, Falves... Eles me apresentaram os potiguares Jorge Fernandes, Ferreira Itajubá... Jorge Fernandes, o futurista, atuou na Semana de Arte Moderna de 1922 e é considerado um dos precursores da poesia moderna no Brasil. Ferreira Itajubá viveu antes, nasceu por volta de 1875. Sua poesia também é muito bonita. Como a de Zila Mamede, que é de 1928. O poema “Manhecença”, de Jorge Fernandes, deu nome ao meu primeiro CD. Ele foi publicado no “Livro de Poemas”, de 1927. Quando Jota Medeiros me mostrou o livro, de cara achei “Manhecença” fantástico. É uma fotografia do Nordeste brasileiro, do amanhecer do Nordeste brasileiro. “O dia nasce grunhindo pelos bicos dos urumarais... / Dos azulões... Da asa branca...”. Se tivesse um violão aqui, eu ia cantar.
ZONA SUL – Tem. Não se avexe não. Vamos completar a entrevista e logo em seguida você canta.
GERALDO – Ótimo. Então, resumindo, comecei a compor quando fui apresentado aos poetas e comecei a ver música nas poesias. Iniciei musicando os poetas potiguares, como o próprio Jota Medeiros e Chico Ivan. Por isso comecei a compor. Depois comecei a escrever também. Agora as coisas estão entrelaçadas: música, poesia, letra e tal.
ZONA SUL – Como você sobrevivia no início e como imaginava que seria o futuro?
GERALDO – Essa pergunta é fogo. Posso tomar mais um pouco de vinho? (risos). O primeiro cachê que ganhei foi na época do episódio que contei envolvendo Barrosinho e Lucinha Moreno. Nunca tinha pensado que ganharia dinheiro com música. Até o dia em que fui convidado para fazer uma apresentação remunerada no SESC. Foi a coisa mais fantástica do mundo. O cachê era como se fosse hoje 150 reais.
ZONA SUL – Você já tinha trabalhado em outro tipo de atividade?
GERALDO – Aos 17 anos, fui cobrador de uma loja de tecidos. Também trabalhei na Garavelo. Fui vice-campeão de venda de consórcio com 18 anos. Depois, só atividades relacionadas à música. Trabalhei, por exemplo, 10 anos no manicômio judiciário, em Natal, fazendo terapia musical. No manicômio, lá no Centro de Atenção Psicosocial (Caps), eu fazia terapia musical, organizava um coral e botava a galera que tinha transtorno mental ou dependência química para cantar.
ZONA SUL – Hoje você se considera mais intérprete ou compositor?
GERALDO – Estou me achando mais compositor, porém continuo procurando aperfeiçoar o canto. Quero compor mais, criar mais e fazer mais canções. Mas também quero sempre cantar.
ZONA SUL – Antes de começar a gravar você trabalhou em barzinhos?
GERALDO – Trabalhei em bar, na noite de Natal, durante uns 13 a 15 anos. Toquei em vários locais. Com Cida Lobo e Valéria Oliveira, por exemplo, toquei no Viver. Fiz outros lugares, como Coconut e Cocobeach.
ZONA SUL – Como é, para o artista, trabalhar em barzinho?
GERALDO – É uma experiência boa. Foi na noite de Natal que aprendi a lidar com o palco, com o público. Hoje em dia, a noite de Natal está um pouco diferente. Antes tocávamos eu, Cida, Valéria, Manasses, Sueldo...
ZONA SUL – Nomes da elite da música potiguar...
GERALDO - Hoje não é mais assim.
ZONA SUL – Talvez seja porque os que estão tocando hoje ainda vão criar nome e conquistar seu espaço na música potiguar.
GERALDO – Pode ser. Mas é bom explicar que eu e os artistas que citei nos afastamos por alguns motivos. Primeiro pelo cachê. Depois pelo tempo de apresentação que tínhamos que cumprir. Tem outros detalhes que eu não gostaria de falar. Quando gravei meu primeiro CD, em 2000, decidi sair da noite. Não estava valendo a pena. Às vezes cantava três, quatro horas e não se prestava muita atenção. Mas há pouco tempo ocorreu um negócio interessante: fui convidado para fazer um trabalho no Natal Shopping. Pagaram o cachê que eu pedi e para tocar um tempo legal: duas horas, no máximo.
ZONA SUL – Shopping deve ser pior do que bar, no que diz respeito ao público prestar atenção. GERALDO – Eu pensava assim, mas resolvi encarar. Fiz minha divulgação, eles fizeram a deles. O resultado foi bacana. Pediram para eu fazer quatro noites, contrapropus duas, para ver como ficava. Levei CDs pra vender. A plateia pedia músicas minhas e de potiguares como Babal, Galvão... Foi quando vi que Natal pode mudar, pode valorizar o artista potiguar. Senti mais esperança na música feita no Rio Grande do Norte. Quando eu tocava em bar, a galera gritava “toca aquela”, pedindo canções geralmente de artistas que faziam sucesso no sul do país. No shopping chegavam bilhetinhos pedindo minhas músicas e de outros artistas de Natal.
ZONA SUL – O bar parece ser muito mais um local que se aproxima da arte do que o shopping center, que é voltado para o consumo.
GERALDO – Por isso me surpreendi e topei fazer mais dois sábados. Eu não esperava, mas alguma coisa me dizia: “vá lá”. Quem tocou comigo foi o Wagner Tsé, percussionista maravilhoso do Rio Grande do Norte. Conseguimos fazer uma coisa legal. O objetivo era interagir, e não tocar como radiola de fichas. O bar aproxima mais da cultura e o shopping é mais consumista. Mas foi uma coisa totalmente atípica. A gente trava uma luta grande para fazer com que a música potiguar aconteça. Se você prestar atenção, o Maranhão tem a “Marrom” Alcione, tem Zeca Baleiro e tal. Torquato Neto é do Piauí. O Ceará tem Fagner, Belchior e Ednardo. Pula o Rio Grande do Norte. Na Paraíba tem Zé Ramalho, Elba Ramalho, Chico César, Sivuca... Pernambuco, nem se fala: Lenine, Geraldo Azevedo, Alceu Valença... Até Alagoas tem Djavan.
ZONA SUL – Se você olhar a coleção de entrevistas do Zona Sul constatará que essa mesma observação que você está fazendo foi feita pelo menos uma dúzia de vezes. O Rio Grande do Norte exportou Gilliard...
GERALDO – Gilliard teve uma grande oportunidade de engrandecer Natal. E não fez. É ação e reação: quando você não faz a sua parte, não valoriza o lugar de onde você é, termina tendo um baque. Ele teve em todos os programas de televisão e Natal ficava na incógnita.
ZONA SUL – Tem também a questão da própria qualidade da música. Não dá para comparar, por exemplo, Fagner e Gilliard. Por outro lado, o Rio Grande do Norte tem artistas do mesmo quilate dos que fazem ou fizeram sucesso na MPB. Se, por exemplo, Pedrinho Mendes, Babal ou Mirabô tivessem a oportunidade que Gilliard teve, a história seria diferente.
GERALDO – Sem dúvida. É muita gente boa. Como isso pode acontecer? Não dá pra explicar direito. Acho que entra a questão da política cultural. Existe um entravamento, o que eu poderia dizer...
ZONA SUL – Enquanto você pensa na conclusão da sua resposta, no www.myspace.com/robertohomem estão citando grandes nomes da música potiguar como Terezinha de Jesus e Tico da Costa. Também estão sendo lembrados Papel Gomes, Carlos Alexandre e Paulinho de Macau.
GERALDO – Carlos Alexandre morou na Cidade da Esperança. O nome dele era Pedro. Paulinho de Macau cantou na Xuxa. Elino Julião foi referência maior: começou com Jackson do Pandeiro. Hianto de Almeida foi um dos precursores da Bossa Nova. Leno, meu amigo, fez uma importante dupla com Lílian. Hoje está morando em Natal.
ZONA SULDudé Viana e Carlinhos Zens acabaram de entrar na lista dos internautas.
GERALDO – Que coisa boa! A galera conhece os nossos grandes compositores. Natal tem um potencial muito grande, resta a mídia e a política cultural fazerem alguma coisa para colocar esses artistas em evidência. Um povo sem cultura é um povo sem identidade.
ZONA SUL – Quando Fagner conseguiu uma vaga na CBS, gravou todos os seus amigos cearenses. Geraldo Azevedo e Alceu Valença começaram a carreira gravando um elepê juntos. Zé Ramalho, Elba Ramalho e Cátia de França gravaram discos uns ajudando os outros. Falta união entre os músicos potiguares?
GERALDO – Isso existiu no passado. A consciência que a gente tem hoje – eu, Krystal, Valéria e Babal, por exemplo – é outra totalmente diferente. Agora a coisa vai acontecer porque a gente ta empenhado. Independente de ser um ou outro, o importante é que a música potiguar aconteça. Roberta Sá é uma grande representante da música potiguar, apesar de ter morado no Rio de Janeiro desde a infância. Mas é potiguar e é muito boa. A música potiguar vai ter que acontecer porque a gente está trabalhando nesse sentido.
ZONA SUL – Outros talentos da música potiguar citados foram Núbia Lafayete, Trio Irakitan e Ademilde Fonseca.
GERALDO – Grande Núbia, lá de Assu. Ademilde foi “crooner” do América. Tem também Ivanildo, o Sax de Ouro. Tem muita gente. Falta incentivo da política cultural para que os artistas locais apareçam na mídia local, primeiro, pra depois na nacional. Chico Science aconteceu no Recife. Lenine também aconteceu primeiro lá, para conquistar o Brasil. Vale destacar que Natal participou ativamente da arte/correio, da arte/postal e da arte/marginal, nos anos 60. A censura proibia qualquer manifestação cultural que pudesse revelar sacanagem. Natal, como o Rio de Janeiro e Recife, fazia isso através de cartas. Os envelopes já eram arte. Jota Medeiros é o grande ícone da arte/marginal no Brasil. Estou vendo um livro de Jota Medeiros ali naquela estante: “Antilogia poética”.
ZONA SUL – Você está com a visão em dia! Fale um pouco sobre o processo de gravação dos seus dois CDs.
GERALDO – Fiz o primeiro através de uma captação na Lei de Incentivo, que ainda era a Lei Mineiro. Quando tinha captado metade dos recursos, a lei acabou. Batalhei o restante da grana e conclui “Manhecença”. Gravei no estúdio “Nas Dunas”, que era de Fernando Suassuna e de Edu Gomes, que tocavam no “Mad Dogs”. Consegui com muita batalha e muita luta. Foi a concretização de um sonho grande, pois eu precisava descarregar o repertório que tinha na manga. O disco foi muito elogiado pela imprensa. Deu respaldo para eu fazer o segundo CD: “Um toque a mais”.
ZONA SUL – Do ponto de vista musical e poético, como você compararia seus dois CDs?
GERALDO – O primeiro é mais poético, inclusive porque eu musiquei Jorge Fernandes, Ferreira Itajubá, Haroldo de Campos e Jarbas Martins, um poeta da minha cidade. O segundo, creio, está um pouco mais pop, porém sem perder a qualidade da poesia. Está um acústico pop. passando pelo reggae, pelo jazz, pelo funk, pelo maracatu, pelo frevo e pelo blues. Acho que consegui, de certa forma, dar uma linhagem ao repertório, uma uniformidade do começo ao fim do CD. O segundo está mais cosmopolita. Acho que consegui chegar mais perto do que eu queria.
ZONA SUL – Comercialmente falando, como foi o resultado do primeiro CD e como estão as vendas do segundo?
GERALDO – Do primeiro foram vendidas três mil cópias. Hoje em dia não se ganha dinheiro com CD, a verdade é essa. Dá pra fazer um almoço, tomar uma cerveja, pagar um estúdio pra ensaiar... Felizmente, como diz a canção de Wally Salomão e Jards Macalé, “eu não preciso de muito dinheiro, graças a Deus”.
ZONA SUL – Você fez muitas viagens e shows fora de Natal?
GERALDO – Lancei o primeiro CD em várias cidades nordestinas. Estive em Teresina, João Pessoa e Fortaleza, por exemplo. Também mandei esse primeiro trabalho para a Itália, Suíça e Espanha. Aqui em Brasília algumas canções tocavam na Nacional FM. O CD também foi para São Paulo e para o Rio. Fiz o que pude para divulgá-lo. A questão da produção é muito complicada. Encontrar produtor é uma questão de sorte. Achar alguém que seja, digamos assim, um cúmplice na questão musical, na confiança e no gosto pelo seu trabalho, é como procurar agulha em palheiro. Vivo pedindo pra que caia alguém perto de mim que me ajude, que faça isso. Enquanto isso não acontece, eu mesmo vou tocando. Lógico que quando faço um show tenho um apoio básico. Nesses casos contrato um produtor provisório pra me ajudar.
ZONA SUL – Como você definiria o som que você faz?
GERALDO - Minha música vai se formando a partir de detalhes da world music. Ela é mais universal. Ainda não sei bem o que é, só sei que é música potiguar brasileira.
ZONA SUL – Você tem planos para gravar um DVD?
GERALDO – Tenho, mas só gravo se for bem feito, se tiver dinheiro pra fazer. Se não for assim, não faço.
ZONA SUL – Você participou várias vezes do “Projeto Seis e Meia”. Quais e como foram essas experiências?
GERALDO – Primeiro foi em 1995, quando abri o show de Luiz Melodia. Senti uma ansiedade grande. A banda que me acompanhou tinha, entre outros, Eduardo Taufic (teclado), Zé Fontes (baixo), Edinho (guitarra), Neemias (sax), Jailton e Jorge Negão (percussão) e Paulo Rosback (bateria), que está morando em Brasília. Levei nove músicos pra poder abrir o show de Luiz Melodia.
ZONA SUL – Luiz Melodia deve ter feito um show só com voz e violão...
GERALDO – É verdade. O show era ele e Renato Piau. (risos). Mas nossa apresentação foi uma beleza. Depois Melodia veio falar comigo, elogiar. Disse que tinha assistido da coxia. Em 1997 fiz com Jair Rodrigues. Também abri a apresentação de Orlando Moraes, artista que me surpreendeu pela gentileza e pela pessoa que é. Ele é o marido de Glória Pires. Em 2003 fiz com Belchior. Junto com Romildo Soaress e outra galera, fiz com Simoninha. No início do ano abri a temporada do “Seis e Meia” em 2009 junto com a Joanna.
ZONA SUL – Por falar em Jair Rodrigues, no dia 25 de novembro Nélson Oliveira, que está participando dessa entrevista, faz um show no Auditório do Interlegis, do Senado, dedicado aos 50 anos de carreira de Jair. A apresentação será transmitida ao vivo pela Internet no site http://www.interlegis.gov.br/
GERALDO – Coisa boa! Tive o prazer de conhecer o Jair Rodrigues e fazer um som com ele.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre sua passagem aqui por Brasília.
GERALDO – Em Natal, conheci muita gente boa de Brasília. Entre eles o Mário Nóia, músico que trabalha no DNIT, uma pessoa maravilhosa que me deu muita confiança. Coloquei na mente que vinha pra cá. E a coisa aconteceu, estou aqui. Brasília me transmitiu uma energia muito forte. Desde menino eu lia esoterismo, e Brasília tem essas coisas esotéricas. Com 12 ou 13 anos, eu já procurava os livros de Lobsang Rampa e Carlos Castañeda, e coisas assim. Menino eu lia numerologia, astrologia e espiritismo.
ZONA SUL – Você veio para Brasília a trabalho ou para conhecer a cidade?
GERALDO – Vim divulgar o meu trabalho. Os poucos CDs que trouxe, uns cem, estão acabando. Cheguei aqui sem saber onde ia me apresentar. E consegui agendar apresentações em vários locais.
ZONA SUL – Brasília já inspirou alguma canção?
GERALDO – Já, “Chão de Brasília”. Djavan fez “Céu de Brasília”, agora eu compus o “Chão”.
ZONA SUL – E os planos pro futuro?
GERALDO – Planejo continuar viajando e divulgando o meu trabalho e o dos outros artistas de Natal. Somente através da divulgação a música potiguar terá seu valor reconhecido. Essa falta de conhecimento não ocorre por culpa das pessoas. O problema, repito, é a política cultural que não incentiva. Chegou a hora de mudar essa situação. E isso não é só na música, mas nas artes plásticas, na literatura, no teatro, na dança... Acredito que logo logo a cultura potiguar conquistará o espaço necessário para mostrar o seu valor.
ZONA SUL – O que você sentiu falta de ser perguntado?
GERALDO – As perguntas foram bem abrangentes, todos os entrevistadores se mostraram bem antenados, acho que é isso mesmo. Só faltou perguntar o dia em que vou embora de Brasília.
ZONA SUL – Isso aí quem tem que perguntar é a pessoa que está lhe hospedando. (risos).

5 comentários:

  1. Legal a entrevista deste cantor potiguar e talentoso, como pude comprovar no dia 13 de janeiro 2011 no Restaurantes Veleiros

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  2. Geraldo Carvalho é tudo de bom. Faz parte da seleção atual da música popular do Rio Grande do Norte. Assisti seu show no Feitiço Mineiro, em Brasília. É craque. Merece a camisa 10.

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  3. Artista muito competente e grande conhecedor da MPB, com composições próprias de qualidade. Tive a oportunidade de assistir sua apresentação no Espaço Eco (Pirenópolis-GO), em julho de 2011.

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  4. gostei da int. mas achei um pouco cruel com o cantor Gilliard que veio de baixo, com problemas familiar vcs devem saber melhor que eu... e mesmo assim foi premiado em concurso fora do estado ( o mais incrível) e é contratado por programa era apenas uma criança com uma obrigação de uma vez por semana gravar um programa.... o cantor que fez e faz sucesso em vários estados e ate fora do Brasil (sucesso com a proporção da época) e o que eu acho o mas legal em todos os programas que ele participou ou ele ou o apresentador fala de Natal, Ponta Negra, etc vc não ver outros cantores ficarem fazendo isso. ele ajudou a nossa cidade Natal ser bem divulgada no Brasil e no mundo.

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  5. Gilliard tem seus méritos. Com esforço e determinação, ele conquistou significativo espaço na música brasileira da época. Porém, seu trabalho não tinha qualidade comparável a de outros nordestinos como Fagner, Zé Ramalho, Belchior e Alceu Valença, entre tantos. Potiguares como Babal, Mirabô e Pedro Mendes - se tivessem a mídia que Gilliard teve - poderiam ter alçado um voo mais expressivo.

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