sábado, 28 de julho de 2012

Entrevista: Ciro Pedroza

ENSINANDO OS CAMARADAS A LER


 Foi necessário juntar dois Robertos para entrevistar um Ciro. Mas é bom que se diga que esse Ciro era o Pedroza: o jornalista, publicitário, professor universitário, radialista, funcionário público, assessor de imprensa e sei lá mais o que. Eu e o meu xará Fontes – que recheia a carteira de cédulas como auditor fiscal, mas esbanja talento como jornalista – sabatinamos Ciro, o Pedroza, durante mais de duas horas na Bella Napoli, na Hermes da Fonseca.
 
ZONA SUL – Além de Ciro Pedroza, o que tem mais no seu nome?
CIRO – Ciro José Peixoto Pedroza. Ciro José porque o meu pai era louco por rádio e ouvia um narrador da Rádio Globo de São Paulo chamado Ciro José Gonzales, que depois foi diretor de esportes da Rede Globo. Quando menino, meu pai morava na Bica da Telha, hoje Domingos Sávio, atrás do Sindicato dos Jornalistas, no Centro, em Natal. Ele e uns amigos gostavam de ficar sentados em um toco mais ou menos onde hoje é a 96FM. Eles, que se tornaram conhecidos como “a turma do toco”, ficavam peruando os artistas que iam cantar na Rádio Poti. Meu pai é Horácio Pedroza, conhecido como “o professor dos plantões”. Foi o segundo plantão esportivo de Natal, trabalhando na Rádio Poti. O primeiro foi Miroz Ferreira Lima, na Rádio Nordeste. Zé Lira, plantonista há décadas da Rádio Cabugi (hoje Globo Natal), foi rádio-escuta do meu pai: aprendeu os segredos da profissão com ele.
ZONA SUL – Seu pai e você nasceram em Natal?
CIRO – Sim. Eu nasci nas Rocas. Aprendi desde pequeno que existia rádio de nove faixas e sabia de cor a posição das emissoras locais no “dial”: Poti, Trairi, Rural, Nordeste e Cabugi. Dificilmente um menino da minha idade sabia o número e a frequência daquelas emissoras. Menos ainda eles tinham a oportunidade de ver e conviver com os caras que falavam nas emissoras. Acho que isso acabou sendo decisivo na minha carreira: dediquei grande parte da vida ao estudo do rádio.
ZONA SUL – Seu pai também trabalho no Diário de Natal. O que ele fazia por lá?
CIRO – Era telegrafista. Na verdade, ele era tradutor de telex. Antigamente a informação chegava, via telex, no sistema Código Morse. Ele e outro funcionário pegavam aquela fita, traduziam e transcreviam. Durante o dia ele trabalhava em uma empresa chamada Interbrasil, à noite, no Diário.
ZONA SUL – Antes de a rádio centralizar suas atenções, como o menino Ciro Pedroza gastou sua infância?
CIRO – Menino das Rocas brinca de tudo. Todo menino das Rocas jogava futebol. Não tinha brinquedo, mas tinha bola. As brincadeiras eram na praia, no rio ou na rua, jogando bola. O futebol era no calçamento ou na areia. E era paralelepípedo. Imagine jogar no “paralelo” quente... Hoje, só em andar, doem os pés. Antes o sujeito jogava no “paralelo” e não era de tênis: era descalço. Joguei um tempo no Palmeiras, naqueles times das Rocas, descalço. Eu era lateral direito. Nunca fui magro, sempre fui cheinho. Um tio meu, Moab, foi decisivo para eu torcer pelo ABC. Ele me levava para o campo. Meu pai não podia me levar, porque tinha que ficar na rádio. Ele era de uma época em que os cronistas não diziam por qual time torciam. Só depois descobri que ele torcia pelo América. Chegou a ser presidente da ACERN.
ZONA SUL – E a vida escolar?
CIRO - Fiz o primário no Externato Ebenézer, na Rua São Sebastião. Era de um pessoal da igreja. Minha mãe era crente, depois virou pastora de igreja. Meu pai foi, quando jovem. Depois se converteu à boemia. Estudei nessa escola e depois fui fazer exame de admissão. Fui dos primeiros colocados e fui estudar no Padre Monte. Minha vida foi dividida entre dois mundos: sempre achei que tinha que ter a rua, mas também tinha que ter a escola. Eu tinha colegas que eram gênios na rua, mas não entendiam nada da escola. E os da escola não entendiam nada da rua. Era aquele povo branco, de óculos, que quando saíam de casa, saíam loucos, correndo. Tem um livro de Homero Homem, chamado “Cabra das Rocas”, que me ajudou a entender essa história. Era exatamente isso: o menino que era o filho do marinheiro, filho do estivador, do assalariado das Rocas, que vai estudar no Atheneu. Nunca perdi aula para jogar bola. Eu gostava de conversar, às vezes não prestava atenção, mas sempre tirava notas minimamente boas para passar.
ZONA SUL – Foi mais ou menos nessa época que surgiu o seu interesse pela música?
CIRO – Sim. A minha casa era musical, o meu pai tocava. Estudei na Escola de Música, fui aluno de Lucinaldo. Até hoje, quando estou tocando, faço frases que eu via meu pai fazer no violão. Ele toca menos hoje, está com 74 anos. Minha mãe morreu, depois de passar um tempo doente. Eu achava que tinha que estudar música, ler as partituras, aprender a técnica. Isso facilitaria aprender na prática. Naquela época tinha uma revistinha chamada Violão e Guitarra (VIGU). Tinha cara que só tocava com a VIGU, se tirasse a revista, ele não tocava.
ZONA SUL – Vamos fazer a transição do colégio para a universidade. Você chegou a ficar dividido entre Música e Jornalismo na hora de prestar vestibular?
CIRO – Pouca gente sabe que sou músico, que tenho música gravada, que me garanto. Estou começando a me dar conta que eu toco feito louco. E não é que eu tenha tanta técnica de tocar. O segredo é que fui auxiliar de discoteca na Rádio Poti. Enquanto eu catalogava os discos, eu ouvia. Então, eduquei meu ouvido. Até hoje toco com os amigos e seguimos um ritual: não se repete música, nem se pede música no meio. A música vai até o fim e você sabe que sua música vai sair.
ZONA SUL – Mas a pergunta era se você tinha se balançado entre jornalismo e música, na hora de escolher um rumo para a vida.
CIRO – Me balancei, mas eu já sabia que não queria o palco. Eu não me sentia preparado.
ZONA SUL – Timidez?
CIRO – Sim. Eu morria de inveja, uma inveja boa, dos caras que tinham coragem de ir. Mas eu achava que para me apresentar no palco tinha que ter muito conteúdo. Sempre achei que para fazer as coisas tinha que realmente estar preparado para elas. Por isso não segui no futebol: exigiria um esforço grande que eu não estava disposto a oferecer. Sou um bicho pra trabalhar, mas a minha corrida é de cabeça. Enquanto andava de bicicleta durante o dia, já pensava na noite, em encontrar os caras para discutir, por exemplo, nome de país, capital, lugares. Até hoje pergunto de onde o sujeito é para tentar entendê-lo. Sabendo de onde é e onde vive, terei melhores condições de compreender quem a pessoa é. Mas, sabe por que não fui para a música? Porque tive medo, muito medo. Tive medo de ir para a noite e não voltar para o dia.
ZONA SUL – Como assim?
CIRO - Eu via o cara doidão e ficava imaginando como ele iria trabalhar no outro dia de manhã. Naquela época era uma coisa intuitiva, mas hoje eu tenho clareza de que se tivesse ido para a música, teria morrido. Da mesma forma que passei muito tempo resistindo ir para São Paulo: eu tinha medo de virar suco. De a cidade ser tão grande, tanta coisa pra fazer, que eu ia pirar. Se eu fosse falar psicanaliticamente, eu diria que tenho medo do prazer. Sei o que o prazer pode fazer com um sujeito. Nunca tive uma relação com droga porque sempre achei que ela é um negócio complicado. Não tenho purismo, é que o negócio é bom demais. Como bom libriano, sempre andei divido. Pulo de cabeça nas coisas, jogando, sou competitivo, boto o pé fiche, boto o pé com força. Agora, tenho medo, sei que preciso voltar para um porto seguro. Sou dragão no horóscopo chinês. O dragão solta o fogo, mas ele precisa se recolher para a caverna. Tem dia que eu não quero soltar o fogo, quero ficar na caverna. Construí uma imagem de bem humorado, de tirador de onda, de fazer zoada onde chego. Antes eu não conseguia entender essa coisa do fogo e da caverna. Hoje entendo claramente.
ZONA SUL – Essa sua faceta de tirar onda é também para esconder um pouco a timidez?
CIRO – Sempre foi. Sempre achei que era gordinho, feio, cabeçudo, pequeno. Não era galã. Não era o intelectual no sentido, vamos dizer, “lato” do termo. Até hoje resisto à idéia de ser intelectual. Mas aí o cara comenta: “mas você estudou na USP”. Foi. “Mas você é mestre em Comunicação na melhor escola do país”. Sou. “Você deu aula na universidade”. Dei.
ZONA SUL – Vamos detalhar essa sua vida acadêmica e profissional. Você começou na UFRN pelo curso de Jornalismo.
CIRO – Sim, mas antes eu já trabalhava na rádio. Foi o meu primeiro emprego. Meu pai me levava, nas férias, para a Rádio Poti para eu não ficar com os “moleques” das Rocas. Ele me pagava retirando do próprio salário. Aprendi datilografia, porque batia na máquina. Datilografo super-rápido. Aprendi noções de organização, catalogando discos. O mais importante é que eu ouvia muita música. Ouço uma música hoje e já desconfio de quem seja. Inconscientemente fui meio que cadastrando na cabeça aquela discoteca da emissora. Mas, voltando a história: eu ia pra música? Sim, mas tive medo da música, daquela relação da música com a noite, da música com as drogas. Os músicos eram os doidões, e eu não queria ser doidão. Eu gostava da música, da viagem, mas queria ter controle sobre aquilo.
ZONA SUL – E o jornalismo?
CIRO - O jornalismo me dava aquela coisa do emprego do dia. Quando me perguntam se vivo do jornalismo, respondo que oficialmente vivo do emprego público. Quando entrei no jornalismo, acho que a minha auto-estima era baixa demais. Eu não queria ser colunista, editor de jornal, apresentador de televisão, nada disso. Eu queria ser repórter policial. Fui o primeiro repórter policial da universidade a fazer rádio policial, com Assis de Paula. Eu era “o cara da universidade”. Naquela época ninguém queria ir para a polícia. Eu sempre ouvia dizer que a polícia era um curso de filosofia. Você aprendia o submundo mesmo, o mundo real: não tinha coxal, não tinha caneleira, não tinha nada. Era a realidade crua, sem maquiagem. Não tinha assessor de imprensa, não tinha atravessador. O fato estava ali, na sua cara. O cara estava morto, o presunto estava na pedra. A delegacia fedia de manhã.
ZONA SUL – Nelson Rodrigues começou como repórter policial. Ele escrevia de forma crua e simples. Simplicidade parece ser uma palavra que você preza muito.
CIRO – Tem uma frase de Stendhal que sintetiza isso. “Se eu não me faço entender, de nada vale o que eu sei”. Sempre achei que o papel do cara da comunicação é ser tradutor, não é saber. Entrei no curso de Jornalismo aos 16 anos, em uma turma de craques: Claudio Oliveira, Solino, Carlos Peixoto, João Maria, Gerson de Castro, Zé Eudo, Zé Carlos Oliveira, Noronha... Uma geração que fez a transição entre, digamos assim, os provisionados e “o povo da universidade”. Todo mundo dessa turma, os que são hoje os caras, atrasaram o curso. Quem terminou o curso na hora, dançou, não tem emprego. Naquela época a gente trabalhava e estudava, fazia as duas coisas juntas. Quando Zé Agripino comprou a Trairi e transformou na Rádio Tropical, Ricardo Rosado voltou de São Paulo para ser o diretor de jornalismo. Formamos um ótimo time: eu, Carlos Peixoto e Josimey. Saía de ônibus entrevistando as pessoas, voltava no fim da tarde para editar e botar no ar. Foi também nessa época que pela primeira vez se estudou na universidade com livros brasileiros. Era época em que a Summus estava começando a publicar os livros do pessoal da USP - aquela coleção “Novas Buscas de Comunicação” - de autores brasileiros como José Marques de Melo e Manuel Carlos Chaparro. Quase 30 anos depois, o encontro com essa literatura foi decisivo para eu alimentar durante esse tempo todo o sonho de estudar em São Paulo. Fui aos 35 estudar com os caras dos livros.
ZONA SUL – Antes de ir para São Paulo, o que ocorreu demais expressivo em Natal?
CIRO – Na campanha de 1982 fui destacado para cobrir Caicó pela Rádio Tropical. Eu, menino de 16 anos, fui ameaçado por um cara chamado Galileu, filho de Manoel Torres. Queria atirar em mim, dar em mim, se fazendo de brabo, lá. Cheguei morrendo de medo no hotel e liguei pra cá, contando o que estava acontecendo. Disseram que eu ficasse tranquilo, que o caso seria resolvido. No dia seguinte ele não apareceu mais por lá. Aquela viagem foi importante primeiro por eu ter saído de lá, entre aspas, vitorioso. O meu candidato, ou o candidato da rádio onde eu trabalhava, ganhou a eleição. Quando voltei, eu já tinha saído da polícia para ir para a política. Aquela campanha foi memorável. Às vezes, acompanhando uma passeata que não tinha ninguém, era obrigado a inventar uma lorota. Tinha também um negócio de “pesquisa verdade”. A gente saía nas paradas de ônibus e em outros lugares perguntando: “se a eleição fosse hoje você votaria em José Agripino ou Aluízio Alves?”. Na rádio a gente entregava a fita, por exemplo, com trinta entrevistas. Vinte em favor de Agripino e dez de Aluízio. Na edição o placar virava para 29 a um. Hoje a gente houve falar em manipulação de pesquisa, mas naquela época já havia isso. Depois estudei o assunto: minha tese na universidade foi sobre a eleição de 1960.
ZONA SUL – E a música, onde estava nessa época?
CIRO – Adormecida. Eu já compunha, mas morria de vergonha. Fazia e esquecia, achava que não rendia. Passei a compor quando fui trabalhar como publicitário e precisava compor jingle. Quando Zé Agripino assumiu o governo, em 1983, nomeou Marcos Formiga prefeito de Natal. Ele tinha vindo do Ministério dos Transportes e sua prioridade era montar um plano de transportes para a cidade. O modelo de transporte usado até hoje vem da época de Formiga. Fui convidado pelo secretário de Comunicação, Cassiano Vidal, para trabalhar na prefeitura. Fui trabalhar com Carlos Batinga, que tinha vindo implantar o novo modelo de transporte. No começo eu passava por lá, após as aulas da faculdade, e via se tinha algo pra fazer. Fui aprendendo transporte e descobri que não dava apenas para “passar por lá”. Nessa época li um texto de Ricardo Kotscho, “Assessor X Repórter”, e compreendi que não podia trabalhar na rádio pela manhã e na Secretaria de Transportes à tarde. Pedi as contas da rádio. Passei a pensar comunicação para além da notícia. Foi aí que levei Solino para trabalhar comigo. Passamos a fazer os cartazes de ônibus e desenvolvemos uma tecnologia própria. A gente descobriu que o lugar de botar cartaz não era atrás do motorista, mas atrás do cobrador. O tempo que o cara parava na roleta, lia. O texto tinha que ter uma manchete e uma informação rápida. A linha que ia mudar, o novo itinerário e o telefone: “qualquer coisa, ligue 158”.
ZONA SUL – Já era o seu lado publicitário surgindo.
CIRO – Já, desde aquela época. Quando Formiga saiu, entrou um povo do PMDB que a gente via na universidade como “os caras”. Mas “os caras” foram terríveis. Chegaram com um apetite tão grande pra fazer as coisas que destruíram tudo o que tinha sido feito. Isso me deixou muito triste e desiludido. Saí da STU, embora tenha continuado na prefeitura, e fui fazer comunicação para ônibus. Eudo Laranjeira, da Cidade do Sol, me chamou para repetir a experiência da STU na sua empresa. Nessa época implantamos a “poesia circular”, através da relação que eu tinha com o pessoal da poesia marginal. Isso já tinha no sul, só que a gente fez diferente. Em vez de botar os grandes autores, a gente botou os caras de Natal. Misturamos a academia e a rua. Já com relação à música, estudei violoncelo com Bragato, que foi músico e arranjador de Piazzola.
ZONA SUL – Onde foi isso?
CIRO – Em Natal. Fui estudar violão, mas não tinha vaga. Pintou a vaga de cello. Estudando o instrumento, meus dedos doíam que só a gota e mesmo assim eu não acertava a nota. Desisti na hora que vi os dedos do professor. O polegar era torto, de tanto segurar o arco. Depois consegui uma vaga de violão na Escola de Música. Aprendi a técnica do arpejo, mas não tinha sistema nervoso para ficar repetindo o movimento. Coincidiu que saí das Rocas e fui morar em Nova Descoberta. Como não tinha amigos na rua, passava o dia fazendo arpejo: só mão direita. Depois que conheci o povo de Nova Descoberta, e comecei a jogar bola, fiquei mais normal.
ZONA SUL – E a ida pra São Paulo?
CIRO – Era um sonho, mas aos 35 chegou a hora. Depois de ter trabalhado em campanhas, de ter feito um bocado de coisa, entrei em crise. Em tese, o que eu podia alcançar, já tinha alcançado. Estava na hora de dar o salto. Aos 16 eu morria de medo de ir pra São Paulo. Em 1985 eu queria ir, mas quando vi “O homem que virou suco”, pirei o cabeção. O diabo é quem ia virar suco! Depois encontrei João Batista de Andrade em São Paulo e confessei: “poeta, você atrasou minha vinda pra São Paulo em quase 20 anos”.
ZONA SUL – Você tem algum ídolo no jornalismo potiguar?
CIRO - Trabalhei muito perto de um cara chamado Cassiano Arruda Câmara, que me ensinou muito. Ele dizia que “notícia é notícia, ninguém agride notícia”. Depois, fazendo assessoria de imprensa, cheguei a mandar para Cassiano notas a respeito de inimigos dele. Cassiano as publicava e dizia: “eu não gosto desse cara, mas não posso agredir a notícia”. Com Alderico Leandro aprendi a escrever para rádio. Depois, passei muito tempo acreditando que eu só conseguia escrever cinco linhas. Hoje eu acho que as cinco ou dez linhas que eu escrevia era só a polpa, o supra-sumo, o filé. Depois é só botar água nessa polpa que ela vai virando 30, 40, 50 linhas. Quando cheguei a São Paulo, o que eu fazia em Natal, fiz lá. Não tive que me adaptar. Facilitou o fato de eu já ter lido nos livros as coisas que os caras faziam lá. Só mudava que, ao invés de escrever sobre um milhão de pessoas, eu escrevia sobre as Quintas, as Rocas e o Alecrim. Isso confirma outra teoria de Cassiano: “urubu é preto em todo canto”.
ZONA SUL – Você já foi com o emprego do Tribunal Regional do Trabalho?
CIRO – Eu já era funcionário, mas fui de licença, para estudar. Quando acabou a licença, fiquei trabalhando. Sempre achei que eu tinha que estudar e ter um emprego público, para poder ser jornalista. Eu vi na experiência do meu pai, que trabalhava em um canto e fazia rádio como que por diletantismo. Todos os caras que faziam rádio naquela época eram cruzeteiros. Sou avesso a cruzeta.
ZONA SUL – Talvez os baixos salários pagos no Rio Grande do Norte a jornalistas e, particularmente, a radialistas, obriguem esses profissionais a buscarem uma alternativa para sobreviver.
CIRO – Não é isso. É a vergonha na cara.
ZONA SUL – É mais fácil ter vergonha na cara com um salário garantido, do que sem nada.
CIRO – Vá estudar de manhã, trabalhar à tarde e fazer um frila de noite, como eu fiz. Enquanto os caras tomavam cachaça, comprei uma máquina de escrever. E essa devo a Cassiano. Eu era assistente dele, na Dumbo. Um dia, cheio de pernas, perguntei: “mestre, é verdade que você tem seis empregos?”. Ele respondeu: “doze, Pedroza”. (risos). Eu desmaiei, passei oito dias com aquilo na cabeça. Quando voltei, eu perguntei: “e como você dá conta?”. “Você já me viu em bar conversando besteira?”. Foi com essa outra pergunta que ele me respondeu. Naquela época jornalista fazia revolução na mesa do bar.
ZONA SUL – Cassiano, para você, é mesmo um ídolo...
CIRO – Me inspiro no seu modelo de trabalhador. Trabalhei com ele antes de ir para São Paulo, na Dumbo. Em 1982 ele fazia a campanha para dona Wilma e estava precisando de um assistente. Cassiano pediu um programa para atingir os jovens da Zona Norte. Seria ali o caminho para vencer a eleição. Inventei aquele programa, que era uma FM. “Pra quem anda ‘P’ da vida, oposição unida é a saída”. Enquanto no programa de Henrique os veteranos Roberto Machado e Ademir Ribeiro repetiam: “Henrique é avanço, Henrique é mudança”, no de Wilma a gente tocava músicas intercaladas com vinhetas diferentes. E a apresentação era de Guiba Melo e Elizabeth Venturi. Criamos o quadro “Pesquisas Revelam”. Era mais ou menos assim: “o candidato de Sarney continua subindo... Subindo... Subindo o custo de vida”. Rodava o choro de um bebê. “Agora foi o leite que subiu 30%”. Era a época da hiperinflação. A partir daí fui trabalhando com político, mas morria de medo, por achar que não entendia de política. Hoje escrevo, falo e estudo política, mas não me acho um sujeito no modelo clássico que entende de política. Quando voltei pra Natal, depois desse tempo que passei em São Paulo, fiz comentários na TV Ponta Negra, a convite de Paulo Araújo. Eu falava de política de um jeito completamente diferente. Era política para quem não entende, nem gosta de política. Eu sou um tradutor. Sempre fiz os textos meio publicitários e radiofônicos. Acho que isso é a síntese da minha carreira inteira.
ZONA SUL – O que de mais expressivo aconteceu com você em São Paulo?
CIRO – Conquistei amigos em uma cidade que é “indoor”. Descobri que de onde você menos imagina, vem solidariedade. Teve fim de semana de eu não ter uma fruta na minha casa, e uma pessoa, dois prédios depois, trazer uma cesta de fruta pra mim.
ZONA SUL – Por que você enfrentou essa dificuldade toda?
CIRO – Porque fui para lá liso, com o salário daqui. Aqui eu pagava 200 reais de escola. Lá passei a pagar 500 por cada criança: Ciro, que mora em São Paulo até hoje, joga futebol de salão, e Cecília. A vida era muito mais cara. Davi é o pequeno que nasceu em São Paulo. A vida em São Paulo era pelo menos cinco vezes mais cara que a daqui. O dinheiro que levei para lá calculando que ia passar seis meses, passei três. Aí tive que correr atrás. Estar em São Paulo me permitiu conhecer e conviver com os caras que a gente vê nas fotos, os monstros do jornalismo, como Heródoto Barbeiro, Chaparro, Fausto Macedo, Marcos Zaidan, Anchieta Filho e Antonio Freitas. Também foi por estar na capital paulista que pude passar um mês na Alemanha, estudando rádio, com tudo pago. Fui o único do Brasil que foi, junto com onze caras da América Latina. Fomos para a Deutsche Welle. São Paulo me deu também a possibilidade de ir para a China. Também estive em Cuba e no Peru.
ZONA SUL – Quais as principais impressões que você captou nesses países?
CIRO – Vou resumir com uma frase de João Câmara: “todo mundo tem olho, boca, dente e nariz pra frente”. Descobri, por exemplo, que a língua não é barreira pra nada, mesmo na China. A gentileza ajuda muito. Não custa nada você abrir a porta, facilitar, indicar... Há uma linguagem universal da gentileza. Minha viagem surgiu de repente. Eu, com menino pequeno em casa, me vi diante da possibilidade de viajar três dias depois. Era uma oportunidade ímpar. Topei. Junto com um colombiano - que edita uma revista chamada Número, uma espécie de Bravo com Caros Amigos, na Colômbia – descobri que falando “crazy language” a gente conseguia se fazer entender. Com a “crazy language”, a língua de maluco, você sempre consegue achar alguém que entende você. Fui comprar na Alemanha o livro de Hitler, “Mein Kampf”. Queria comprar ele e o “Diário de Goebbels”. Quando entrei em uma loja, um judeu-alemão não conseguia entender o que eu falava, nem eu a ele. Foi quando uma moça que estava lá no fundo da loja compreendeu quando eu falei que era brasileiro e que estava procurando esses dois livros. Dessa forma consegui o diário de Goebbels, mas não o livro de Hitler, que não podia ser vendido. Eu saía pra comprar as coisas, quando não sabia, eu desenhava. Descobri que eu sabia desenhar. Dei uma aula sobre a origem da música brasileira, toda desenhada. Fui para a feira de Milão, para a Suiça: a mesma coisa. Batinga me ensinou que quando você viaja, o conhecimento que você aprendeu só você tem. Você sabe que existe escada rolante, que o trem fecha, sabe pra onde vão aquelas letras na Suíça, que têm 500 consoantes. Que o ônibus na Alemanha chega na hora. Você descobre que com a capacidade de ser gentil - de se expressar e usar muitas linguagens - você come, você bebe, você dança e você vive. Aprendi na China que os vendedores choram muito. Você tem que regatear bastante. É aquele negócio igual ao vendedor de rede de Caicó, que fica pedindo para a pessoa botar preço. Eles fazem a mesma coisa.
ZONA SUL – O vendedor de Caicó pede R$ 200,00 por uma rede, a pessoa oferece R$ 5,00, e o cara termina topando vender por 10 reais.
CIRO – Na China ele pede 200, você bota dois. Ele fecha por três e ganhou mil em cima de você. Você acha que fez um belo negócio, mas eles são quem fizeram. A China me ensinou que o poder não se exerce só com a força das armas. É também através do olhar, da expressão. Na Holanda fomos ao bairro livre. É deprimente, foi terrível. Todos os caras que estavam na minha turma eram da geração que teve contato com a droga e curtiam no imaginário a praça livre, a droga livre. Foi talvez a experiência mais deprimente para todo mundo. Você ver o cara se drogando na praça, caindo. A terra do sexo livre, você vai naquele bairro do sexo, é punk. A mulher na vitrine, é terrível.
ZONA SUL – Por que você voltou para Natal e o que anda aprontando por aqui?
CIRO – Me dei conta de que fui para São Paulo fazer o que Roberto Mendes canta em uma música: "aprender a ler para ensinar aos meus camaradas”. Toda experiência que tive em São Paulo foi cumulativa para eu voltar e ensinar aos camaradas que não puderam ir. Por que, pra mim, o conhecimento não é algo que você pega e guarda. Eu tive a chance de ir, não foi um privilégio.
ZONA SUL - Valeu à pena?
CIRO – Muito, foi uma experiência única. Mas fui para voltar, não para ficar. Porém, desde a época em que decidi retornar a Natal até concretizar essa tomada de posição, decorreram seis meses. Tive que acabar um casamento, mudar minha vida completamente. São Paulo é como se fosse uma droga: faz três anos que estou em Natal e não voltei lá ainda. Não foi por falta de dinheiro para a passagem. Mas voltei para Natal porque a cidade está precisando de gente que pense as coisas. A leitura que faço da volta é que aquele era o momento estratégico para eu voltar pleno, porque eu fui menino. Pra mim, a experiência de São Paulo e a das Rocas é a mesma. Só mudou o caldo e o tamanho. Foi bom voltar porque me permiti fazer rádio, que era o que lá dentro eu sempre quis fazer, mas não tinha serenidade. Faço um programa em uma emissora de Ceará Mirim. Toco uma rádio que estava fechada. Montei um modelo de rádio lá em Sumé, que hoje é a rádio mais premiada da Paraíba. Estou replicando para uma emissora lá em Cuité. E aqui na minha terra eu não fazia isso. Então, estou fazendo essa experiência. Por que voltei? Porque acho que chegou a hora de eu devolver o que os caras daqui pagaram de imposto para eu estar lá. Alguém pode dizer que isso é ingenuidade. Não é: o cara pagou imposto para eu chegar lá. Só estudei em escola pública, foi imposto do cara. É curioso quando o cara olha pra mim e me encontra fazendo rádio às 6h45 da manhã botando quente, fervendo. Acordando as pessoas com notícia, mas com estilo, energia.
ZONA SUL – Como ouvir o seu programa?
CIRO - A rádio pode ser sintonizada em Ceará Mirim, na Zona Norte e até na Justin Tv (http://pt-br.justin.tv/fmmetropolitana). Ainda não temos página na Internet. Nessa emissora eu faço exatamente o que consta nos livros e eu ensinei a vida inteira nas universidades. Tenho enfrentado resistência das pessoas. Você chega explicando e o cara “eu sei fazer, quem é você?”. Aí você faz um curso desses e explica quem é você, e quem ta fazendo o curso é Tim Kawasaki, é Nilson Freire, que quando acaba rasga você num elogio de cima pra baixo. No final de junho estreei o “Programa Clube Notícia”, com comentários de Juliska Azevedo, na “Clube FM”, em Natal. As pessoas quando me viram na televisão diziam que não sabiam que eu fazia televisão. Dei aula de televisão. São Paulo me permitiu ser da primeira turma de especialização em telejornalismo da parceria estabelecida entre a USP e a TV Globo. Tinha aula dois dias na USP e dois na Globo. Todos os caras na Globo - Alice Maria, Bonner e os que a gente não vê – participaram. Tive esse privilégio. Na volta a Natal, fui o primeiro editor de política do Novo Jornal.
ZONA SUL – Você está com esses programas de rádio e também no Tribunal do Trabalho.
CIRO – E ainda faço assessoria de imprensa pra um bocado de gente.
ZONA SUL – Como o leitor que se interesse por mais informações a seu respeito pode encontrá-las na internet?
CIRO – Vai achar nesses dias em um blog que já está pronto e vai se chamar de Ciropédia. Vai ter minhas aulas, palestras, coisas de conteúdo que eu escrevo, como os textos para O Poti. Vou juntar tudo isso nesse site. O nome é sugestão de Vicente Serejo: Ciropedia, a educação de Ciro. Lá vão estar minhas idéias, as coisas que faço de propaganda, de anúncio. É inspirado no livro de Xenofonte. Faço um monte de coisas que muita gente não sabe. Por exemplo, sou mestre de cerimônias. Fui mestre de cerimônia do Festival de Artes de Natal, em um festival de música dos funcionários do TRT e na entrega do prêmio da Comunicação e Justiça. Funciona porque eu dava aula pra 160 caras em São Paulo. Ou você bota os caras na mão ou está morto.
ZONA SUL – Deixe um recado pros leitores do Zona Sul.
CIRO – Antes eu gostaria de dizer que estou de vida nova, vivendo com Gracita Lopes, uma moça com quem eu queria namorar há 20 anos, e agora estou vivendo com ela. Hoje topei fazer esse papo aqui, dar um nó na minha agenda, porque morei dez anos da vida na Vila de Ponta Negra. Ainda tenho uma casa lá, foi Gracita, minha mulher hoje, quem fez o projeto da casa. Dois filhos nasceram lá. Hoje eu tenho certeza que sou um instrumento dessa coisa que é maior, o bem querer. Eu voltei por isso. “Pra ensinar meus camaradas a ler”. Ler pelos olhos do bem querer.  





2 comentários:

  1. Outra boa entrevista, tirada da cartola, parabéns aos três...

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  2. Parabéns pela entrevista Ciro Pedroza!!! Está faltando um livro, sobre sua vida, suas aventuras e suas histórias!!!

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