sexta-feira, 20 de abril de 2012

Entrevista: Marco Antônio Gonçalves


UMA VIDA POR TRÁS DAS LENTES 


Durante quase uma hora e meia, Marco Antônio Gonçalves desfiou detalhes da sua vida. Sobretudo, ele falou da sua experiência de onze anos como cinegrafista da Rede Globo. Nesse período todo, o trabalho na principal emissora do país rendeu momentos marcantes, como a exclusiva cobertura do desastre aéreo ocorrido em Brasília com um avião da Vasp, no início dos anos 1980. Marco Antônio também falou de sua infância e adolescência transcorridas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília. Com orgulho, lembrou das parcerias teatrais que estabeleceu com uma Françoise Fourton em início de carreira. Enquanto eu capturava cada palavra de Marco Antônio, o fotógrafo pernambucano João Batista Azevedo, o Jotabê, não deixava escapar os gestos do entrevistado. O resultado você confere a partir de agora. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Onde você nasceu?
MARCO – Em Belo Horizonte, mas logo aos cinco anos fui morar no Rio. Meu pai era mineiro e minha mãe era carioca. Não guardo na memória muitos registros do período em que passei na capital de Minas Gerais. Meu pai, Dilo Guilherme Gonçalves, foi representante de laboratório farmacêutico. Minha mãe, Hercy Ribeiro Gonçalves, se formou na Escola de Enfermagem Anna Nery, no Rio de Janeiro. Os dois já faleceram. Minha mãe trocou o Rio por Brasília para trabalhar no Hospital de Base. Já em Brasília, ela foi designada pelo hospital para atender uma solicitação da Presidência da República: aplicar uma injeção no então presidente, Castelo Branco, no Palácio da Alvorada. Minha mãe foi e, logo em seguida, a convocaram para ficar como enfermeira à disposição do Palácio do Planalto.
ZONA SUL – Você tem irmãos?
MARCO – Sou o mais novo de sete filhos. Gilberto é aposentado da Caixa Econômica Federal. Emílio também é bancário aposentado. Márcio, que já morreu, era advogado. Glória era dona de casa. Ela também já faleceu. Paulo, também falecido, era bancário. Geraldo está aposentado. Trabalhou como representante de vendas.
ZONA SUL – O que você lembra do período de cinco anos no qual morou em Belo Horizonte?
MARCO – Só de algumas brincadeiras de infância, como participar de guerras de mamona. Hoje em dia usam a mamona até para fazer combustível, mas, naquela época, ela só servia para jogar nos outros. E era um barato.
ZONA SUL – Você lembra de ter sentido algum impacto em trocar Belo Horizonte pelo Rio?
MARCO – Não, excetuando a praia, que era uma coisa diferente. Do mar guardo lembranças desde o início. Recordo, por exemplo, que a gente trocava de roupa na própria areia, na hora de voltar para casa. Os adultos construíam uma barreira com toalhas e a gente ficava pelado para poder vestir o short e pegar o ônibus. Era chato ficar peladão na praia, era meio complicado. Tenho muitas dessas lembranças diferentes.
ZONA SUL – No Rio, onde você morava?
MARCO – No subúrbio do Encantado. Zico é do Quintino, que é praticamente colado. O bairro não é muito longe do centro. A gente pegava aquele trem que chamavam “parador” porque ele parava de estação em estação. Naquela época não tinha esse negócio de trem de luxo ou metrô. Nesse “parador”, as portas e janelas ficavam abertas. Ia gente pendurada em tudo que é lugar. Eu costumava descer e subir quando o trem estava em movimento.
ZONA SUL – E os estudos?
MARCO – Estudei em colégio de freiras, o Nossa Senhora da Piedade, lá no Encantado. É um colégio bem tradicional. Às vezes, no meio de uma aula, a gente ouvia o som de um piano, ao fundo. Era um negócio bem bucólico. O colégio era bem grande: ainda lembro aquelas freiras andando pelos corredores, parecidas com urubus, usando aquelas roupas, aqueles hábitos. Era um negócio diferente.
ZONA SUL – Estudante costuma se apaixonar pela professora. Você se apaixonou por alguma das freiras do colégio?
MARCO – Não. Como o colégio era misto, senti aquelas paixões tímidas por outras alunas. Aquela era uma outra época, a gente costumava ficar só nos olhares. Naquele tempo não existia a maldade que tem hoje. Aquela sensação de inocência era muito gostosa. As professoras eram freiras e havia muita cobrança no que diz respeito à disciplina e à moral. Não tinha a mínima condição de alguém se apaixonar por uma freira. Diferente de hoje – quando se escuta até “rap e funk” nas escolas – no meu tempo a gente era obrigado a cantar o Hino Nacional antes do início das aulas. Hoje em dia o negócio é mais bagunçado.
ZONA SUL – Estudar em colégio de freiras o transformou em um homem religioso?
MARCO – Pode até não ter transformado, mas a parte metódica da educação eu absorvi. Foi bom porque essa formação valeu para a minha vida toda. De lá fui para o Colégio São Judas Tadeu, também no Encantado. Nessa época minha mãe já havia se mudado para Brasília e eu morava com a minha avó.
ZONA SUL – E o seu pai?
MARCO – Praticamente não tive relacionamento com o meu pai. Pouco depois que nasci ele ficou doente do pulmão, contraiu tuberculose, e foi internado. Quem pegava essa doença era obrigado a se internar em um sanatório. O remédio era uma mudança de ares, para um município de serra. Meu pai se internou em Petrópolis. A tuberculose parecia estar ligada ao romantismo e a extravagâncias como fumar exageradamente. Era comum entre cantores e poetas. Parece que alguns até procuravam essa doença. Meu pai deu bobeira e ficou tuberculoso. Por isso não tive muito contato com ele.
ZONA SUL – Depois que ele foi internado em Petrópolis você não o viu mais?
MARCO – Praticamente não. Lembro de tê-lo visto umas duas vezes. Por esse motivo não pude vivenciar uma relação entre pai e filho. Minha mãe ia sempre visitá-lo, mas como era uma doença contagiosa, não nos levava. Quando meu pai morreu, nem pude experimentar o sentimento de luto, pois, além do pouco contato, eu também era muito novo: tinha uns dez anos.
ZONA SUL – O que mais você contaria para encerrar esse seu ciclo no Rio de Janeiro?
MARCO – Ao sair do Rio, abdiquei do futebol (que eu gostava de acompanhar pelo rádio) e das peladas (que eu costumava assistir). O interessante é que, mesmo gostando de ouvir as partidas, nunca escolhi um time para torcer. Da mesma forma, também não participava das peladas: eu curtia ficar vendo, do lado de fora da quadra de futebol de salão. A primeira vez que tentei jogar, quebrei a perna. Aí, desisti. Em termos de exercício físico, o que eu fiz mesmo foi andar de bicicleta. Como morava em  um prédio de cinco andares, no Encantado, e não tinha elevador, era obrigado a pegar aquela bicicleta e levá-la nas costas todos esses lances de escada. Era um exercício obrigatório. O pior é que eram aquelas bicicletas de pneu balão, bem mais pesadas, que na época eram as mais modernas. Não tinha também esse negócio de marcha, a gente pedalava no dedão mesmo.
ZONA SUL – No Rio você frequentava qual praia?
MARCO – Como eu era menino, tinha que frequentar uma praia mais tranquila e perto de casa. Então minha avó me levava para a Praia Vermelha, no bairro da Urca. Era uma praia mais mansa, não tinha aquelas ondas pesadas.
ZONA SUL – Como se deu a mudança do Rio para Brasília?
MARCO – Eu já estava praticamente indo e vindo, pois minha mãe já morava em Brasília. Então, na Revolução de 1964, mudei de vez. Todo mundo estava indo morar em Brasília, já que a cidade representava a esperança de um novo tempo. Vim de ônibus. Foi a partir daí que tudo aconteceu: a juventude, os 15 anos, o colégio... Tudo muito diferente dos outros lugares. Naquela época não tinha violência, as amizades eram melhores e o trânsito quase não existia.
ZONA SUL – Brasília era uma criança, ainda...
MARCO – Exatamente, tinha apenas quatro anos. A gente sequer ouvia falar nesse negócio tão difundido hoje, que é a corrupção. Eram poucos os casos. Até o Congresso Nacional tinha um ônibus que pegava na escola os alunos filhos de deputados e de outras pessoas, e levava para casa. Era tudo muito calmo, não tinha briga de colégios, de gangues, nada disso. Havia rivalidades, mas o pessoal gostava apenas era de bandalhar. Não tinha esse negócio de turma A enfrentar a turma B. Existiam as brincadeiras praticadas contra determinados segmentos, especialmente os gays e os recos, que eram os soldados novatos. Mas não era nada de espancar ou tocar fogo: no máximo a gente jogava ovos. Não passava disso. Os recos que ficavam passeando, de bobeira, querendo namorar as empregadinhas domésticas, eram alvos fáceis. Mas era só sacanagem mesmo.
ZONA SUL – E os seus primeiros namoros?
MARCO – Ninguém se importava em ter namoro sério. A gente era como os recos, também gostava de arrumar confusão com as empregadas domésticas. Tudo era bandalhação. Quando pegava uma menina de 12 anos, era namoro família, comportado. Ninguém entrava numas de sacanagem, era um negócio mais puro. A confusão toda era com as empregadas domésticas. Elas também gostavam, pois os garotões - para elas - representavam divertimento. Outra característica daquela Brasília dos primeiros anos é que a cidade não tinha sinal de trânsito, não tinha pardal, não tinha nada. Isso contribuiu para o surgimento de vários pilotos de automobilismo como Nélson Piquet e Roberto Pupo Moreno. Muitas corridas de rua ficaram famosas. Uma delas foi os 1000 quilômetros de Brasília, cuja largada era à meia-noite e, a chegada, ao meio-dia. Participei da Federação de Automobilismo e ajudei em algumas corridas como fiscal ou bandeirinha. Foi muito divertido.
ZONA SUL – Você chegou a pilotar?
MARCO - Sempre tive vontade, mas nunca pilotei. Esse negócio ficava mais para os malucos. Na verdade, ninguém sabia muito bem o que era pilotar. Sabia era fazer loucura em cima dos carros. A sorte é que naquela época os automóveis eram de baixa cilindrada, como Volks, V-Maguetes... Hoje não se compara as velocidades. Muitos carros ficavam pelo caminho, não chegavam ao final da prova.
ZONA SUL – Brasília era uma boa cidade para os jovens viverem?
MARCO – Sim. Uma coisa bacana é que havia muita união entre os estudantes. Não tinha muita rivalidade entre as escolas e rapazes e moças circulavam por todos os colégios, sem problemas. Foi a fase do crescimento do rock por aqui. A juventude de Brasília, no início, era muito mais sadia que a de hoje. Antes não havia preocupação com cocaína ou outras drogas pesadas. Ninguém sabia o que era isso. No máximo, esporadicamente aparecia maconha, mas não era um negócio muito visível. O pessoal vivia mais em torno de curtir a cidade e a liberdade que ela nos oferecia. Depois do surgimento de uma turma ou outra reunindo filhos de políticos é que a cidade começou a mudar para pior.
ZONA SUL – Devido a impunidade?
MARCO – Com certeza. Como eram filhos de gente importante, eles achavam que podiam usar e abusar. Foi aí, com essa junção de poder com a impunidade, que Brasília ganhou uma fama pejorativa. Esses garotões aprontavam e tinham seus pecados abafados. Não eram apenas políticos: filhos de militares também estavam no meio dessas turmas. Quando algo de ruim era feito por uma turma dessas, as investigações nunca levavam a nome nenhum e os jornais também não estampavam as fotos dos responsáveis. Tudo era abafado devido ao envolvimento de filhos de senadores, deputados, ministros e militares. Um caso emblemático foi o assassinato de Ana Lídia Braga, ocorrido nos anos 1970, durante a ditadura militar. Ela tinha sete anos de idade quando foi sequestrada do colégio onde estudava. Depois de torturada e estuprada, ela foi morta por asfixia. Seu corpo foi encontrado por policiais em um terreno da UnB. Ela estava nua e tinha marcas de cigarro no corpo. O crime nunca foi esclarecido. Entre os suspeitos estavam filhos de políticos influentes e membros da sociedade de Brasília. O caso foi abafado. Ana Lídia hoje é considerada santa. Brasília perdeu a pureza a partir desse episódio de impunidade. Foi a partir daí que a cidade recebeu o apelido de Ilha da Fantasia.
ZONA SUL – Foi nesse período que você passou a se envolver no movimento cultural da cidade através do teatro?
MARCO – Exatamente. Minha ligação com a parte artística de Brasília foi muito ampla e dinâmica, na época. Como a cidade não era muito grande, havia a possibilidade de uma maior proximidade entre as pessoas. Era mais fácil se conhecer e se enturmar. Também contribuía o fato de não ter praia ou muitas outras opções de lazer. Ou as pessoas ficavam nas garagens, aprendendo a tocar guitarra, ou se envolviam com a dança ou o teatro. Foi então que conheci pessoas que estavam começando no teatro, capitaneadas por um diretor de espetáculos infantis, Donato Donati, que sempre vinha de Belo Horizonte fazer peças em Brasília. Integrava esse grupo a atriz Françoise Fourton, que se envolveu muito cedo com o teatro, aqui em Brasília. Tive a oportunidade de trabalhar com ela em algumas peças. Uma delas foi A Bela Adormecida. Foi nessa peça que Françoise Fourton deu o seu primeiro beijo artístico. Ela era a Bela Adormecida e eu encenava o Príncipe. Tenho até uma foto, com dedicatória assinada por ela, lembrando o fato de ter sido comigo o seu primeiro beijo em cima de um palco. Depois disso ela foi para o Rio de Janeiro.
ZONA SUL – Por que você também não tentou seguir o caminho do teatro?
MARCO – Na época até havia essa possibilidade. A Rede Globo ainda estava começando a produzir suas novelas e não havia artistas com fama nacional. A chance de alguém sair de Brasília e chegar ao estrelato era muita, porque o mercado no Rio de Janeiro ainda estava aberto. Acredito que se eu tivesse arriscado voltar para o Rio, poderia ter feito uma peça aqui e outra acolá e, quem sabe, chegar até a Rede Globo como ator. De qualquer forma cheguei na Globo pelo lado do telejornalismo.
ZONA SUL – Teve algum motivo específico para você largar a carreira no teatro?
MARCO – O principal é que, com a saída de Françoise Fourton - ela que era a estrela principal - o nosso grupo se desmanchou. Sem ela não seria mesma coisa. Ela já era importante, tinha feito balé na Academia Lúcia Toller...
ZONA SUL – Paralelo à atividade no teatro, o que você fazia da vida?
MARCO – Eu só estudava. No teatro eu ganhava algum dinheiro e, graças a ele, fazia algumas propagandas para televisão. Fui contratado para fazer comercial de móveis devido ao meu porte físico: tinha os cabelos grandes, um ar despojado... Era cabeludão, parecia hippie. A parte técnica das emissoras de Brasília era bem precária: não tinha grua e as câmeras eram bem simples. A gravação era na TV Brasília, a primeira emissora da cidade. Esse material não existe mais, deve ter se perdido com o tempo.
ZONA SUL – Como se deu sua entrada no telejornalismo?
MARCO – Foi coisa do destino. Comecei a namorar uma menina cujo pai era jornalista em Brasília. Ele recebia sempre uns amigos, também jornalistas, para jogar carteado. Numa dessas ocasiões, fui apresentado a um diretor de jornalismo da TV Globo de Brasília. Ele me convidou para visitar a emissora. Dei a sorte de, nessa visita, conhecer um cinegrafista do Rio de Janeiro que cobria a Presidência da República, o Evilásio Carneiro. Por intermédio desse diretor de jornalismo da Globo, ganhei a oportunidade de fazer iluminação para Evilásio, em reportagens cobrindo o Planalto. Foi aí que me empolguei com o lance de televisão. Seis meses depois deixei de ser pau de luz (assistente de cinegrafista) e fui promovido a cinegrafista da Globo. Naquela época era uma ascensão muito difícil de acontecer, porque não era videotape, era cinema. Para se trabalhar como cinegrafista na TV de antigamente a pessoa tinha que aprender cinema, e não videotape. Tudo começou com filme preto e branco de 16 milímetros. A televisão custava muito mais caro do que hoje em dia. Agora é possível fazer várias gravações por cima da outra em uma mídia só. Antes o filme era revelado e não tinha mais como mexer nele. E era preto e branco. Depois foi que a Globo implantou novamente o sistema de filme, dessa vez já o colorido. Depois do filme colorido veio o videotape. A partir daí a bagunça ficou formada. Na ordem natural das coisas, o motorista vira assistente de cinegrafista, que passa para cinegrafista. No Brasil não tem escola para formar profissionais aptos a trabalhar na parte de vídeo, cinema etc.
ZONA SUL – Você já começou como assistente de cinegrafista no Palácio do Planalto?
MARCO – Sim, cobrindo a Presidência da República. Quando eu ainda era assistente de cinegrafista, aconteceu um fato pitoresco. Era época dos militares. Apesar de trabalhar como iluminador, tinha oportunidade de fazer uma imagem aqui, outra ali. Foi quando me chamaram para fazer uma filmagem dentro do gabinete do então presidente da República, João Figueiredo. A câmera era ainda de cinema. Fui filmar o presidente porque estava sem cinegrafista na redação. Fiquei tão nervoso que na hora de preparar a câmera – era uma câmera com três jogos de lente (grande angular, média e normal) – posicionei metade de uma lente com metade da outra. O resultado é que aparecia metade da cara do presidente e a outra metade era apenas escuridão. Esse filme não foi aproveitado pela emissora. Uma oportunidade dessas a gente não pode perder, mas foi um momento difícil. Aliás, gravar um presidente da República não é mesmo fácil. Na época dos militares a gente entrava para filmar o presidente com tempo cronometrado. Já entrava com a câmera ligada. Os fotógrafos já começavam a bater antes de entrar. Se demorasse um pouco, os assessores dos militares começavam a desligar nossas luzes das tomadas, porque sem luz a gente não podia filmar. Ninguém filmava ou fotografava mais nada. O tempo era muito curto. No máximo dava para fazer três ou quatro fotos.
ZONA SUL – Você começou com qual presidente?
MARCO – Comecei com João Figueiredo. Trabalhei onze anos na TV Globo, como cinegrafista. Fiz várias viagens. É uma profissão muito interessante: você tem oportunidade de conhecer vários lugares e sabe que milhares de pessoas estão acompanhando o seu trabalho. Por outro lado, trabalhar em uma emissora de ponta amplifica um erro que você possa cometer. A TV depende muito de suas imagens e você não pode perder. A Globo é diferente porque sempre exige dos seus profissionais o melhor: as melhores imagens, os melhores ângulos e as melhores falas. Ser profissional de uma emissora como a Globo não é fácil. Não se pode negar que a qualidade da Globo é diferente das demais. A responsabilidade de um cinegrafista da Globo é muito grande.
ZONA SUL – Os onze anos foram na Presidência?
MARCO – Sempre cobrindo a Presidência e o Congresso Nacional. Na verdade, quando necessário eu cobria todo o Distrito Federal. Cobria desde o mármore de carrara até uma favela. Corria atrás de cenas perigosas e fazia também o dia a dia da política.
ZONA SUL – Conte alguma cobertura perigosa da qual você participou.
MARCO – Em 1982 um avião da Vasp partiu-se ao meio durante uma aterrissagem no Aeroporto Internacional de Brasília. Estava caindo um temporal muito grande na cidade. Duas pessoas morreram nesse acidente, que ocorreu durante a madrugada. Como eu morava perto da emissora, sempre era o primeiro a ser chamado nessas emergências. Na televisão ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Quando cheguei no saguão do aeroporto, vi vários repórteres sem informação nenhuma. Fui no carro da Globo, com o nosso repórter, circular o aeroporto para tentar conseguir alguma imagem diferente. Nisso, encostamos o carro perto da grade que protege a pista. É bom lembrar que a área do aeroporto é de segurança nacional. Ninguém pode entrar numa pista de avião sem autorização. Então passamos um rádio para a televisão dizendo que só havia um meio de ver o que estava acontecendo: pular a cerca do aeroporto JK. Mas se pulássemos e fôssemos pegos, seríamos presos. O chefe de reportagem de plantão autorizou: “pode pular, se vocês forem presos, a gente tira”. Todos os outros repórteres no saguão, e a gente ali. Pulamos, percorremos um matagal de dois metros de altura, e entramos na pista do aeroporto. Minha câmera de filmar parecia uma metralhadora. Botei ela pra baixo, como se fosse uma arma. Essa câmera a TV Globo tinha comprado depois do fim da guerra do Vietnã. Já estava em desuso nos Estados Unidos. Era uma câmera pesada, pronta para a guerra. Era toda com chassi blindado de um metal muito forte. Conseguimos caminhar e chegar perto do acidente. Éramos a única equipe que estava na pista. O avião estava com o bico para um lado e a traseira para o outro, divido ao meio. Filmei aquilo e ninguém mais tinha aquelas imagens. Fiz o suficiente até que passou um trator e a gente subiu nele, como se fôssemos funcionários de alguma empresa. Saímos pela porta da frente do saguão sem falar nada com nenhum repórter. Pegamos o carro, voltamos para a Globo e esse material saiu no primeiro jornal da emissora. Imagens inéditas mostrando o avião dividido. Ninguém viu a gente nem entrando e nem saindo. Como minha câmera parecia uma metralhadora, passamos como se fôssemos soldados.
ZONA SUL – Tem outra história de perigo?
MARCO – Na verdade, a história que contei foi mais de emoção, pelo fato de testemunhar aquela tragédia, do que propriamente de perigo. O perigo mesmo que passei foi em uma visita à aldeia caiapó, no Xingu. A aventura que vou contar foi fotografada pelo fotógrafo de O Globo, Jamil Bittar, que morreu recentemente. A Globo recebeu a notícia de que os índios estavam mantendo como reféns funcionários da Funai dentro do galpão da aldeia. Eles diziam que só libertariam os prisioneiros quando fosse resolvido o problema de pescadores ilegais que estavam atuando em território da reserva indígena. Diversas emissoras de Brasília mandaram equipes para lá. Foram vários aviõezinhos daqui para o Xingu. Era a primeira ocasião em que índios prendiam funcionários públicos e mantinham-nos como reféns. A TV Globo e o jornal O Globo fizeram uma parceria e fomos juntos para o Xingu. Chegamos um pouco antes dos concorrentes dos outros veículos. No momento em que aterrissamos, fomos recebidos pelo Raoni. Ele, com toda aquela indumentária de cacique, conduziu a gente até o centro da aldeia, que ficava perto. Lá, os índios estavam todos vestidos e pintados para guerra, apontando flechas para a gente: eu, meu assistente, o fotógrafo do Globo e uma jornalista. Nesse momento, começaram a nos dar bordunadas. O fotógrafo, quando viu o cerco se fechando, pulou fora e começou a fotografar a cena, bem de longe da confusão. Meu assistente era evangélico, ao começar a levar bordunadas, ele se ajoelhou e começou a pedir ajuda a Deus. Até o cacique Raoni deu bordunadas na gente, enquanto os índios, todos pintados, gritavam uh-uh-uh pra cá e pra lá. Eu pensei: “vou morrer, mas não vou desligar minha câmera”. E não desliguei: gravei toda a nossa possível morte. Foram uns três minutos a gente apanhando. A emoção foi tão grande que eu não sabia se filmava, se rezava ou se morria. O interessante é que as pancadas não doíam muito. Não sei se era por causa da adrenalina... Eu ainda tentei me defender com a câmera que estava usando.
ZONA SUL – Era a blindada?
MARCO – Não, era uma bem frágil. Jamil conseguiu tirar algumas fotos dessa pancadaria toda na gente. O mais interessante é que, logo que acabou a pancadaria, o Raoni chegou perto da gente, pediu desculpas e falou que aquilo era apenas um desabafo. Os índios estavam querendo desabafar em alguém, e como nós fomos os primeiros a chegar, pagamos o pato. Em pouco tempo começou a descer teco-teco pra cá e teco-teco pra lá com o resto da imprensa. Eles não sofreram nada, o “desabafo” foi todo em cima da gente. Depois disso foi aquela amizade, com beijos e abraços.
ZONA SUL – Conte outro fato interessante, não necessariamente de perigo, que você vivenciou na sua profissão.
MARCO – Certa vez fui destacado para viajar até o Piauí. Recebi um envelope lacrado, com ordem de só abri-lo dentro do avião. Eu encontraria com uma equipe da repetidora da Globo, em Teresina. Tinha um caso interessante no estado. Eu receberia os detalhes quando desembarcasse. Viajei com uma câmera de cinema. No avião, quando abri o envelope, descobri que o objetivo da viagem era filmar uma santa que estava aparecendo em Piripiri. Imediatamente pensei: como vou filmar uma santa? Ao chegar no aeroporto, encontrei a equipe que ia me conduzir ao local das aparições. Só que o jornal local havia divulgado uma matéria contando que uma equipe do Jornal Nacional estava chegando para filmar a santa que estava aparecendo em Piripiri. No dia seguinte fui com um repórter de lá. Quando estávamos chegando perto de Piripiri, começamos a ver na estrada bicicletas, charretes, cavalos, ônibus e carros vindos de tudo o quanto é lado. A notícia do jornal local havia chamado atenção e as pessoas tinham resolvido acompanhar a filmagem em uma romaria enorme. A santa tinha sido vista por duas crianças. Seus pais não queriam propaganda. Antes de ir ao local da aparição, visitamos o bispo da igreja católica. Teoricamente ele era o cara mais confiável para dar um depoimento sobre o assunto. A igreja é contra esse tipo de romaria para dizer que santo tá aparecendo. Mesmo que exista esse tipo de aparição, a igreja não concorda com essa propaganda. Como suspeitava que a gente não seria bem atendido, já cheguei gravando a cena em que o nosso repórter pergunta ao bispo se o aparecimento da santa era verdade. “De jeito nenhum, não está aparecendo santa nenhuma, isso não existe, não quero falar nada, isso é boato”, foi a resposta que o bispo deu. Pra gente foi o esperado. De lá fomos ao local da suposta aparição. No caminho, encontramos várias pessoas a pé, uma romaria danada: gente vestida de branco, crianças, distribuição de santinhos...
ZONA SUL – Como era o local da aparição?
MARCO - Era em um matagal danado. Perto de uma cerca estava cheio de caminhão, carro e tudo o mais estacionado. Andei um pouco e um cara disse que a santa tinha aparecido próximo a um toco que ele estava apontando. O toco estava rodeado por velas. Olhei pro repórter e perguntei: “e agora?”. Para não perder a viagem, resolvi subir em uma árvore. Lá de cima joguei o microfone, com um cabo bem grande, para o repórter. Pedi para ele entrar no meio do povão. De cima da árvore, chamei todo mundo para rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria, pra ver se a santa aparecia. Filmei o toco em primeiro plano, as pessoas mais humildes em segundo plano, junto com aquelas velas e aquele matagal todo. Essa cena já salvava a minha viagem. Começaram a se ajoelhar, a entrar na minha, todo mundo rezando um Pai Nosso pra cá, uma Ave Maria pra lá. Para captar imagens de outro ângulo, desci da árvore e fui filmar em volta do toco. Coincidentemente, no instante em que desci o pessoal começou a chorar e a dizer que estava vendo a santa. Não sei se queriam aparecer na filmagem, mas começaram a apontar e a dizer que a santa estava vestida toda de branco. O material começou a crescer com aquelas pessoas falando, enquanto outras choravam. A gravação foi ficando bonita pra diabo! Esse material saiu no Jornal Nacional do sábado seguinte. A repercussão foi muito boa. A televisão disse que não havia santa, que era apenas um toco, que aquele povo teve uma catarse naquele lance da filmagem, todo mundo junto. Outra coisa interessante que deixava uma ponta de dúvida, apesar da fantasia da filmagem, é que fomos para a aldeia procurar as pessoas que viram, para dar credibilidade à matéria. Fomos até a casa de uma das meninas que primeiro tinha visto a aparição. O pai, muito humilde - na porta de sua casa de palha, com um cachorrinho por perto - pediu para não filmarmos as filhas dele. Então eu perguntei o que ele pediria à santa se a visse. Ele respondeu que pediria para ela aparecer também para as outras pessoas, para a família dele não passar por mentirosa. Interessante, porque ele podia falar que queria saúde pra todo mundo, dinheiro, felicidade... Mas pediu apenas para a santa voltar a aparecer para que suas filhas pudessem recuperar a credibilidade. Apesar de toda aquela preparação das imagens, de toda a plasticidade da televisão - que é uma fantasia - saí mais ou menos acreditando que realmente as meninas teriam visto aquela santa.
ZONA SUL – De cobertura específica no Planalto, o que você lembra de mais inusitado que aconteceu?
MARCO – Hoje em dia a parte técnica de televisão está bem mais cuidadosa do que antigamente. Antes tinha uns paus de luz que viviam pipocando na cara dos outros. Aconteceu um caso interessante, na época da guerra fria, quando o secretário de Estado norte-americano, Henry Kissinger, visitou o Palácio do Planalto. Ele era muito visado até em termos de atentado terrorista. Quando a gente estava filmando o discurso dele, no salão nobre, as luzes de um cinegrafista pipocaram, explodiram. No mesmo instante Kissinger se abaixou, achando que estava sendo atacado. O norte-americano e seus seguranças acharam realmente que naquele momento estava sendo promovido um atentado em pleno salão nobre do Palácio do Planalto. Depois desse episódio, o Planalto baixou uma determinação obrigando toda iluminação ter uma tela de metal na frente da lâmpada, para evitar de acontecer o mesmo que ocorreu com Kissinger. O susto foi grande, pois o barulho da lâmpada de mil quando pipoca é semelhante ao de um de tiro. Na hora Kissinger se abaixou por trás do púlpito e instantaneamente os seguranças foram para cima, para protegê-lo. 
ZONA SUL – Depois desses onze anos na Globo o que você foi fazer da vida?
MARCO – Desisti da Globo porque teria que me mudar para o Rio de Janeiro ou talvez pegar uma sucursal fora do país. Então parti para fazer gravações por conta própria. Como eu tinha aparelhagem de videotape, decidi fazer gravações por conta própria no Congresso Nacional. Era um grande filão, pois não tinha TV por lá, ainda. Foi quando me deparei acidentalmente com o então deputado federal Ratinho, que hoje é famoso em todo o país através da tela do SBT. Na época ele tinha um programa, na CNT do Paraná, chamado Cadeia. Ele era deputado e fazia esse programa policial. Acidentalmente cruzei com ele no Congresso e, durante a conversa, ele me chamou para fazer algumas filmagens para o programa Cadeia. Como ele era maluco e eu acompanhei um pouco a maluquice dele, fizemos muitas coisas interessantes juntos. A primeira foi durante a discussão que estava havendo no Congresso a respeito de monarquia ou república. Tive a ideia de fantasiá-lo como rei. Peguei a fantasia emprestada da escola de samba do Cruzeiro. Ratinho se vestiu como rei e apareceu no programa falando sobre a monarquia. Outra matéria foi comparando as cúpulas do Congresso com discos voadores. As pessoas começaram a gostar e a querer saber quem estava fazendo aquilo para o Ratinho. Dessa forma fui indicado para ser o responsável pela abertura do canal CNT, em Brasília. Aceitei e fiquei por 16 anos como diretor de jornalismo da emissora. Me desliguei do Ratinho para essa tarefa. Foi até uma pena, porque se eu tivesse ficado com ele provavelmente hoje estava rico. Depois da CNT fiz algumas coisas em redações de televisão até que fui convidado para ser produtor executivo da NBR, fazendo as coberturas ao vivo nessa TV do governo federal. Estou gostando muito de trabalhar com coberturas ao vivo, pois durante vários anos da minha vida atuei apenas com tudo gravado. Qualquer erro, na gravação, você volta. Ao vivo, além de trazer uma repercussão imediata, exige um cuidado redobrado e uma responsabilidade grande. Também estou dando suporte na parte de gerenciamento de risco de imagem no Ministério da Previdência Social.
ZONA SUL – O que você diria a alguém que pretende ingressar na carreira de cinegrafista?
MARCO – É uma profissão que vale a pena, apesar de ser muito estressante. A televisão é uma mistura de arte, profissionalismo e estresse. Se a pessoa quiser ir para o campo da imagem - quer seja na cinegrafia ou na fotografia – vai encontrar um bom campo para trabalhar, porque hoje em dia todo mundo quer aparecer. Também vale a pena enveredar por esse ramo porque no momento em que você está com o olho no visor, praticamente esquece do resto do mundo. É o seu olho capturando a vida através da câmera. Você vai, através daquelas imagens capturadas, oferecer ao telespectador a sua versão da realidade.
ZONA SUL – Você conhece o Rio Grande do Norte?
MARCO - Estive em viagens presidenciais, mas não pude ficar muito tempo. Acompanhei, por exemplo, o presidente Figueiredo em uma passagem rápida. Mas pude passar vinte dias de férias em Natal. É uma cidade muito legal. Tenho planos de, quando me aposentar, ir morar na beira da praia. O litoral potiguar é um dos favoritos nessa futura opção que farei. Enquanto esse dia não chega, vou continuando a minha batalha.


5 comentários:

  1. Muito bom Nenem, nesta foto acima, vc paraece tá mais magro ou pelo sorriso apertado vc tá usando CINTA?????rsrsrs
    abraços
    sérgio almeida

    ResponderExcluir
  2. Nenhuma das duas opções, rsrsrs...

    ResponderExcluir
  3. LEGAL TIO MARCÃO ESTA SUA ENTREVISTA CONTANDO UM POUCO DA SUA HISTORIA DE VIDA! ABRAÇOS PAULO ROBERTO!

    ResponderExcluir
  4. Valeu cabelo, vc é uma pessoa muita querida e um irmão amado por todos nós. beijo do seu irmão Gilberto e familia.

    ResponderExcluir
  5. Macarrão é você????? Xexa meu facebook é Maria Celi Canedo Fonseca

    ResponderExcluir

Obrigado por visitar a página do Zona Sul. Seu comentário, crítica ou sugestão será muito bem vindo.