sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Entrevista: Valdir Julião

O OPERÁRIO DA NOTÍCIA

José Valdir Julião comemora, em fevereiro de 2014, 35 anos de jornalismo. Apesar de há quase três décadas e meia estar correndo atrás da notícia para bem informar aos seus leitores, esse cerro-coraense ainda não demonstra sinais de cansaço. Ao contrário: ele continua tão entusiasmado com o que faz que sequer cogita trocar a caderneta de anotações e o gravador – ferramentas que utiliza para arrancar as declarações que se transformarão em manchete do dia seguinte – por softwares manuseados pelos editores como Quark Express e Pagemaker. A conversa com Julião ocorreu via Skype, no comecinho da noite de uma sexta-feira. Convido o leitor a acompanhar a história que Julião me contou. Os créditos das fotos são de João Maria Alves, o primeiro fotojornalista sindicalizado do Rio Grande do Norte. (robertohomem@gmail.com)

JULIÃO – Antes de qualquer coisa, quero registrar que essas entrevistas que o Zona Sul tem publicado são maravilhosas. Por aqui já passou gente de todo o tipo: tanto pessoas humildes, como outros que têm uma posição vitoriosa na vida e na carreira. Adorei, por exemplo, a entrevista que você fez com o jornalista João Bosco. Ri demais com as histórias que ele contou.
ZONA SUL – Naquela ocasião, durante mais de quatro horas Bosco foi sabatinado por mim e pelo repórter fotográfico Roque de Sá, aqui de Brasília; e por meu irmão Ronaldo Siqueira e o jornalista Roberto Fontes - via Skype - aí de Natal.
JULIÃO – Com Bosco você recolheu histórias para publicar um livro. Comigo vai ser diferente, sou um cara do interior, um matuto...
ZONA SUL – Bosco também conta muitas de suas histórias em seu blog, que pode ser acessado no endereço http://www.assessorn.com/. Vale a pena conferir.
JULIÃO – Vou dar uma olhada, até porque gosto muito dele. Mas acho que já podemos começar a nossa conversa.
ZONA SUL – Onde você nasceu?
JULIÃO – Em Cerro Corá, no dia 13 de abril de 1958. A cidade tinha acabado de se emancipar politicamente de Currais Novos. Nasci na Maternidade Clotilde Santina. O nome foi escolhido em homenagem à filha de Sérvulo Pereira de Araújo, magnata da scheelita no Rio Grande do Norte entre os anos 1940 e 1960. Ele foi dono da Mineração Bodó, que, embora explorasse minério no município de Santana do Matos, tinha escritório em Cerro Corá, devido à maior proximidade com Natal e ao fato de Sérvulo ser filho de um dos fundadores da cidade, Tomas Pereira de Araújo (primo do ex-governador Cortez Pereira). Essa maternidade foi uma das primeiras do Rio Grande do Norte a ser administrada pela extinta Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Os apartamentos onde as mães tinham os seus bebês levavam nomes de minérios. Eu nasci na sala “Berilo”.
ZONA SUL – Seus pais faziam o que da vida?
JULIÃO – Meu pai, José Julião Neto, foi eleito 12 vezes vereador de Cerro Corá. Também foi vice-prefeito e chegou a assumir a prefeitura durante um ano, em 1971. Ele era filho do que naquele tempo se chamava tropeiro. Era o cara que saía em lombo de burro negociando em uma cidade e outra. Meu avô era lá do Pataxó, do Vale do Açu. Depois ele mudou para São Romão, que hoje é Fernando Pedroza. Ele andava no sertão vendendo as mercadorias que transportava em tropa de burro. Como meu pai não queria essa vida, meu avô pediu a um amigo, lá em Santana do Matos, que o empregasse e ensinasse a ele o ofício do comércio, das vendas no balcão de mercearia. Depois meu pai mudou para Cerro Corá, onde fez muitos amigos. Pelas mãos de Chico Canário, que não queria mais mexer com política, meu pai foi eleito vereador. Só saiu da política em 1976, depois que perdeu uma campanha para a prefeitura.
ZONA SUL – A vida de um vereador nas pequenas cidades do interior do estado não era como hoje...
JULIÃO – Naquele tempo o vereador não ganhava dinheiro, nem tinha salário. Só se dedicava à política aquelas pessoas que gostavam de prestar favor. Meu pai era um desses. Por exemplo: naquela época ele era o doador de sangue da cidade. Hoje em dia, ainda é difícil conseguir quem faça isso. Ele salvou muitas vidas doando sangue na maternidade onde eu nasci. Meu pai foi dono de padarias e abriu falência várias vezes por causa da política. Ele também gostava muito de jogar futebol, mas costumava dizer que só conseguia um lugar no time porque era o dono da bola. Não jogava porra nenhuma!
ZONA SUL – Por qual time ele torcia?
JULIÃO – Pelo Botafogo e pelo América de Natal. Começou a torcer pelo Botafogo em 1948, com 18 anos, quando o time – depois de mais de duas décadas sem ser campeão – venceu o Vasco por 3 a 1, lá no antigo estádio de General Severiano. Naquele tempo se ouvia muito, em rádios a válvula, as emissoras do Rio de Janeiro, como Nacional, Globo e Tupi. Ele começou a torcer pelo Botafogo por ter achado engraçada a história de Biriba, um cachorro preto e branco que se tornou amuleto da sorte do time. Toda vez que o diretor Carlito Rocha levava Biriba para o gramado, o Botafogo ganhava. O time tem muito dessas superstições. Naquele ano de 1948, o Botafogo derrotou o Vasco e foi campeão com Biriba entrando em campo. Por causa dessa história engraçada, meu pai simpatizou com o Botafogo. Por consequência, eu e o meu irmão gêmeo - José Vanilson Julião, que também é jornalista - viramos botafoguenses. Tornei-me americano ouvindo, pela Rádio Nordeste, a final na qual o América venceu o ABC por um a zero, com um gol de Alemão. (Com a vitória o América forçou uma quarta partida e derrotou o rival por 2x0, com gols de Bagadão e Alemão, levantando o título de campeão estadual de 1969). O ABC era favorito e o América era mais humilde, mais fraquinho.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre a sua mãe.
JULIÃO – É dona de casa, mas quando meu pai teve bar e padaria, ela era uma espécie de anjo da guarda. Meus pais são a confirmação daquele ditado que diz “por trás de um grande homem sempre tem uma grande mulher”. Minha mãe é quem sustentava o tranco no balcão, ou administrando a padaria e o bar. Quando sobrava um dinheirinho, meu pai tirava da gaveta para gastar com time de futebol ou com as pessoas necessitadas de Cerro Corá. Anos depois de ter perdido a campanha política para prefeito, ele arranjou um emprego público na Companhia de Desenvolvimento de Recursos Minerais do Rio Grande do Norte (CDM), atualmente extinta. Quem conseguiu para ele foi o deputado Cipriano Correia. Naquele tempo as pessoas conseguiam se empregar sem concurso. O nome da minha mãe é Damiana Ribeiro Julião, mas ela é mais conhecida pelo apelido de Tinoca. Ela ainda está viva, mas meu pai morreu em 1989, de enfarte, depois de fazer uma cirurgia para troca de válvulas. Meu irmão Vanilson Julião já trabalhou na Tribuna do Norte, Diário de Natal, Jornal de Natal e hoje atua como freelance. Tenho também uma irmã, Maria José Julião, que é dona de casa. A gente a chama de Mariazinha. Minha mãe tinha um irmão gêmeo, que já faleceu, minha irmã é gêmea com nosso irmão que morreu recém-nascido. Uma irmã da minha mãe também teve filhos gêmeos.
ZONA SUL – Até quando você morou em Cerro Corá?
JULIÃO – Até fevereiro de 1975. Para estudar o segundo grau, a gente teve que mudar para Natal. Mesmo financeiramente falido, meu pai fez um esforço enorme e trouxe toda a família para cá. A gente morou em uma vilazinha que ficava onde hoje é a esquina da Romualdo Galvão com a Bernardo Vieira. A gente foi morar lá porque era fácil ir e voltar a pé para a Escola Técnica Federal.
ZONA SUL – O que de mais expressivo você recorda dos tempos de Cerro Corá?
JULIÃO – Tive uma infância normal, dentro das condições da época, sem muitos atropelos. A gente brincava de cavalo de pau, bola de gude, carrinho de rolimã e jogava bola de meia. Cerro Corá era pacata e maravilhosa. A gente não tinha jornais, nem TV. A televisão só chegou na década de 1970. Um compadre do meu pai, que morava em frente, foi o primeiro da rua a ter uma TV em casa. A casa dele virava um verdadeiro cinema pois todos iam assistir a única emissora que pegava, a Tupi. Os sucessos eram “Meu pé de laranja lima”, “A fábrica”... Hoje a gente ainda tem o prazer de rever alguns seriados daquele tempo, como “Jeannie é um gênio”, “A feiticeira” e “Perdidos no espaço”, que faziam o maior sucesso entre a garotada da época. Quando meu pai foi prefeito comprou uma televisão e instalou na praça, em frente à prefeitura. Começou assim a era da mídia eletrônica em Cerro Corá.
ZONA SUL – Você já se interessava pelas notícias?
JULIÃO – Naquela época não havia as facilidades de hoje. Eu costumava ler jornais de outro comerciante da cidade, João Bezerra Galvão. Quando ele vinha a Natal, comprava jornal velho para enrolar sabão. Eu conhecia principalmente “O Poti” e o “Diário de Natal”, que eram as coqueluches da época. João Bezerra deixava esses jornais em cima do balcão. Eu, menino, encostava no balcão e lia esses jornais de enrolar sabão. Por sinal, foi “n’O Poti” que eu vi a famosa entrevista que Alberi deu, dizendo que tinha recebido de luvas uma radiola para renovar seu contrato com o ABC.
ZONA SUL – Como foi trocar Cerro Corá por Natal?
JULIÃO – Uma tia nossa já morava nas Quintas desde os anos 1940. Então, desde os seis ou sete anos a gente vinha para cá passar férias. Naquele tempo não tinha ônibus regular. Hoje também não tem mais, depois dessas crises. Certa vez a gente veio em cima do caminhão de Maria de Chico de Brito, que era comadre da minha mãe. Quando chegou na altura de Macaíba, ele deu o prego. Fui dormir em uma rede, embaixo do caminhão. Só que o caminhão também estava levando para a feira goma, milho, galinha... Acordei às cinco da manhã, o sol já levantando, todo cagado por duas galinhas que estavam bem em cima da gente. Alcancei o tempo em que o cobrador andava com o dinheiro enrolado no dedo para passar o troco aos passageiros.
ZONA SUL – Como foi sua vida estudantil?
JULIÃO – Em 1970, como não tinha o ensino do ginásio em Cerro Corá, meu pai - que na época era vice-prefeito - fez um movimento com alguns amigos e juntos fundaram o Ginásio Comercial Pedro II, que era vinculado à Campanha Nacional das Escolas da Comunidade (CNEC). Depois, quando o governo do estado construiu uma escola, esse Ginásio foi extinto. Fiz as três primeiras séries do ginásio em Cerro Corá. A quarta série fiz em Açu, no Ginásio Estadual JK. Fui com meu irmão morar na casa de uma tia. Ao concluir, prestamos um minivestibular para a ETFRN, em 1975. Muitos amigos de Cerro Corá também se submeteram a essa prova. Todos nós passamos, para você ver o nível do ensino público daquela época, mesmo em uma cidade pequena do interior.
ZONA SUL – Você concluiu o curso na então Escola Técnica?
JULIÃO – Terminei o curso de Geologia em 1977 e fiz o estágio na Nuclan, que era subsidiária da Nuclebras. Depois fui contratado pela empresa. Trabalhei cinco meses pesquisando urânio em Patos, Campina Grande, Borborema, Dona Inês, São José de Espinharas e Pirpirituba. A gente trabalhava 20 dias e tinha uma semana de folga. Em um desses períodos de descanso, resolvi fazer vestibular em Natal. Como não era bom em Física, Química e Matemática, nem tentei Geologia. Eu poderia ter feito História, mas optei por Jornalismo. Depois que saí da Nuclan, abracei o jornalismo. No próximo ano comemoro 35 anos dentro de redação. Entrei nessa brincadeira e não consegui sair mais. Vou ser dos poucos jornalistas que aposentaram como repórter, na essência da redação. A maioria não aguenta o tranco, o repuxo. Vira publicitário, assessor de imprensa ou dono de jornal, ou desiste da carreira.
ZONA SUL – Onde foi o seu primeiro emprego como jornalista?
JULIÃO - Quando fui estudar jornalismo na UFRN, fui procurar emprego, já que era um cara pobre, liso, solteiro e estava doido para ganhar dinheiro pelo menos para pagar as farras. Um dos meus companheiros de faculdade era o radialista Exmar Tavares. Uma semana depois de eu ter falado para a turma toda que estava querendo trabalhar, ele me procurou. Disse que Givaldo Batista, o Gigi da Mangueira, estava precisando de um repórter. Dessa forma entrei no jornal A República. Minha primeira tarefa foi entrevistar um diretor do América. Hoje em dia o estagiário chega e já ganha uma bolsa do IEL, entregam a ele um telefone, a pauta e orientam a pegar um carro da empresa para ele cumprir seu trabalho. Comigo foi o contrário. Não recebi orientação nenhuma. Chovia torrencialmente na cidade. Peguei um ônibus, fui ao trabalho do meu pai pegar o carro dele emprestado para fazer a entrevista. Muitos anos depois eu soube que esse diretor disse a Givaldo Batista que eu não tinha condições de ser repórter. Como alguém pode analisar um iniciante que nunca tinha sequer entrado em uma redação, na sua primeira pauta? Como prever se esse cara dá ou não para o troço? Pelo menos para ser um jornalista de província, acho que dei o meu recado.
ZONA SUL – Quem era esse diretor?
JULIÃO – Nem vou dizer, para não criar constrangimento. (risos). Mas ele é gente boa, polêmico. Talvez nem lembre mais disso. Mas eu fui trabalhar na editoria de esportes com Givaldo Batista. Como ele também era dublê de editor de polícia, pedia para eu fazer as matérias que Ubiratan Camilo trazia das delegacias. Ubiratan não escrevia, só fazia as anotações.
ZONA SUL – Era igual a Pepe dos Santos.
JULIÃO – Sim. Hoje Pepe vive uma situação difícil, está com mal de Alzheimer, internado há alguns meses e precisando de ajuda financeira. A entrada de Ubiratan Camilo n’A República foi interessante. Ele veio de Recife cumprir em Natal um resto de pena por homicídio cometido lá. Ubiratan me contou que um vizinho xingou a sua esposa e ele, quando chegou do trabalho, foi tomar satisfação. Terminou atirando no rapaz. Em Natal, quando saiu da prisão, desempregado, foi pedir emprego a Lavoisier Maia. O então governador o mandou ir falar com o diretor do jornal A República. Trabalhou uns dois anos com a gente e foi para a Rádio Cabugi. Lá n’A República trabalhei com grandes profissionais como Carlos Morais (editor e jornalista), Franklin Machado (hoje da TV Tropical e Rádio CBN) e Fernando Farias, que foi atleta de basquete e atualmente mora em João Pessoa. Fiquei no jornal até o seu fechamento, no governo Geraldo Melo.
ZONA SUL – Que matéria ou acontecimento poderia simbolizar sua passagem pelo jornal A República?
JULIÃO – Nossa editoria de esportes não tinha sequer carro para acompanhar o treino dos clubes. A gente ia a pé ou de ônibus. Muitas das matérias que redigi foram baseadas em entrevistas transmitidas pelas emissoras de rádio. Para complicar mais ainda, a ordem era fechar a página de esportes às quatro da tarde, horário em que ainda estão rolando os treinos as notícias começando a surgir. Mesmo assim, em 1982 conseguimos ser eleitos pela crítica como a melhor página de esportes de Natal. Paulo Tarcísio era o diretor geral da Companhia Editora do Rio Grande do Norte (CERN), responsável pelo Diário Oficial e pelo jornal. Eu, Carlos Morais e Fernando Baleia fizemos um suplemento sobre a Copa de 1982. Com menos condições logísticas e operacionais, conseguimos bater o Diário de Natal, campeão de vendas no estado, e a Tribuna do Norte, o segundo lugar. Lembrei agora de um personagem interessante, gazeteiro chamado Alberi, que vendia jornais nas redondezas da Rodoviária Velha. Quando acabavam os exemplares do Diário de Natal, ele enrolava ou a Tribuna ou A República em uma capa do Diário e vendia para os matutos no bom sentido. Ele gritava assim: “olha o Diáris!”. Fazia isso para ganhar o dinheirinho dele.
ZONA SUL – Com o fechamento d’A República você foi fazer o que?
JULIÃO – Passei um tempo como plantonista esportivo na Rádio Tropical, levado pelo jornalista e amigo Wilson Gomes. Depois de oito meses, saí por razões que não vale a pena comentar agora. Foi bom porque adquiri uma experiência no rádio que eu não tinha. Quando saí da rádio, Roberto Guedes me chamou para ser subeditor do jornal Dois Pontos. Ele era o diretor de redação. Quando Roberto saiu, continuei lá. Um dia, perto do feriado de 7 de setembro de 1989, fui visitar meu irmão na Tribuna do Norte. A gente tinha combinado de sair para tomar uma, depois do expediente. É difícil ter um jornalista que não seja boêmio, você sabe bem disso. Roberto Guedes era o editor de política da Tribuna. Quando me viu, perguntou: “quer vir para cá?”. Eu perguntei se era para começar na segunda-feira. Ele disse que não: era para iniciar já no dia seguinte. Véspera de 7 de setembro, uma quarta-feira, comecei na Tribuna do Norte.
ZONA SUL – Lá você começou trabalhando em qual editoria?
JULIÃO – Política. Daquele tempo para cá, passou muita gente pela editoria, e eu fui ficando: Conceição Almeida, Márcio César, Herbert de Freitas, Aldemar Freire (que hoje é editor), Vicente Neto, Alexandre Cavalcanti, Edilson Braga, Paulo Tarcísio Cavalcanti... Aprendi com todos, mas foi maravilhoso trabalhar com Paulo Tarcísio, um gentleman. Ele só tem um defeito: é torcedor do Fluminense. Na editoria geral passaram vários, como Talvane Guedes, Roberto Guedes, Osair Vasconcelos, Edilson Braga, Paulo Tarcísio e, agora, Carlos Peixoto.
ZONA SUL – Como é trabalhar em um jornal que pertence a uma das mais tradicionais famílias políticas do Rio Grande do Norte?
JULIÃO – É mais fácil. A linha editorial da Tribuna é conhecida por todos. Complicado é estar em um veículo sem saber quem é o dono ou quem manda. Não tive muitos problemas, tanto é que estou lá há tanto tempo. Não tenho muito a reclamar. Teria com relação ao salário, mas a gente sabe que jornalista não ganha. Quem quiser enricar, vai ter que ser em outra profissão.  
ZONA SUL – A questão salarial dos jornalistas parece ser mais complicada aí do que na maioria dos estados.
JULIÃO – Quem está começando agora no jornalismo e é contratado para receber o piso, enfrenta séria dificuldade. Com a Internet, cada dia estão exigindo mais do jornalista, mas não está havendo uma contrapartida. Isso é contraditório.
ZONA SUL – A dificuldade salarial não é específica de um veículo. Alcança até os jornalistas que trabalham no Governo do Estado. Eu soube que o salário pago hoje não sofre alterações há mais de 15 anos!
JULIÃO – Eu ia dizer isso a você agora. É o mesmo salário de quando Garibaldi Filho deixou o governo. De 1995 pra cá é o mesmo salário.
ZONA SUL – Você foi eleito para compor a diretoria do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte.
JULIÃO – Eu não estava pensando em ingressar em nenhuma chapa, entrei por acidente. Eu já tinha sido duas vezes do Conselho Fiscal. Dessa vez eu só topei entrar em uma chapa porque achava que ela seria única, não haveria disputa. Só soube que teria concorrência quando fui fazer a minha inscrição. Mas aí eu já tinha comprometido a minha palavra, não ia quebra-la. O jornalismo é uma categoria diferenciada, onde o corporativismo não é tão acentuado quanto em outras categorias. É muito difícil tocar uma política sindical sem haver união, sem que as pessoas se ajudem ou compareçam ao sindicato. A gente está iniciando essa gestão e vamos ver no que vai dar. O Breno Perruci é uma pessoa boa e bem intencionada.
ZONA SUL – E do seu trabalho na Tribuna, o que você destacaria?
JULIÃO – O que mais me gratifica no jornalismo não é premiação, nem salário enorme. É o feedback da rua. É quando vou cruzando uma esquina e alguém comenta que gostou de determinada matéria que eu escrevi. Ou então quando uma fonte confessa que prefere me dar entrevista porque sabe que suas ideias não serão deturpadas. Dia desses Demétrio Torres me disse: “Julião, você não repete ipsis litteris o que é dito, mas transmite com fidelidade o pensamento e a ideia do entrevistado”. Isso não é uma questão de ter o ego massageado, mas é um importante reconhecimento. Nas redações os elogios são escassos. Por isso, quando um companheiro de jornal faz uma boa matéria, gosto de ir ao pé do ouvido dele para cumprimenta-lo.
ZONA SUL – Você é um repórter da época da máquina de escrever. Trace um paralelo daquela época para a de hoje.
JULIÃO – Hoje está uma maravilha fazer jornalismo com as informações disponíveis na Internet. Mas tem que saber usar. Por exemplo: notícias de Brasília, que demoravam meses para chegar por aqui, agora estão disponíveis nos sites da Câmara ou do Senado Federal. É só recolher aquela informação e contextualizar entrevistando mais três ou quatro políticos e a matéria está pronta. Naquela época, além da escassez de informações, o repórter escrevia a matéria com três cópias, utilizando papel carbono. Para alterar o texto, depois de ele iniciado, geralmente tinha que rasgar o que já estava pronto para começar tudo de novo. Além disso, hoje o Doutor Google aqui e acolá auxilia a gente.
ZONA SUL – Se facilitou por um lado, por outro provocou a distorção de todo mundo hoje se achar jornalista. Foi melhor ou pior, para o jornalista, esse progresso?
JULIÃO – Foi melhor, até porque o jornalista, na essência, sempre será um jornalista. Os blogs proporcionaram oportunidade para pessoas que não tinham essa possibilidade, de se comunicar. O cara que não era dono de veículo não tinha acesso a nada. Hoje, ou escrevendo bem ou mal, ou divulgando a notícia correta ou não, ele pode ter o seu blog e virar também emissor de informação. Mas, no frigir dos ovos, quem entende e sabe o que é jornalismo, consegue diferenciar onde tem informação que vale a pena nessa enxurrada de notícias que povoa a internet.
ZONA SUL – Ao completar 35 anos de profissão você vai pedir aposentadoria?
JULIÃO – Estou com um grande dilema. Esse tal de fator previdenciário é terrível para o trabalhador. O salário já é uma merreca e fica menor ainda quando a pessoa se aposenta. Por isso estou analisando se me aposento ou não. Mas, mesmo que me aposente, não vou deixar de trabalhar porque acho que é muito chato o cabra ficar sem fazer nada em casa. Quero me manter em atividade pelo menos meio expediente. No restante do tempo posso investir em jornalismo online. Já estou treinando no blog que criei dedicado a Cerro Corá.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre esse seu blog. Como surgiu a ideia?
JULIÃO – Em termos de design, meu blog não é esse balaio todo. Uso só a plataforma de blog e pronto. Ele é uma maneira de eu ir treinando, mas também de resgatar a história de Cerro Corá e do seu povo. Quem quiser, pode conhecer no endereço http://cerrocoranews.blogspot.com.br/. Ele não é campeão de audiência porque no meu blog não entra crime nem violência. É um espaço para resgatar a memória e falar da cidade e do povo cerro-coraense.
ZONA SUL – Você comercializa espaço para anunciantes em seu blog?
JULIÃO – O curso de Jornalismo deveria criar uma cadeira de gestor em comunicação, ou algo parecido. É difícil achar um jornalista que saiba correr atrás de anúncio. Eu não sei. Acho que vou ter que aprender, para que o blog tenha alguma rentabilidade.
ZONA SUL – Em qual perfil de jornalista você se enquadraria?
JULIÃO – Meu estilo não é lírico, nem poético. É mais feijão com arroz, ou pé de balcão. Gosto de dar a notícia, de oferecer um dado, uma informação. Mas vou começar a ler uns jornalistas bons que nós temos, como Rubens Lemos Filho. Ele tem um texto espetacular! Paulo Tarcísio e Vicente Serejo também. Vou me espelhar neles para ver se escrevo alguns “causos” que eu presenciei, erros que cometi e sacanagens que fizeram comigo. Como já tenho uma filha, só falta plantar a árvore e escrever esse livro.
ZONA SUL – Qual teria sido seu grande furo no jornalismo?
JULIÃO – Certa vez escrevi um textozinho, uma notinha, e no dia seguinte caíram dois secretários de Estado, no governo José Agripino. Mas foi sem querer. Em outra ocasião, quando caiu um helicóptero da Petrobras em Guamaré, eu e o repórter de polícia de A República conseguimos com exclusividade a relação das onze pessoas que tinham morrido naquele desastre. Mas era um sábado à tarde e o jornal já havia fechado. Ficamos com aquele furo na mão. Tem gente que acha que a notícia está como em uma prateleira de mercearia, e a gente vai lá e pega. É conversando que a gente consegue uma notícia. Às vezes a gente tem que ter paciência para construir uma informação. A notícia não tem hora marcada. Pode acontecer de ela passar na frente e a gente nem perceber. Para conseguir um furo, é preciso ter um bom ouvido e bons olhos. Um dia eu estava no Tribunal de Justiça, sem notícia nenhuma. Valdeci Santana era o assessor de imprensa de lá. Ele me levou para falar com o presidente, o saudoso Ítalo Pinheiro. Durante a conversa, entrou um assessor e, sem atentar que eu era jornalista, passou uma informação importante, que eu não lembro qual era. Na mesma hora percebi que tinha encontrado a manchete do dia seguinte. Quando o assessor saiu, Ítalo Pinheiro teve que me detalhar essa informação.
ZONA SUL – Fale sobre a sua família.
JULIÃO – Tenho uma filha apenas, porque jornalista não pode ter mais de um filho. Como vai educar? Comer o feijão, a rapadura, o macarrão, a melancia, o jerimum, uma pizza com camarão, isso é fácil. Complicado é custear a educação e a saúde. Por não confiar nos serviços públicos, a gente tem que tirar do nosso parco salário para pagar um plano de saúde e uma escola particular para os filhos. Minha filha, Ana Vanessa Julião, acabou de se formar em Farmácia. Minha esposa, Ana Selma Julião, tem um ateliê na garagem lá de casa. Ela é o suporte da família. Nasceu em Santana do Matos, mas gosta mais de Cerro Corá do que da terra dela.
ZONA SUL – Gostando tanto de Cerro Corá vocês não planejam morar por lá quando a aposentadoria chegar?
JULIÃO – Um primo já me deu um terreno, só falta arrumar o dinheiro para construir um chalezinho. Quero que o local tenha um espaço amplo para eu botar uns livros, instalar uma TV de 50 ou 60 polegadas. Quero assistir bangue-bangue em preto e branco, principalmente estrelado por John Ford e John Wayne, e alguns clássicos do cinema. Também vou ter lá um computadorzinho e uma rede para me balançar. De lá mesmo posso ter na Internet um jornalzinho online. Não é obrigado estar em Natal para acompanhar as coisas.
ZONA SUL – E esse livro que você pretende escrever? O que pode ser adiantado sobre ele?
JULIÃO – Quero escrever sobre o dia a dia que vivenciei. Já tem muita publicação a respeito de teses e sobre o lado acadêmico do jornalismo. Pretendo explorar o ambiente na redação, o relacionamento com as fontes, a dificuldade que é entrevistar alguém que “trava” quando se aproxima de um microfone. Tem outros que só falam em um papo informal. Se for um pingue-pongue, não sai nada. Certa vez fiz uma entrevista de página inteira que eu só transcrevi por obrigação, porque era pago para isso. O cara não tinha dito coisa com coisa. Quando o editor viu, refugou a matéria. Tem hora que o repórter pensa que pode ter sido ele quem não elaborou bem as perguntas. Mas se ele arrodeou de todo jeito, e o cara não respondeu... São esses episódios que quero botar no livro: as pressões que a gente sofre, as bobeiras que a gente também comete. Por falar em livro, queria aproveitar para sugerir aos filhos de Eugênio Neto que resgatem e publiquem as histórias inéditas que ele vinha escrevendo antes de morrer. Convivi com Eugênio Neto na cobertura da Assembleia Legislativa. Eu cobrava muito dele a publicação desse livro. Ele tinha muito o que contar. Costumava dizer que quando era adversário de Aluízio Alves publicou um livro de um jeito. Quando voltaram a ser amigos, tirou todos os ataques e publicou o livro dizendo o contrário. Nesse livro que pretendo publicar quero contar a história dos amigos também. Muita gente acha que o jornalismo é glamour. Mas a gente passa por muitos problemas. Meu livro não é para ser best seller. Acho que nem lançamento eu quero.
ZONA SUL – Mas tem que lançar. Em Natal se vende mais livro em lançamento do que nas livrarias.
JULIÃO – Até hoje só comprei um livro em lançamento. Até porque não sobra muito dinheiro para jornalista comprar livro. Fui ao lançamento do livro de fotografia de João Maria Alves, editado pelo Sebo Vermelho. Comprei o livro e ainda tomei uma cervejinha, à custa de Abimael.
ZONA SUL – Agora só falta você deixar um recado para o leitor do Zona Sul.

JULIÃO – Quero lhe parabenizar entrevistas que você está fazendo com personagens de todos os níveis, gente popular, cantor, artista, gente do povo, seus amigos, companheiros de trabalho, políticos, pessoas com quem você trabalhou... Também quero dar os parabéns a Edson Benigno e ao amigo Costa Júnior. Por sinal, fui eu quem coloquei o nome jornalístico dele. Costa queria assinar como Francisco Pedro da Costa Júnior. Como já existia Francisco Macedo, assinei as matérias dele no jornal Dois Pontos como Costa Júnior. Pegou. Também seria bonito Francisco Costa Júnior, mas eu preferi só Costa Júnior. Quero dar os parabéns ao Zona Sul, que, apesar das dificuldades de se fazer um jornal impresso, continua circulando na cidade. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Entrevista: Charles Dumaresq

DE MALAS PRONTAS PARA O FUTURO

Em uma das últimas tardes de julho, fui à Pastelaria do Beto - na Feira dos Importados, em Brasília (DF) – com Nicolas Gomes e o capitão Claiton “Gancho” Cardoso. Para quem não conhece, nessa feira se encontra todo tipo de bugiganga. O forte é a área de eletrônicos e informática. Nada melhor do que um ambiente desses para entrevistar o analista de tecnologia da informação Charles Dumaresq Madureira Neto. Aos 32 anos de idade, esse potiguar de Natal planeja deixar o território papa-jerimum para alçar voos mais altos em São Paulo ou Brasília. Na bagagem ele tem para mostrar a participação no site de cobertura de eventos NatalX (campeão de acessos que superou o Cabugi.com), a esquematização e colaboração na estruturação de empresas como a GESTCON (Gestão de Condomínios) e – com o parceiro Ranieri Andrade – o protagonismo no último Jailbreak. Fazer Jailbreak significa alterar o sistema operacional IOS, da Apple, para permitir aos usuários de Ipads e Iphones personalizar e instalar aplicativos livremente em seus equipamentos. Charles e Ranieri foram os responsáveis por apontar a falha de segurança que permitiu essa quebra. Agora ele está envolvido em um projeto que permite, por exemplo, que eu – morador de Brasília – tenha um ramal em Natal para receber ligações. Quem ligar para mim pagará o preço de uma ligação para telefone fixo. Mas Charles não está satisfeito, ele quer mais. Quem duvida que esse ex-gordo (chegou aos 150 quilos e hoje está com 94) conseguirá alcançar seus objetivos? Eu não. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Como você gostaria de começar essa entrevista?
CHARLES – Lembrando um amigo, Caio César. Se estivesse vivo, seu aniversário seria hoje. Morreu de um ataque cardíaco fulminante, aos 41 anos de idade. Acordou, tomou café e depois parou.
ZONA SUL – Nós vamos conversar sobre “vida”... No caso, a sua.
CHARLES - Quando nasci, meus pais moravam no pé do morro de Mãe Luiza, onde hoje é a “Faz Propaganda”. Depois mudamos para Areia Preta, Barro Vermelho, Neópolis e Parnamirim, onde morei dez anos.
ZONA SUL – Fale sobre os seus pais.
CHARLES – Meu pai, Eugênio Sérgio Bezerra de Oliveira, é fisioterapeuta concursado da Assembleia. Era surfista, roqueiro e doidão. Meus pais separaram muito cedo. Não tenho recordação dele com a minha mãe, que sempre foi do lar. Meu avô, por parte de mãe, foi presidente do Iate Clube: Charles Dumaresq Madureira. Dele herdei o nome. Meu bisavô foi um dos fundadores da Labre (Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão). É uma associação que congrega os radioamadores. Meus avôs sempre tiveram restaurante: Iate Clube, AABB... Meu avô é responsável pelo crescimento da estrutura da Lagoa do Bonfim. Ele era dono de mais da metade daquelas terras. Ajeitou o restaurante e mandou organizar a área de piscina e de banho. Já o meu avô por parte de pai chegou a ser secretário de Finanças do Rio Grande do Norte. Ele deu uma organizada geral na parte de arrecadação de tributos. Seu nome era Francisco das Chagas. Começou como jornalista. Foi muito amigo de Agnelo e Aluízio Alves. Integrou as primeiras equipes do Diário de Natal e da Tribuna do Norte.
ZONA SUL – Como seu pai virou “doidão” e surfista sendo filho de um jornalista e secretário de Finanças?
CHARLES – Ele realmente não teve a quem puxar. Talvez seja coisa da rebeldia típica da geração anterior. Na família, sou a sucessão dele. Meu pai sempre gostou de rock, minha veia roqueira, herdei dele. Apesar das dificuldades de logística, meu pai gostava de consumir produtos de fora. Consumia fervorosamente discos e selos. Até hoje ainda mantém contato com pessoas do mundo todo devido a essa atividade como filatelista. No rock, ele gostava da rebeldia de Jim Morrison, dos The Doors, de Pink Floyd, dos Beatles... Também se ligou no surf. Naquela época, surfista era marginalizado. O curso de Fisioterapia, que ele escolheu, também não era bem visto. Meio pai sempre teve uma visão na frente das coisas.
ZONA SUL – Como seus pais se conheceram?
CHARLES – Minha mãe, na época, era estudante. Morava em frente à Igreja do Galo. Um dos nossos primos, o teatrólogo Paulo Jorge, foi quem os apresentou. Começou como amizade, depois se envolveram. Quando minha mãe engravidou de mim, tiveram que casar. Passaram um tempo juntos, mas separaram. Tempos depois, voltaram e tiveram meu irmão. Separaram novamente. É por isso que praticamente não existe, na minha memória, lembrança dos meus pais juntos. Até porque, pouco tempo depois de ter sido aprovado no concurso da Assembleia, conheceu a atual esposa dele e foi deslocado para trabalhar em Currais Novos. Está lá há mais de vinte anos. Na minha infância e adolescência, praticamente o via uma vez por mês. Hoje somos mais próximos, temos contato quase toda semana.
ZONA SUL – Onde você estudou?
CHARLES – Desde o maternal até o segundo ano do segundo grau, estudei no Auxiliadora. Antes, passei dois ou três meses no Instituto Brasil. Fiquei na Congregação Salesiana até o 2º ano do 2º grau. Estava morando em Parnamirim, o transporte era difícil e o Pré-Vestibular era à noite. Por isso troquei o Auxiliadora pelo Colégio GEO, que era mais perto e tinha um bom conceito. Fui aprovado no vestibular para Computação, mas só fiquei dois meses. Não gostei. Fui fazer cursinho no CDF. Passei novamente, dessa vez para Engenharia de Materiais. Fiquei uns três quatro anos, mas desisti. O curso não me motivou e o corpo docente também contribuiu para eu desistir. Da metade para o final eu ia para a faculdade só tomar cachaça. Então meu pai sugeriu que eu procurasse algo que quisesse fazer.
ZONA SUL – O que você escolheu?
CHARLES – Sempre cogitei estudar Administração, mas eu tinha o preconceito de que só fazia Administração o filho de um pai que fosse dono de algum negócio para ele tomar conta. Por isso não optei desde o princípio por Administração. Quando surgiu essa nova chance, resolvi arriscar. Na época eu já tinha envolvimento com o pessoal de Publicidade. O problema é que eu não tinha “feeling” para a coisa. Não combinava comigo ter sempre um cara junto, com um tridente, cutucando, cobrando criação. Eu conseguia fazer tudo, mas no meu tempo. Não gostava era da pressão. Por isso, resolvi fazer Administração e me encaminhar na área do Marketing. No meio do curso, eu já sabia que queria trabalhar fazendo um gancho entre a organização e a publicidade. Ainda cursei um ano acumulando Materiais e Administração. Depois desse período, desisti definitivamente de Engenharia de Materiais e fui fazer Administração, lá na Universidade Potiguar (UnP).
ZONA SUL – Vamos voltar um pouco no tempo, até o período do Auxiliadora. Você sofreu muito para se enquadrar em um colégio que tinha como foco a formação religiosa?
CHARLES - Sempre fui atento a questões que me trazem interrogações. E o espaço, as estrelas e a religião sempre me trouxeram interrogações. Gosto de ler sobre esses temas. Nunca fui uma pessoa 100% católica, apesar de a minha família ser. No Auxiliadora, questionava algumas coisas. Por exemplo: se Deus havia criado o homem e a mulher, por que o meu professor de religião era homossexual? Nada contra o homossexualismo, muito pelo contrário! Mas era contraditório aquele professor falar isso e aquilo e não ser um celibatário. Algumas vezes ia para a escola sentindo vontade de assistir à missa. Nessas ocasiões saía de casa mais cedo, prestava atenção à oratória do padre, tudo direitinho. Em outras ocasiões, a freira tentava obrigar todos a irem à igreja. Eu questionava. Ela dizia que era para falar com Deus. Mas eu retrucava que já tinha falado com Ele ao acordar e no caminho até a escola. Algumas vezes eu ia e, quando chegava à capela, tinha um cara que nem era o padre. Se fosse pelo menos um padre, um cara que estudou para celebrar uma missa com embasamento... Por essas e outras, não fiz primeira comunhão, mas comunguei pela primeira vez por conta própria.
ZONA SUL – E o seu relacionamento com os colegas?
CHARLES – Apesar de eu sempre ter sido gordo na vida, nunca tive problema mais grave por isso. Esse negócio de “bullying” é modismo de hoje em dia. Na época um bulia com o outro na brincadeira, sem problema. Sempre soube me adaptar. Fui gordo na paz. Não deixava que aquela zoação me desmerecesse. Ao contrário, fiz com que aquilo contribuísse para eu crescer. Hoje em dia todo mundo tira onda com esse negócio de “bullying”. Antigamente, ninguém chegava em casa chorando e dizendo para a mãe que fulano o tinha chamado de gordo, careca, cegueta (por usar óculos) ou fanho... Só está faltando inventarem a bolsa-gordo, bolsa-fanho, bolsa-tudo...
ZONA SUL – Como você emagreceu?
CHARLES – Fiz cirurgia bariátrica há sete anos. Cheguei aos 150 quilos, meço 1,80. Resolvi fazer a cirurgia quando surgiram problemas como pressão alta, tendência a diabetes, apneia no sono e o próprio cansaço. Quando trocava uma camisa, saía pingando de suor, morto de cansaço. Dois anos antes de fazer realmente a operação, comecei a pesquisar. Dieta não tinha adiantado. Minha obesidade também era hormonal, familiar... Pratiquei esportes no colégio. Fiz judô, futebol e vôlei. Sempre gostei muito de caminhar. Quando resolvi encarar a cirurgia, meu pai me aconselhou aguardar um pouco, já que aquela técnica estava apenas começando. Dois anos depois fui para a mesa de operação sabendo todo o processo.
ZONA SUL – Você sentiu muita dificuldade para se acostumar com o novo corpo?
CHARLES – Depois da cirurgia, seu estômago fica com um volume muito pequeno, de aproximadamente 50 ml. Por isso é colocado um anel no esôfago, um dosador, para evitar que grandes quantidades de comida desçam e arrebentem o estômago. É comum dar umas golfadas quando não mastiga muito ou come um bico de pão com café e aquilo ali incha. Em alguns momentos é chato, mas tudo é aprendizado no dia a dia. A pessoa tem que aprender a respeitar o seu novo organismo, que nunca mais será o mesmo. Eu fiz há sete anos e estou no meu peso normal. Cheguei a 150 quilos, mas no dia da cirurgia estava com 146. Hoje tenho 94.
ZONA SUL – Você foi bom aluno?
CHARLES – Regular. Ia para recuperação porque não admitia ter que pagar mais uma mensalidade sem estar estudando (risos). Minhas notas eram intermediárias, mas nunca fui reprovado. Mas era bem comportado. Não ficava na brincadeira, nem na baderna. Não chamava atenção para ir pra coordenação. Nunca fui expulso de sala.
ZONA SUL – E na universidade? Conseguiu fazer boas amizades?
CHARLES – Boas amizades, você sempre faz. O negócio é ver se naquele momento elas levaram você para o lugar certo. Mas foi graças a essa turma que pude crescer na vida. Na universidade aprendi como desenrolar para conseguir alguma coisa. Na federal, se você não correr atrás, ninguém vai lhe facilitar nada. Por outro lado, são inúmeras as possibilidades que vão aparecendo: é mulher, é bebida, é festa, é droga... Se você não tiver a cabeça boa, se deixa levar. Na UFRN, foi muito libertino. Era muita brincadeira, fuzarca e cachaça. Durante um ano, tenho certeza que dei um carro zero para Paulo, do Bar do Thomas. A zoação era grande. Em um dos Jogos Universitários do Rio Grande do Norte (JURN's), fomos desfilar bêbados, com dois litros de cachaça e um prato de paçoca. Um levava a bandeira, o segundo uma garrafa de cana, outro com mais uma cachaça e o seguinte com a paçoca. E o reitor lá na frente, sentado. De repente, caras de outras turmas vieram comer da paçoca, foi uma esculhambação muito grande. Daqui a pouco, quando apagaram as luzes para a passagem da tocha olímpica, uns caras correram nus para acompanhar a tocha. Foram muitas as histórias como essa.
ZONA SUL – Então conte mais uma.
CHARLES – Fui da segunda turma de Materiais da UFRN. Como só havia uma turma antes da nossa, quando entramos batemos de frente e não aceitamos ser vítimas de trote. Fizemos um acordo para nos unirmos e fazer um trote pesado com a turma que entraria no ano seguinte. Quando os calouros seguintes entraram, compramos um quilo e meio de betonita, que é uma massa usada nas paredes de buracos, para elas não caírem. Enchemos uma bacia grande com essa massa pastosa e jogamos um por um lá dentro. Depois do mergulho, eles saíam sujos dos pés à cabeça. Os cabelos das meninas duros, quase quebrando. Pegamos esse povo todo sujo, suado, feio e fedorento e levamos para pedir dinheiro no sinal. Aquilo fede que só a moléstia. Mandamos juntar dinheiro para um churrasco que seria na semana seguinte. Fizemos o tal churrasco em São José de Mipibu, na granja de um amigo. Mas distribuímos com os calouros um mapa de uma casa qualquer em São Gonçalo do Amarante. No dia recebemos várias ligações dos calouros, que não estavam encontrando a casa. Respondíamos: “é aqui, estamos todos esperando, entra na segunda rua...”. E eles rodando de um lado para o outro... A experiência na UFRN fez com que eu chegasse na UnP e desenrolasse tudo tranquilo. Foi na universidade que aprendi realmente a viver. Foi lá onde tive a formação pessoal e profissional e aprendi a correr atrás e não ficar esperando.
ZONA SUL – Na UnP você continuou com a rotina de ir para a universidade beber?
CHARLES – Não. Cheguei lá como outro aluno. Eu não queria ter amizade ou contato com ninguém. Falava extremamente o necessário, porque eu já tinha passado por esse turbilhão todo. Já sabia o que ia acontecer. Eu dizia muito: “se eu quisesse amigo ia pro shopping, vim aqui pra consumir aula, quando acabar, conversamos”. Vi vários alunos passando pelo que eu tinha passado na federal. Não haviam adquirido a bagagem e o jogo de cintura que eu havia adquirido. Devido a essa experiência, consegui tudo o que queria na particular, apenas com conversa. Eu sabia como chegar e dialogar com o professor. Sabia o que podia e o que não podia exigir, o que eles davam e o que não permitiam.
ZONA SUL – Durante o período de estudo você trabalhou?
CHARLES – Meu pai sempre disse que enquanto eu estivesse estudando, me dedicando aos estudos, não precisava ir atrás de trabalho. Eu recebia minha mesada. Fui correr atrás de trabalho quando estava saindo da federal e indo para a particular. Paguei metade do curso na UnP. A outra metade foi meu pai. A pós-graduação eu também paguei. Na UnP a minha concepção não era a mesma da maioria dos alunos. Para começar, eu tinha uma idade mais elevada que a galera que estava entrando. Eu já tinha gastado o tempo de brincar, de poder errar. Minha obrigação era fazer a coisa certa.
ZONA SUL – Em que você foi trabalhar?
CHARLES – Minha vida toda eu tinha consumido tecnologia. Meu amigo Ranieri de Lira Andrade estava nessa mesma situação. Nos unimos e criamos uma empresa de consultoria em tecnologia. Nunca precisamos correr atrás do mercado. Nos sete anos que mantivemos a empresa, o mercado nos procurou. Sempre alguém indicava o nosso trabalho. Devido a essa experiência, peguei muito da prática de organização. Como eu já estava cursando administração, pude focar na fusão da parte empresarial com a tecnológica. Eu via no ambiente corporativo o mesmo que estava estudando academicamente. Gostei principalmente da parte de planejamento estratégico e de organização. Então comecei a desviar o meu foco para isso daí. Deixei de lado o modelo de fazer as coisas brincando e investi em um formato mais profissional. Quando estabeleci essa parceria com Ranieri, ele vinha tocando com outros amigos um projeto que fez muito sucesso na Internet, o NatalX. Era um site que funcionava como um ponto de encontro da juventude potiguar. Para você ter ideia, ele teve mais acessos que o Cabugi.com
ZONA SUL – Fale um pouco sobre o NatalX e explique por que ele acabou.
CHARLES – O NatalX surgiu há uns dez anos. Foi ideia de Ranieri. Não havia aquela visão comercial ou uma busca de lucro. A intenção era aproximar as pessoas de Natal, servir como um espaço onde as pessoas poderiam se ver online. O slogan era “onde Natal se encontra”. Entrei já na fase final. Todos éramos jovens, verdinhos e o conflito de ideias fez com que o NatalX acabasse. Em determinado momento, quisemos colocar no mercado o site como sistema de comunidade. Mais ou menos o que seria o Orkut anos depois. Nós tínhamos essa ideia na cabeça, mas alguns integrantes do grupo não compartilhavam dessa visão. Queríamos pensar NatalX como marca, já que é um nome muito forte, uma marca espetacular.
ZONA SUL – Tem dono?
CHARLES – Temos ainda a patente. Tudo pago, bonitinho. Dá para fazer muita coisa com esse nome ainda. Propusemos criar a grife NatalX, dar para a galera vestir o nosso conceito. Mas alguns dentro do negócio não concordaram. Alegavam que NatalX não era o cara que estava consumindo a ideia, mas nós, os idealizadores e os que estávamos tocando o site. Da proposta de criar uma comunidade para todo mundo conversar, o máximo que conseguimos foi construir um mural. Mais do que isso não concordaram. A alegação era de que quanto mais pessoas criassem um perfil no NatalX, mais gente se sentiria dona do site. Se for parar para pensar, nossa linha era direcionar o site para o que são hoje as redes sociais. Muitos dos que naquela época batiam de frente com essa ideia, hoje pagam pau nas redes sociais. O sucesso do NatalX pegou todo mundo desprevenido. Minha participação não foi tão grande porque já entrei do meio para o final. Foi surpreendente um site formado só por criança bater em número de acessos o Cabugi.com – que tinha todo o fomento da televisão e dos principais jornais. Ganhamos até prêmio Ibest de site de entretenimento mais bem colocado. A imaturidade das pessoas fez com que se botassem os pés pelas mãos. Foi quando Ranieri, que era o detentor oficial da marca, saiu. Pedi pra sair também, saiu mais outro e se criou uma ruptura. Uma galera ainda ficou tentando manter o NatalX. Passaram uns seis meses, até que retiramos a autorização para o site funcionar e ele saiu do ar.
ZONA SUL – Como estão os planos para reutilizar a marca NatalX?
CHARLES – Tem vários projetos, mas cada coisa tem seu tempo e sua ocasião. Uma das ideias é bolar algo onde o natalense pode passar informações sobre sua cidade. Um barzinho que acha legal, um restaurante, um ponto turístico. Mais ainda: estender esse serviço para os quatro cantos do Brasil, juntar informações de natalenses espalhados pelo país. Criar essa afinidade entre os próprios natalenses. Em função de toda a tecnologia atual, a potencialidade da coisa cresceu muito mais.
ZONA SUL – Fale sobre a empresa de consultoria que você montou quando foi cursar Administração na UnP.
CHARLES – Éramos contratados para destrinchar toda a área tecnológica da empresa. Levei para sala de aula muitas dessas experiências empresariais que eu vivenciei. Eu confrontava com o que estava sendo ensinado. Ao entrar no curso, minha visão era muito ligada à tecnologia. O conhecimento que adquiri em Administração serviu para eu apresentar projetos de TI com uma visão mais abrangente e não apenas de um profissional especializado em tecnologia. Eu preferir fazer consultoria em empresas que estavam realmente começando. Eu recebia informações básicas como o tipo do negócio, a clientela em potencial, o layout pretendido e montava toda uma estratégia, agregando valor. Meu maior laboratório foi a GESTCON, que é uma empresa de gestão de condomínios. Pertence a um amigo, Leonardo Rodrigues Alves, que administrava condomínios verticais e horizontais em São Paulo, e voltou para Natal por questões familiares. Quando comecei esse trabalho, ele só tinha o local da empresa. Nem logomarca havia sido criada. Desenhamos toda a empresa, que depois de um crescimento fenomenal em cinco anos no mercado, já está consolidada. Hoje é referência na gestão de condomínios.
ZONA SUL – Como está sua vida profissional hoje?
CHARLES – Toco alguns projetos. um deles é o “Meu ramal”. É uma operadora VOIP que está funcionando em fase experimental. Queremos oferecer esse produto em todo o Brasil.
ZONA SUL – Como funciona?
CHARLES – Quando qualquer pessoa em Natal liga para o nosso número de telefone fixo (3032-9032), ela ouve uma gravação orientando a discar um número de ramal. Essa ligação é automaticamente transferida o nosso usuário que adquiriu aquele ramal. Por exemplo, uma pessoa que mora no Rio de Janeiro pode ter um ramal aqui em Natal para que seus amigos possam ligar para ele a custo de uma ligação local. Existe também a possibilidade de a pessoa adquirir um número exclusivo, sem a necessidade de passar por um ramal. Nesse caso o preço seria mais caro. Estamos viabilizando um preço acessível para tornar o serviço bem popular. A intenção é, por exemplo, chegar a 10 reais por cada ramal. Está em fase de testes há três meses. Outro detalhe é que você utilizando esse ramal pode ligar para qualquer número fixo do Brasil a custo zero. Estamos assinando um pacote que permitirá ligar para qualquer número do Brasil, inclusive celular, também pagando zero. Pegando isso e colocando no meio corporativo, aí é que é vantajoso mesmo. Imagine uma pousada, que precisa confirmar reservas, por exemplo. A um custo fixo ligaria para qualquer telefone do país sem variar seu custo. O único ponto negativo é que você não pode utilizar o serviço de VOIP como sua linha exclusiva, já que ele não funciona como telefone emergencial. Você não pode fazer ligação para números de emergência, como bombeiros ou polícia. O outro ponto é que se a Internet não estiver funcionando, você não vai ligar.
ZONA SUL – Quem se interessar em adquirir uma linha no “Meu Ramal”, como deve fazer?
CHARLES – Pode ligar para (84) 9152-1122 ou (84) 9112-7552, ambos da operadora Claro. Ou então enviar um email para charlimbraw@gmail.com . Também estou entrando em uma empresa que desenvolve aplicações para todo tipo de teleconteúdo digital. A HXD é referência no Brasil e no exterior no desenvolvimento de aplicativos interativos para múltiplas plataformas tecnológicas, tendo como ponto de convergência a televisão. Também pretendo dar um gás para ver se entro em um mestrado na USP. Quero debandar para São Paulo. Agora estou concluindo uma pós em Comunicação Digital, na UnP. Caso meu plano de morar em São Paulo não dê certo, vou tentar carreira em Brasília. Nos últimos meses coloquei na cabeça que tenho que sair de Natal de qualquer forma. A cidade é legal, é massa, mas preciso sair para poder ter um crescimento. Natal ainda é bastante provinciana e tem uma mentalidade muito fechada, tanto profissional quanto pessoal. Quero sair para poder, em outro lugar, medir de verdade o potencial que tenho. Sinto que Natal está me limitando.
ZONA SUL – Por falar em extrapolar limites, você e Ranieri colaboraram para que o último Jailbreak pudesse ser lançado...
CHARLES – Sim. Eu e Ranieri, o bat-parceiro, temos telefones da Apple desde o Iphone 2. Sempre consumimos muita tecnologia. Hoje em dia ficou fácil para o usuário fazer um Jailbreak. Basta clicar em um botão e o bicho faz sozinho. Antigamente tinha que quebrar mesmo o sistema. Era mais complicado. Foi desvendando o Iphone 2 que aprendemos tudo. Destruímos tudo mesmo. Depois que houve a atualização do IOS, logo após o penúltimo Jailbreak, continuamos lendo os fóruns, conversando, pesquisando... Passou um grande período, e nada de sair o Jailbreak. Depois de muito tempo mandamos um email apontando as brechas no sistema que utilizávamos para colocar programas de monitoramento. Eles responderam agradecendo, dizendo que a brecha era realmente válida e que tinha dado certo. O Jailbreak foi desenvolvido por eles, mas o acesso para instalar no Iphone foi fruto do nosso toque. Mesmo depois das últimas atualizações, ainda acredito que ser viável mais um ou dois Jailbreaks. Reza a lenda que é impossível, mas eu tenho um último respingo de esperança.
ZONA SUL – E a vida sentimental?
CHARLES – Estou solteiro já há muito tempo, apesar de nunca ter sido casado nem noivo. Nunca subi no altar, nem botei aliança no dedo. Mas não fico preocupado, pensando ou procurando. Deixo rolar. Agora que estou passando do meu primeiro quarto de vida, já que pretendo viver pelo menos até os 120. Quando eu passar da metade, penso nisso.
ZONA SUL – Um medo que existe hoje é de a pessoa ter seu computador, tablete, notebook ou telefone invadido. O que você recomendaria a respeito de segurança na navegação na internet?
CHARLES – O engraçado é que 90% das invasões ou roubos não são nem roubo, nem invasão. A própria pessoa revela seus segredos. A recomendação é saber o que vai falar e expor para as pessoas. O negócio é se controlar na hora de digitar. Certa ocasião, na época do Orkut, passamos uns quinze dias brincando de roubar, entre aspas, email das pessoas. Era só pensar um pouquinho para conseguir. Não precisava de nenhum conhecimento tecnológico. Nas comunidades de solteiros e solteiras do Orkut conseguíamos o email do MSN das meninas e íamos lá recuperar a senha. Pergunta secreta: qual a comida que mais gosto? Voltava para o Orkut e lá olhava as comunidades da menina: eu amo chocolate, apaixonada por lasanha... Era só usar um pouco a inteligência. Depois a pessoa reclamava que tinha sido hackeada... Nada disso, ela própria se dedurou. Uma boa dica para evitar esse tipo de problema é não se expor demais. Quanto mais se expor, mais frágil fica.
ZONA SUL – E Brasília? Você gosta da cidade?
CHARLES – Me sinto como na minha segunda casa. Sempre gostei muito de Brasília. Se eu não conseguir pegar o vínculo em São Paulo, um dos cantos que vou correr é para cá. A cidade é legal, boa pra viver. A parte verde é muito grande, isso é fantástico. A cidade é toda projetada, pensada. Às vezes confunde tantas quadras e blocos iguais. Mas aqui me sinto totalmente acolhido. Gosto também do clima: calor durante o dia e frio à noite. Na primeira vez que vim, passei uma semana. Na segunda, quinze dias. Nessa terceira já estou há mais de vinte. Na próxima serão alguns meses. Se não der certo em São Paulo, venho correndo pra cá.
ZONA SUL - Deixe um recado para o “Zona Sul”.
CHARLES – Para qualquer lugar que você se vira, hoje em dia, há uma carga infinita de informações. Por isso você tem que delimitar quais as que servem para você e quais não. É necessário usar um bom filtro, até porque grande parte daquelas informações é lixo. Outro recado tem a ver com esse período em que o povo saiu às ruas para exigir mudanças e protestar. Se você é a favor das mudanças, comece tentando mudar a si próprio. Não adianta estar nas ruas gritando e protestando se você chega em casa e comete os mesmos pecados que criticou. Por fim, uma frase: não acredite em tudo que você lê, que você vê e que você ouve, tudo na vida é uma Matrix. Valeu.
 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Entrevista: Manassés Campos

A MÚSICA POTIGUAR NO VARAL DE MANASSÉS


Manassés da Silva Campos nasceu em Natal, no dia 31 de janeiro de 1962. No último sábado de junho, ele foi sabatinado, em Brasília, por uma equipe de primeira que me acompanhou nessa entrevista para o “Zona Sul”. O repórter Roque de Sá (http://agenciatempo.com.br/) cuidou não apenas da cobertura fotográfica, mas também encaixou perguntas que facilitaram a montagem do mosaico da vida de Manassés Campos. O violonista e empresário da gastronomia, Ricardo Menezes (que está de casa nova, o Ancoradouro Sushi & Grill), utilizou sua amizade de décadas com o entrevistado para preencher as lacunas da história que eu e Roque tentávamos destrinchar. E Manassés não mediu palavras para contar seu lado mais conhecido de jornalista, poeta, compositor, músico e servidor público, como também revelou a formação evangélica, a curta passagem pelo Exército e o sonho não realizado de ser um pesquisador de teoria estética da literatura. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Conte sobre sua família.
MANASSÉS – Lá em casa todos temos nome começando com a letra “M”. Miguel, meu pai, é da família Campos, de Lajes do Cabugi. Minha mãe, Maria, é de São José de Mipibu. Míriam é a irmã mais velha. Trabalhou muito tempo com o marido, Orismar Carlos, construindo aquelas lojas da Sport Master. Ela diz que ainda é empresária, mas hoje em dia não faz nada, só aproveita a vida. Milca, a segunda, é servidora pública aposentada. Moisés é servidor da Funasa. Mirtes também é aposentada do serviço público. Depois dela, eu nasci. Em seguida veio Miguel Júnior, que é servidor público da prefeitura de Natal, e Marinésio, que a gente chama de Nezinho. Ele também é funcionário público.
ZONA SUL – O que o seu pai fazia da vida?
MANASSÉS - O homem que morava no interior, naquela época, normalmente trabalhava com a terra. Fazer isso em Lajes, pleno sertão brasileiro (lá passa anos sem chover), era praticamente impossível. Meu avô tinha terras na região, mas improdutivas. Ele criava cabras e, quando chovia, gado. Papai se mudou para Natal na busca de trabalhar em alguma coisa. Virou ourives: montou uma joalheria para comercializar ouro e joias. Mamãe saiu de São José de Mipibu para estudar em Natal. Lá os dois se encontraram, casaram e formaram a família. Meus pais têm mais de 60 anos de casados. Antes de ser ourives, papai foi do Exército, na época da Segunda Guerra. Conheceu mamãe quando deixou a vida militar. Quando casaram, ele se converteu ao evangelho. A minha formação religiosa é evangélica. Meus pais são da Assembleia de Deus.
ZONA SUL – O que a religião evangélica representa para você?
MANASSÉS – Por ter sido criado dentro dos conceitos e da doutrina evangélica, eu, naturalmente, tenho um temor reverencial. Há quem discorde, mas acho que esse temor reverencial de um Deus onipotente, onisciente e onipresente é que segura a humanidade, sobre vários aspectos. Se não tiver esse freio de acreditar em Deus, as pessoas perdem o senso de humanidade.
ZONA SUL – Há diferenças entre o evangélico de ontem e o de hoje?
MANASSÉS – Os evangélicos de antigamente se modernizaram ou se adequaram a uma nova realidade. As igrejas não podem se isolar, como se num mosteiro estivessem, e fugir de um mundo real que a sociedade vive hoje. A televisão ditou novos costumes, rotas e roteiros a serem seguidos. Na minha infância, mamãe não podia usar batom, brinco ou cabelo curto. Tudo o que pudesse proporcionar uma atratividade maior às pessoas do sexo feminino era proibido. Principalmente nas igrejas evangélicas mais conservadoras e tradicionais, havia essa proibição talvez para evitar que os homens olhassem as mulheres com os olhos do desejo, digamos assim. Hoje é diferente: elas vestem calças compridas, cortam cabelo, usam brinco... ZONA SUL – Os pastores ganhavam muito dinheiro?
MANASSÉS – Só posso falar pelo que vi. Quem eu vi foi o meu pai. Ele construiu muitas igrejas, não apenas do ponto de vista religioso, mas físico também. Lembro que - com seis ou sete anos de idade - eu o via preparando a massa, carregando tijolo, manuseando a colher de pedreiro e construindo um templo. Papai nunca teve casa ou carro comprados com o dinheiro da igreja. Ao contrário: quando havia algum problema em alguma igreja evangélica do interior, quando algum tempo estava caindo, quem ia resolver era ele. Sobre essa experiência eu posso falar, a dos outros eu não sei. Papai hoje tem 86 anos e é uma referência, é um dos pilares da igreja.
ZONA SUL – E a música, como surgiu na sua vida?
MANASSÉS – Meu pai tocou saxofone, antes de eu nascer. Começou quando era militar e, depois, tocou na igreja. Não o vi tocar. Devo ter herdado geneticamente esse gosto pela música. Quando minhas irmãs se tornaram adolescentes, papai comprou para elas um acordeom. Por volta de 1974, ele adquiriu também um violão. Meu irmão, Júnior, foi quem primeiro começou a tocar alguns acordes. Pouco tempo depois, eu também comecei a me interessar pelo violão. Comecei naquele autodidatismo, buscando as notas. Todos os meus irmãos ou sabem tocar alguns acordes em acordeom ou no violão. Até mamãe tocava pandeiro.
ZONA SUL – Que tipo de música você costumava ouvir?
MANASSÉS – Comecei a me interessar pela MPB aos 12 anos, quando ouvi Milton Nascimento. Um amigo me emprestou o elepê “Milagre dos peixes”. Na mesma época, também fui atraído por músicas de Caetano, Gil e Ivan Lins, entre outros, que tocavam nos carros de som de campanhas políticas. A partir daí, juntava cada tostão que ganhava para comprar discos. Em 1978, eu já tinha uns 200 discos. Além de MPB, tinha rock pauleira (Uriah Heep, Black Sabbath e Kiss) e rock progressivo (Rush). Até hoje sinto uma identidade grande com o “Clube da Esquina”. Me identifiquei tanto com Minas Gerais, que terminei me casando com uma mineira. Quando escutei “Beijo partido” e quando ouvi “Minas” fiquei pensando: “que negócio é esse, quem é esse povo, onde é essa nação?”.
ZONA SUL – Nessa época, onde você estudava?
MANASSÉS – Estudei em São José de Mipibu até completar 14 anos e entrar na ETFRN, no curso de Mineração. Lá encontrei colegas que compartilhavam do gosto pela música. Entre eles, Sueldo Soaress, Ricardo Menezes, Santa Rosa e Zanoni, que infelizmente morreu tragicamente há pouco tempo. Na Escola estudavam pessoas de várias vertentes culturais, étnicas e sociais. A convivência no dia-a-dia permitia a cada um captar e absorver aspectos da vida do colega. Era uma coisa muito louca. Nessa época eu estava aprendendo uns acordes de violão. Quando não sabia uma música, ia procurar naquela revista Vigu (Violão e Guitarra). Ela trazia a informação musical bem organizada. Quando você tocava, sentia que o acorde encaixava direitinho. Depois surgiram outras publicações meio alinhavadas, não muito bem trabalhadas.
ZONA SUL – Por que você optou por Mineração?
MANASSÉS – Na vida, às vezes você faz escolhas sem saber o porquê. Na época a Petrobras estava se instalando no Rio Grande do Norte. Os alunos de Mineração, Eletrotécnica, Mecânica e Geologia, quando terminavam o curso, faziam um estágio de 45 dias e eram contratados, sem precisar de concurso. Não aproveitei essa facilidade porque, quando concluí Mineração, o Exército me pegou. A maioria dos meus amigos fez o alistamento militar em cidades do interior. Eu me alistei em Natal. Para complicar, o tenente que coordenava a comissão de seleção do Exército me conhecia de uma forma não muito boa. Jogando voleibol pela ETFRN, vez por outra enfrentava o time da Brigada do Exército. Além de a gente sempre vencer, em duas ou três ocasiões subi na rede e carimbei uma “medalha” no peito desse tenente. Enquanto ele ficava bravo, eu ria. No dia em que fui me apresentar, quando ele me viu, olhou pra mim e disse: “agora você vai jogar com a gente aqui no time da Brigada”. (risos). Por intermédio de Jorge Moura – nosso treinador de vôlei na Escola – ainda busquei uma alternativa para escapar do Exército e ir para a Petrobras.  O tenente respondeu ao bilhete de Jorge dizendo que não tinha quem me fizesse ser dispensado. Entrei e fiz curso para cabo e, em seguida, para sargento. Por isso tive que ficar três anos no Exército. 
ZONA SUL – Você recomendaria ao seu filho servir às Forças Armadas?
MANASSÉS – A dinâmica social, hoje, é diferente. O mundo mudou. Hoje, quando a família se organiza, ela tem condições de disciplinar e administrar a vida de um adolescente para que ele exerça sua cidadania. Por isso eu não diria a meu filho para ele cumprir o serviço militar. Mas, para mim, foi importante. Pude exercitar a autodisciplina e a determinação e também pude traçar objetivos e buscar alcançá-los. O serviço militar contribui para o amadurecimento do ser humano, o tempo que passei lá não foi perdido. Fui para o Exército na época em que estava começando a ingressar num tipo de leitura que era marginal e a me envolver com movimento estudantil. Aos 18 anos, eu estava acostumado a participar de rodas de violão com amigos, a jogar vôlei e futebol, a namorar e ir para boteco, a curtir a praia e me divertir. Nessa época eu já ensaiava tocar meia hora no “Boca da Noite”, na subida da Rio Branco. De repente esse cenário mudou radicalmente e eu me vi no Exército.
ZONA SUL – Onde você foi servir?
MANASSÉS - No 2º Batalhão de Engenharia e Construção, lá em Teresina. De lá me despacharam para o destacamento Rodrigo Otávio, entre Xambioá (na época município de Goiás, hoje pertence a Tocantins) e São Geraldo do Araguaia (no Pará). O rio era a divisão entre Goiás, Pará e o Mato Grosso. Fiquei exatamente na região onde poucos anos antes, tinha sido debelada a Guerrilha do Araguaia. O destacamento existia naquela região para não permitir a repetição da experiência.
ZONA SUL – O que de interessante, sobre a guerrilha, você pode contar?
MANASSÉS – Diziam que as armas dos guerrilheiros eram importadas da Rússia e de Cuba, mas elas não passavam de espingardas de soca usadas por trabalhadores e caçadores da floresta. Falam na prisão de gente com arma automática, mas, pelo que presenciei, elas não existiam. Não vi metralhadoras ou fuzis. Como a coisa ainda estava fresca, os moradores tinham medo de fazer muitos comentários sobre o assunto. Mas ouvi que algumas pessoas teriam chegado por lá incentivando a tal guerrilha. Porém, o povo da região nem sabia o que era. A população só veio compreender depois. O Exército pensava que queriam fazer uma revolução, mas não existia nada disso. Muita gente morreu sem saber porque. Arquivos mostram que pessoas foram presas, torturadas e mortas.
ZONA SUL – Que conclusão você tira desse período no Araguaia?
MANASSÉS – Na época, eu não tinha uma leitura política adequada. Hoje entendo que, a exemplo de tantos fatos brasileiros, sufocaram uma coisa que não existia. Houve um exagero. Em Xambioá tentaram sufocar uma guerrilha rural que na verdade não existia. O que tinha era gente passando fome e procurando terra, mas o latifúndio não deixava. Mas, naquele tempo, eu era um militar que nem sabia onde estava. Um jovem de 18 anos que tinha saído de Natal e largado aquela rotina de ir para escola, tocar violão e me divertir com os amigos. Me vi dentro do Exército, no meio do mato, na divisa do Pará. A experiência me chocou, mas também contribuiu para eu ter uma visualização de que o mundo não era só aquele habitat que eu compartilhava com a família e os amigos. Os horizontes ampliam quando você sai do seu círculo natural. Passei seis meses em Xambioá. De lá voltei para Teresina e retornei para Natal.
ZONA SUL – Que rumo sua vida tomou depois do Exército?
MANASSÉS – Quando saí do Exército, alguns amigos da minha época já estavam trabalhando, enquanto outros faziam faculdade. Saí meio sem saber o que ia fazer da vida. Não consegui estudar enquanto estava na vida militar. Depois do Exército passei dois anos parado, só estudando violão e vivendo. Com 23 anos, entrei no curso de Letras, da UFRN. A Mineração eu enterrei de vez. Talvez se eu tivesse ido para a Petrobras, não teria tentado realizar meu projeto de vida: ser um pesquisador de teoria estética da literatura.
ZONA SUL – Por favor, explique essa teoria estética da literatura.
MANASSÉS – Em resumo, ela estuda como definir os grandes clássicos da literatura, como o texto se organiza e o que o conteúdo daquele texto quer dizer. Por exemplo: quando você escreve “no meu jardim existem muitas flores e o jardineiro colhe essas flores para me dar”, não tem coisa mais lógica do que isso. Mas, quando a frase é “no meu jardim existem flores que engoliram todos os monstros”, aí é preciso interpretar o que o autor quis dizer com aquilo. Que flores são essas que engolem monstros? O autor pegou os signos, as palavras, e construiu um texto que vai possibilitar várias interpretações. De certa forma, a teoria estética da literatura é o estudo do que os autores querem dizer com seus textos. Meu projeto de vida, naquela época, era esse. Por isso fui cursar Letras, mas não terminei. No último semestre desisti de ser teórico da literatura. Falou mais alto a necessidade de existência. Mas, até então, meu projeto era ir para São Paulo, tentar ser professor da USP.
ZONA SUL – Durante esse período, onde a música se encaixava?
MANASSÉS – Sempre estive próximo da música. No tempo de São José de Mipibu eu gostava de ficar na praça, tocando com meu irmão Júnior e os amigos Eugênio Parcele e Ismael Alves. Ismael, que é de Parnamirim, nessa época morou em São José de Mipibu. Depois ele entrou em um formato de produção musical vinculado aos movimentos sociais. Na ETFRN, até nas viagens do time de voleibol a gente levava o violão. Mesmo no Exército, nunca deixei de tocar. Continuei tocando violão e lendo poesia. O que me fez sentir necessidade de compor foi ver os caras tocando na noite, em Natal. A noite sempre foi uma escola pra todo mundo.
ZONA SUL – Naquela época se tocava música autoral nos bares?
MANASSÉS – Pouco. Quem começou a tocar um pouco de música autoral foi Expedito. Depois, Nazareno voltou de São Paulo e montou o “Antigamente”. Lá, ele e Silvana tocavam composições próprias. Pedrinho Mendes e Sueldo Soaress começaram mais ou menos na mesma época. Mas a produção não era grande. Infelizmente, Natal nunca oportunizou aos seus artistas uma inserção maior no contexto cultural da cidade. Houve certa efervescência entre os anos 1990 e 2000. Depois começou a queda e hoje está em banho-maria. Natal, do ponto de vista da música popular, está congelada de uma forma meio triste. A primeira vez que toquei em bar foi no “Boca da Noite”. Ao final da apresentação de Sueldo, peguei o violão e comecei a tocar. Como as pessoas gostaram, a dona do bar me chamou e pediu para eu continuar tocando por mais meia hora. A partir daí comecei a tocar na noite, mas esse nunca foi o meu forte. Tocando em bar, fui me aperfeiçoando. Então, resolvi tentar estudar. Entrei na Escola de Música da UFRN e estudei teoria um tempo. Estudei violão clássico para ter uma base e conhecer os acordes todos. Porém, acho que para tocar bem um instrumento musical depende do instrumentista. Ou você estuda por si só, ou termina sem conhecer.
ZONA SUL – E as composições, quando começaram a surgir?
MANASSÉS - A primeira música que compus foi para participar de um festival interno da ETFRN, em 1979. A música não logrou sucesso. Na segunda tentativa, a música que inscrevi era um pouco melhor, mas também não teve boa classificação. Porém, em 1987 inscrevi duas músicas próprias e uma terceira – em parceria com Edinho Queiroz – no Festival da UFRN. Essa última, chamada “Upstairs”, ganhou o festival. Teve época de eu tocar em bar mais constantemente, mas Natal nunca oportunizou a ninguém a possibilidade de ter uma vida musical autoral fazendo shows e participando de projetos que permitissem sua sobrevivência. É bom lembrar que artista não vive de ar, nem de vento.
ZONA SUL – Será que a competitividade dos músicos potiguares entre si contribui para isso?
MANASSÉS – Até o final da década de 1980, poucos tinham ido buscar espaço no Rio de Janeiro e em São Paulo: Flor de Cactus, Nazareno, Gilson, Terezinha de Jesus, Mirabô (que depois migrou mais para o mundo sindical) e outros poucos. Pedrinho Mendes passou um tempo curtíssimo no Rio, e também não logrou êxito. Teve também Gilliard, Carlos Alexandre... Acho que o grande sucesso potiguar foi a música “Casinha branca”, de Gilson. Mas, curiosamente, o Rio Grande do Norte foi um estado que não projetou ninguém no cenário nacional daquela época. Outros estados que conseguiram formar artistas de sucesso, ainda hoje persistem. Terezinha de Jesus teve um desponte importante. Além de a música dela ser boa, ela sempre foi uma figura maravilhosa. Só Terezinha para explicar porque depois de tanto sucesso ela voltou para Natal.
ZONA SUL – Terezinha fala sobre esse tema em entrevista que deu para o “Zona Sul” e que está disponível na Internet: (http://zonasulnatal.blogspot.com.br/2009/01/entrevista-terezinha-de-jesus.html).
MANASSÉS – Talvez várias circunstâncias tenham impedido que a carreira de Terezinha e de muitos outros tenha decolado e eles não tenham hoje um nome forte nacional.
ZONA SUL – Como está a música brasileira hoje?
MANASSÉS – Esteticamente, até os anos 1990 a música brasileira era bem dividida. Tinha a música brega e uma mais elaborada que entrava no rol da MPB. Sobre a música brasileira de hoje em dia, acho que, do ponto de vista da construção e da produção musical, ela está ótima. Quem procurar vai encontrar compositores maravilhosos elaborando canções com conteúdo e esteticamente bem feitas. Dá para fazer uma listagem enorme de cantores e compositores e ninguém conhece. Por exemplo: quem ouviu falar em Sérgio Santos? É um compositor maravilhoso.
ZONA SUL – Nos anos 1980 você, Antônio Ronaldo, Leão Neto, Edimar, Sueldo e tantos outros criaram um movimento de grande repercussão na cidade. Fale sobre o “Trampo”.
MANASSÉS – O “Grupo Trampo” foi criado naquela época em que os artistas trabalhavam de forma isolada, cada um construindo o seu lado. O músico potiguar, a exemplo do músico brasileiro – principalmente o compositor –, se sentia (e acho que hoje é pior ainda) miniaturizado frente às estruturas engendradas pelo mercado. Não havia uma motivação para ele produzir e divulgar sua música autoral. O mercado não absorvia esse trabalho como deveria. Era difícil até registrar essas canções, já que o formato que a tecnologia da época permitia era muito caro. O único caminho que encontramos foi nos juntarmos e Sueldo tocar a música dele e a minha, eu tocar as minhas canções, as dele e as de Ronaldo, e Ronaldo tocar as nossas e as de não sei quem lá. Tenho até hoje um texto impresso, um compêndio de umas 50 páginas, onde tentamos interpretar aquele momento.
ZONA SUL – Quem é o autor desse texto?
MANASSÉS – Antônio Ronaldo escreveu um bocado, eu escrevi outra parte, Leão Neto corrigiu e deu muitas ideias, junto com Sueldo. Foi feito um “brainstorm” grande para discutir a música brasileira e a potiguar de antes, a daquele momento e a que poderia surgir depois. O fato é que o “Grupo Trampo” gerou um “boom”. Fizemos um show na Rua da Floresta, na Vila de Ponta Negra, que reuniu 1.300 pagantes. Depois dessa festa conversei com umas 30 pessoas do Ceará que tinham ido assistir. O “Trampo” deu uma certa impulsionada na música popular potiguar. Depois o movimento se esvaiu devido a várias circunstâncias. Do jeito que começou, acabou. Não foi um movimento planejado, como também sem planejamento nenhum acabou.
ZONA SUL – Existe a possibilidade de o “Trampo” ressurgir?
MANASSÉS – Vez por outra converso com Antônio Ronaldo e Sueldo e a gente até comenta que poderia tentar reeditar. Mas o momento hoje é diferente. O fato é que a partir do “Trampo” alguns discos foram lançados. Eu lancei um, Leão Neto e Edimar Costa lançaram outros. Até então, só Pedrinho Mendes tinha gravado dois discos. “Flor de Cactus”, Nazareno e Terezinha de Jesus tinham produzido elepês, mas fora da cidade. Demos nossa contribuição para o povo perceber que a música local tem valor.
ZONA SUL – Fale sobre esse seu primeiro disco.
MANASSÉS – Lancei em 1989. Naquela época era difícil e caro fazer um disco. O poeta e professor macauense Benito Barros, já falecido, foi quem deu a ideia e me ajudou a buscar uma forma de viabilizar o projeto. Angariamos recursos de um lado e do outro. Fui gravar no estúdio “Estação do Som”, em Recife. O disco se chamou “Nós” e foi lançado com quatro canções, duas de cada lado. Ele rendeu bons frutos, do ponto de vista da divulgação e da ampliação do trabalho musical que eu vinha fazendo. O LP me deu oportunidade de uma entrada maior, consegui participar de vários projetos no Nordeste: João Pessoa, Fortaleza, Maceió...
ZONA SUL – Quando você gravou esse disco já tinha uma ocupação profissional fora da música?
MANASSÉS – Eu era estudante universitário e ainda tinha o sonho de sobreviver da música, de trabalhar nessa área.
ZONA SUL – Quando esse sonho virou pesadelo?
MANASSÉS – Esse sonho não virou pesadelo nunca, mas migrou para o espaço mais concreto da necessidade de sobrevivência. Vendo por um ângulo poético, esse pesadelo perdura até hoje. Pesadelos se transformam em sonhos que emocionam quando consigo construir uma nova canção. Tem certas músicas que começo a tocar e não consigo terminar, emocionado. Às vezes, chego ao final da canção meio cambaleante, carregando aquela emoção forte. O artista da música popular é dotado de conjugações, cores, imagens, verbos e sons para colorir a vida e deixá-la mais prazerosa e emocionante. Ele busca transformar em uma realidade bonita esse sonho que às vezes é pesadelo.
ZONA SUL – Antes de lançar seu segundo disco, que outros caminhos você buscou para poder sobreviver?
MANASSÉS – Quando a pessoa não tem uma família que possa lhe dar uma vida nababesca ou principesca, como aqueles clãs ricos e tradicionais do Nordeste, ela normalmente tem que fazer alguma coisa na vida para sobreviver. No Nordeste - em Brasília também é assim - se procura muito o serviço público. Então decidi: se não conseguia me manter como artista seria servidor público. Fui estudar para fazer concurso público. Dessa forma ingressei no Judiciário e até hoje estou por lá.
ZONA SUL – Você se sente frustrado por isso?
MANASSÉS – Não. Até porque continuei trabalhando com música. Mas, antes de ingressar no serviço público, concluí a universidade. Quando desisti de Letras, fiz reopção e entrei em Direito. Foi outra faculdade frustrada. O Direito é muito voltado para o positivismo, para a preservação do “status quo”, do que está estabelecido, do ordenamento jurídico. Na época eu usava camisa com o poema de Brecht, “O Analfabeto Político”. Sempre tinha uma opinião diferente do que estava tradicionalmente posto. Então desisti do Direito e me direcionei para o Jornalismo. Lá encontrei tudo o que é vertente. Paralelo ao novo curso, comecei a estudar para concurso. Já são 24 anos de serviço no Tribunal Regional do Trabalho, sem abandonar a música. Nesse meio tempo, lancei meu segundo disco, “Varal do Tempo”.
ZONA SUL – Fale sobre esse CD.
MANASSÉS – Pensei no disco como ele sendo um varal onde eu expusesse a minha vida. Cada peça de roupa, cada camisa estendida seria uma canção. No disco tem canção para mim, para o meu filho, para a minha esposa, para a minha cidade, para os meus amigos, para aqueles que militavam na música... Compus uma música para cada um desses temas e joguei dentro do disco. Acho que saiu um disco bacana em estética e conteúdo. A repercussão foi muito boa, tanto que, surpreendentemente, uma das músicas foi gravada várias vezes por outras artistas. “A Lua, o Amor e o Mar” foi regravada cinco ou seis vezes. Até uma americana, chamada Kate Bentley, gravou e escolheu o nome dessa canção para ser título do seu disco lançado com canções brasileiras. A cantora carioca Claudia Amorim gravou quatro músicas minhas em um disco.
ZONA SUL – Como elas conheceram seu trabalho?
MANASSÉS – Claudia Amorim ouviu o disco, gostou e entrou em contato. Kate Bentley também. Kate é uma diplomata americana que cantava nos Estados Unidos. Morou um tempo em Recife, mas hoje reside em Londres. Fiz o lançamento do “Varal do Tempo” em Natal, Porto Alegre, Brasília e Rio de Janeiro. Um jornalista do “Jornal do Brasil” fez uma crítica interessante do CD e publicou na capa do caderno de cultura de Niterói. Fiz um show no “Armazém da Música”, em Niterói. Na plateia tinha um cara do Pará, em uma mesa com cinco pessoas. Ele foi ao show para me conhecer. Não sei como, ele possuía o meu elepê. Esse paraense comprou cinco CDs para presentear os amigos. No Rio Grande do Sul, um cara já tinha o CD por lá. Se eu fosse me dedicar exclusivamente à música, o resultado da divulgação seria bem maior, já que é um disco bacana, bem tocado. Tem Arthur Maia (baixista), Marcelo Martins (sax e flauta), Sérgio Farias, Jubileu, as cantoras Khrystal, Lene Macedo e Valéria Oliveira, Gilberto Cabral (trombone)... Ricardo deu uma contribuição grande! Agora estou preparando o terceiro.
ZONA SUL – Esse novo disco já tem nome?
MANASSÉS – Deverá se chamar “Terra à Vista”. As músicas já estão gravadas. Nele me mostro enquanto pessoa humana, artista da música e me dou oportunidade para falar sobre o que eu descobri na vida. As canções falam dos boqueirões que a vida me abriu e as interpretações que eu dei a esses boqueirões que a vida me proporcionou. Eu falo da natureza, do amor e de tudo o que acontece na vida de uma pessoa. Está quase pronto. Talvez precise de um detalhe aqui e outro ali. É quase o mesmo time que participou do primeiro: Sérgio Farias, Jubileu, Erick Firmino, Dudu Taufic e Di Stéffano. O CD tem linguagem de banda. Tem também Marcelo Martins (sax e flautas). A intenção era ter lançado no ano passado. Como esse prazo já foi para o espaço, vou ver se consigo lançar o disco até outubro.
ZONA SUL – Fale sobre sua mulher e seu filho, pessoas que compartilham mais diretamente a vida com você.
MANASSÉS – Um pescador vai para o mar na expectativa de buscar a melhor pescaria para si e para a sua família. Um garimpeiro está sempre à procura da melhor pedra preciosa, do melhor mineral. Um cavaleiro escolhe dentre os melhores cavalos a montaria que ele acha ser a ideal. Enfim, o ser humano sempre procura na vida o melhor. Na verdade, o que eu tenho de mais precioso hoje eu não procurei. Surgiu como se fosse um prêmio do qual eu talvez nem fosse merecedor. Nem saí para o mar, como o pescador; nem fui ao garimpo, como o garimpeiro; nem escrevi um bom livro, como escritor teria feito. Surgiu para mim como se presente fosse. Talvez eu até merecesse, mas não estava buscando. Baseado na minha formação religiosa, diria que esse presente me foi dado por eu ter um bom coração. Foi uma recompensa. Ana é uma pedra preciosa que já veio para mim lapidada...
ZONA SUL – ...E que você guarda como um tesouro...
MANASSÉS – Não guardo como um tesouro. Ela é uma pessoa que me traz um aprendizado constante. Aí é onde reside a maior riqueza pra mim. Esse aprendizado me projeta como ser humano. Quando a conheci, ela me deu a possibilidade de me sentir realizado como ser humano. Depois, com o nosso filho, Eduardo (Dudu), surgiu um pulso de humanidade que – nessa vida conturbada de hoje - ao mesmo tempo me enriquece e me ensina que eu tenho que estar em uma constante desaceleração da ansiedade do dia-a-dia. Quanto menos ansioso estiver, mais em paz estarei com a família. Com eles dois, consigo ser mais humano, mais pai, mais amigo, mais filho, mais indivíduo. A cada dia eles me ensinam a viver melhor.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul.
MANASSÉS – Primeiro eu gostaria de sugerir ao povo potiguar que preste mais atenção nos seus artistas. Natal tem uma possibilidade musical riquíssima, tem compositores belíssimos como Antônio Ronaldo, Babal, Cleudo, Luiz Gadelha, Sueldo Soaress, Pedro Mendes e tantos outros. Na música instrumental, também. Tem músicos de qualidade internacional, como Eduardo Taufic, Jubileu, Sérgio Farias, Sérgio Groove e Ricardo Menezes. Infelizmente os veículos de comunicação de massa no Brasil têm prestado um grande desserviço. Desde a Rede Globo até os outros, eles ideologizaram a música nacional colocando a cultura de massa em detrimento das raízes culturais do nosso povo. O que me interessa, aqui no Brasil, conhecer o funk dos Estados Unidos - ou outros ritmos estrangeiros - enquanto não tenho a possibilidade de ouvir e ver na TV o samba, o baião, a marcha-rancho e tantos outras manifestações culturais nacionais? Hoje as pessoas vivem sob a égide da TV e do rádio. O que é veiculado as pessoas absorvem, muitas vezes sem nenhum senso crítico, de goela abaixo.
ZONA SUL – Como as pessoas podem ter acesso ao seu trabalho?
MANASSÉS – Acho que o CD “Varal do Tempo” ainda pode ser encontrado na Cooperativa da Universidade e em algumas livrarias de Natal. Quem não mora em Natal pode mandar um email para manassescampos@gmail.com. Estou no Facebook com o meu nome: Manassés Campos. Para finalizar, eu gostaria de deixar registrado que as entrevistas que o “Zona Sul” está fazendo são importantes porque perpetuam as histórias que são contadas. Como todo esse material está disponível na Internet, as futuras gerações que porventura possam se interessar por esses temas terão um repertório vasto para a pesquisa. Eles poderão saber que existiram pessoas construindo histórias, fomentando novas estéticas, compondo música e fazer artístico e sabendo que a humanidade caminha no sentido da sua evolução. Diferente da sociedade de hoje, buscamos um futuro onde o homem viva em benefício do próprio homem.